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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

#144 zé pedro

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Caro Zé Pedro,

Eu não te conheço. Se houver vida após a morte ou algum tipo de descanso eterno, coisa na qual não acredito minimamente, embora também não ponha a minha mão no fogo pela sua inexistência, então que descanses de sorriso bem empregue. Dizia: eu não te conheço. Todavia, já fomos apresentados. Já trocámos palavras, sorrisos, gargalhadas e cordialidade. Já estivemos no mesmo lugar à mesma hora e com as mesmas pessoas mais do que uma vez. Tivemos grandes, grandes amigos em comum. Não muitos porque não tenho muitos. Mas bons comó caraças. Conheço, até, pessoas da tua família.

 

Reiteiro: eu não te conheço. Como tal, não sei se ias gostar da cobertura mediática e do ajuntamento gigante e das reportagens e os directos e os discursos nos Jerónimos. Também não posso dizer que eras incrível, embora os nossos mo digam que eras. Ainda, não posso afirmar, como se fosse tua colega de escola, vizinha do lado e prima afastada, tudo cumulativamente, que estarias a sorrir perante as multidões ou a mandar cancelar o funeral já; que estarias a rir perante a manifestação de amor ou a chorar de saudades do mundo e da tua famíia; que estarias, ou ainda mais sobranceiramente, “estás” a sorrir a todos lá de cima, mas preferirias uma cerimónia simples. Porque, apesar de todos os nossos elos, eu não te conheço. Nem eu, nem a maior parte deste país que, de alguma maneira, acha que por ter ouvido a tua música, conversado contigo dois minutos antes de uma selfie ou cruzado contigo na fila de um restaurante, pode tecer considerações cheias de propriedade sobre o que ias ou não querer para este dia.

 

Agora, sobre a tua morte: 1 - os meus “nossos” sofrem com a tua ausência, neles tem estado o meu pensamento nos últimos dias. 2 – não suporto a cobertura mediática de funerais, nem de chefes de estado, nem do michael Jackson, nem da princesa diana. Nunca gostei, sempre achei um disparate e ainda bem que há redes sociais para prestar homenagens, que isto de ir chorar ao lado de pessoas da família e amigos, é, no mínimo, estranho. 3 - trouxeste-me de volta ao blog, que havia colocado em pausa pela fase menos divertida que tenho vivido nos últimos tempos. Afinal, até parece que tens o condão de, mesmo nos desconhecidos, fazer renascer uma força positiva qualquer.

 

Com todo o carinho e respeito,

Canhoto.

#109 libertem o sarampo

 

Custa-me muito escrever isto, mas:

Liberdade, ponto e vírgula.

 

É muito lindo isto da liberdade e eu que sou toda sangue quente a defender a liberdade de tudo e mais alguma coisa, mas como é possível sentirmo-nos agora, perante a liberdade de escolha de não vacinar as crianças?

 

A menina morreu. Após 23 anos em Portugal sem nenhuma morte por sarampo. Morreu porque não era vacinada - fim da história.

 

Eu tenho um afilhado com 17 anos e nem consigo imaginar tal cenário. Ele, claro, vacinado, que essa questão lá em casa nem se coloca. Mas e se ele morresse por culpa minha? E se ele morresse por culpa de um idiota qualquer que pensa que sabe mais de medicina que os médicos e que é detentor de um conhecimento profundo de artigos da internet que falam sobre a conspiração da indústria farmacêutica e abre links com títulos como: “os medicamentos naturais que eles não querem que você conheça” ? O que faria eu, como poderia viver com tal revolta? Como vais viver tu, mãe da criança, tu e a tua homeopatia?

 

 

#79 el comandante

 

A minha terapeuta perguntou-me como é que eu me estava a sentir por causa da morte do Fidel. Fico contente que alguém tenha perguntado. Estou bem, obrigada.

 

O meu Fidel, o motorista que provavelmente já nem se lembra de mim, deve estar confuso com a morte do El Comandante. Ele, o meu taxista, a minha amiga B., a bela Y. que está no Canadá e ainda o N. que está na Colômbia. Todos cubanos, uns de nascença e outros por casamento, e todos meus amigos, sentem uma dicotomia grande relativamente à morte do líder da revolução. Nenhum, naturalmente, festeja.

 

Nestes 57 anos de revolução, como eles lhe chamam, o Fidel passou de salvador da pátria ao pior pesadelo do país. Errou, assumiu alguns erros e escondeu a pior parte da história sem aparentes remorsos. Desenvolveu a cultura e o altíssimo nível intelectual e académico da ilha, ao invés de promover um analfabetismo útil à ditadura. E continuou a deixar morrer cubanos por falta de medicação enquanto eliminava a mortalidade infantil. De Fidel, veio o bom e o mau.

 

 

Vivi nesta escola de cinema que ele inaugura na fotografia. Vivi em terras cubanas, sob o regime de Raúl Castro, investiguei sobre dissidentes políticos e crimes contra a humanidade. Soube (e sei) de coisas muito mais feias do que a maioria das pessoas que lerá este texto possa sequer imaginar. Apesar de tudo isso e da minha pública posição contra o regime de Castro, não festejo, não me sinto aliviada e muito menos indiferente. Há um pesar pela memória colectiva de um sonho e é para esse sonho destruído que vai o meu lamento.