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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

#147 call me by your name

 

Introdução:
há uns anos exclamava-se “paneleirices!” para sensibilidades, preciosidades e pormenores. Este post, por exemplo, pelo seu carácter sentimental, podia ter o título “paneleirices”. Só que hoje isso é politicamente incorrecto, porque hoje tudo é politicamente incorrecto. Ora, por considerar os sentimentos algo de mui nobre e os pormenores algo de mui belo, com a mesma nobreza e entrega, dou-lhe este segundo título:

 

Call Me by Your Name e outras paneleirices:

 

call me by your name miliuma.jpg


Há uns dias, escrevi no facebook o seguinte: Já não me lembrava o que era ter o coração esbotenado numa pequenina aresta e reconheço que há algo de belo nesta incompatibilidade, na paixão que não acontece, na assunção de que um vazio virá. A ansiedade da incapacidade amorosa pode ser um poema. E ninguém considera que os poemas têm que ser felizes para ser bonitos. Ou os filmes ou a performance. O amor que não funciona é sempre amor, a paixão desajustada é sempre paixão e estes dois sentimentos são infinitamente mais belos que a precaução (ou negação) da sua existência.

 

Passados minutos, um amigo agradeceu-me com uma sequência de frases, entre as quais “Serviu para ler de alguma forma o que andava a pensar e nem sequer sabia ao certo o que era. ”. Agradeci de volta, achei que talvez tivesse escrito mais para mim do que para os outros e, afinal, tinha sido de uso para alguém.

 

Ontem fui à ante-estreia do Call Me by Your Name. Preparados com lenços, os espectadores preparados pra chorar. Termino o filme gelada, com uma maçã na garganta e nenhuma lágrima. Parva, anuncio o orgulho da ausência de choro, numa valentia cobarde e misógina do sou mais forte que vocês todos. Regresso a casa e recordo-me das minhas próprias palavras do dia anterior e já imaginamos a meia hora seguinte. Moral da história: nenhuma. Que sei eu sobre a vida?

 

Creio que o mais importante é partilhar o monólogo do pai (do protagonista) que, no meio de um filme que não me convenceu particularmente, é absolutamente brilhante, pela interpretação e pelas palavras:

 

“In my place, most parents would hope the whole thing goes away, or pray that their sons land on their feet soon enough,” Mr. Perlman says. “But I am not such a parent. In your place, if there is pain, nurse it, and if there is a flame, don’t snuff it out, don’t be brutal with it. Withdrawal can be a terrible thing when it keeps us awake at night, and watching others forget us sooner than we’d want to be forgotten is no better. We rip out so much of ourselves to be cured of things faster than we should that we go bankrupt by the age of 30 and have less to offer each time we start with someone new. But to feel nothing so as not to feel anything—what a waste!”

 

 

#133 tenho amigas homossexuais

 

Tenho amigas homossexuais.

Tenho amigas homossexuais que estão tristes.

Tenho amigas homossexuais que estão tristes porque não encontram uma pessoa para amar agora, neste momento.

Tenho amigas homossexuais que estão tristes porque não encontram uma pessoa para amar agora, neste momento, devido à impaciência, egocentrismo e falta de tempo para cultivar relacionamentos e cuidá-los como a uma flor, que hoje afectam tanta gente.

 

Tenho amigos heterossexuais.

Tenho amigos heterossexuais.

Tenho amigos heterossexuais que estão tristes.

Tenho amigos heterossexuais que estão tristes porque não encontram uma pessoa para amar agora, neste momento.

Tenho amigos heterossexuais que estão tristes porque não encontram uma pessoa para amar agora, neste momento, devido à impaciência, egocentrismo e falta de tempo para cultivar relacionamentos e cuidá-los como a uma flor, que hoje afectam tanta gente.

 

Tenho amigos.

Eles são meus amigos e eu sou deles. E, numa esfera especial, amamo-nos.

Como podem, então, haver tantas e tantas e tantas pessoas a defenderem a anomalia, o preconceito e, pior, a fazerem de nojo bandeira, a usarem a religião como desculpa para não verem que tudo, absolutamente tudo, é uma questão de amor?

we are all the same.jpg

 

“No one is born hating another person because of the color of his skin, or his background, or his religion. People must learn to hate, and if they can learn to hate, they can be taught to love, for love comes more naturally to the human heart than its opposite.” Nelson Mandela