Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MILIUMA

insónias | ideias | publicações

#109 libertem o sarampo

 

Custa-me muito escrever isto, mas:

Liberdade, ponto e vírgula.

 

É muito lindo isto da liberdade e eu que sou toda sangue quente a defender a liberdade de tudo e mais alguma coisa, mas como é possível sentirmo-nos agora, perante a liberdade de escolha de não vacinar as crianças?

 

A menina morreu. Após 23 anos em Portugal sem nenhuma morte por sarampo. Morreu porque não era vacinada - fim da história.

 

Eu tenho um afilhado com 17 anos e nem consigo imaginar tal cenário. Ele, claro, vacinado, que essa questão lá em casa nem se coloca. Mas e se ele morresse por culpa minha? E se ele morresse por culpa de um idiota qualquer que pensa que sabe mais de medicina que os médicos e que é detentor de um conhecimento profundo de artigos da internet que falam sobre a conspiração da indústria farmacêutica e abre links com títulos como: “os medicamentos naturais que eles não querem que você conheça” ? O que faria eu, como poderia viver com tal revolta? Como vais viver tu, mãe da criança, tu e a tua homeopatia?

 

 

#107 o natal ainda dou de barato, agora, a páscoa?

 

Em criança, passei sempre a Páscoa no Algarve. Viagens intermináveis de carro entre o Porto e o destino escolhido da costa algarvia, paragem obrigatória no Canal Caveira, duas semanas de piscina e de brincadeira com os filhos do Dr. Aroso. Éramos onze, nós e eles e nunca celebrámos a Páscoa. Depois vim morar para Lisboa e depois passei quase cinco anos fora de Portugal e entretanto voltei para Lisboa e, no meio dessa confusão, nunca me apercebi que as pessoas efectivamente celebravam a Páscoa. Este fim-de-semana, sozinha, com tudo fechado, fez-me sentir como se estivesse a passar o Natal num país tropical e toda a gente estivesse recolhida com as suas famílias enquanto eu permaneci, à secretária, a trabalhar em projectos novos até a solidão me agarrar.

 

 

#96 a fobia da justificação

 

Eu sento-me no computador e ele, ao meu lado, olha distraído e de passagem. Algo o chama a atenção no ecrã, pergunta o que é, respondo. Depois começa a ler o que estou a escrever, inocente curiosidade de um amigo que também é marido e que sabe que não tenho nada a esconder. Conhece os meus desejos mais secretos e os nojos que mais me envergonhariam se alguma vez ditos em voz alta; sabe de mim e sobre mim o que nunca ninguém soube e, mesmo assim, contei-lhe nem metade das histórias que contei aos outros namorados, alguns em particular que pediam muito muito para saber de todas as histórias, todas as histórias. Com esses, um dia cansámo-nos e esse cansaço durou para sempre. Com este está tudo bonito e ainda não temos cansaços humanos. Não comenta nem condena. Eu olho para ele e digo-lhe para parar de ler as conversas. Ele diverte-se, muitas vezes, com o que lê e acha que não faz mal. Eu digo-lhe que faz, até porque as outras pessoas não estão a falar com ele mas comigo. E aí veste o respeito e afasta-se.

 

Na casa dos meus pais, o ecrã do computador está de frente para a porta do quarto que me pertence, o meu na casa deles. O meu pai entra, esquece-se que já passei dos trinta e entra como se eu fosse uma menina, batendo à porta a meio do caminho da entrada. Queres vir jantar uma francesinha? Ah, que interessante, o que é isso que estás a fazer no computador?

 

 

#94 ciclos e coisas que não interessam a ninguém

 

Em 2013, Maio, ele foi embora para a Holanda. Foi ser feliz.

Eu, em Outubro, com ainda 17 anos, lembro-me perfeitamente do momento em que cheguei à Estação de Santa Apolónia, franzina de 50 quilos, com uma mala de cada lado de, à vontade, 25 quilos cada.

 

Na minha vida, os ciclos de começo e fim, acompanham quase sempre os períodos do meu aniversário e do natal. Quem sabe se é porque faço um balanço para ver quem é importante, o que me faz bem, quem me faz mais bem que mal. Depois, sem querer forçar escolhas naturais, há os avarios esporádicos.

 

Começa pela máquina da roupa, depois a bateria do carro, contas em atraso que ninguém tinha topado os envelopes, roupa tingida, dores de barriga, um quisto ou outro que aparece aqui ou ali, médicos, perdemos um cartão, dois cartões, partimos o jarro de água favorito e ainda acompanhamos a onda com uns quantos nãos e desilusões. É, certamente, panca minha, pois da última vez não começou com a máquina da roupa, mas, na minha ideia, começa quase sempre com o raio da máquina da roupa que avaria e aí já sabemos que vem um turbilhão de mudanças e podemos acabar a viver no dubai, se não estivermos atentos.

 

O que fazer nestas alturas?

Não faço a mínima ideia. Eu costumo piorar e ignorar a onda de má sorte e continuar a fazer miliuma coisas, com todas a correrem altamente mal e acabo cansada, de pança mais gorda, recostada no sofá ao fim de mês, mês a meio a pensar: preciso de férias.

 

Contudo, a bateria do carro é nova, os exames estão feitos e está tudo bem, temos dois ou três jarros novos de água e o cartão há-de estar a chegar ao correio. No turbilhão, pessoas deixaram de ser importantes e, com isso, deixaram de ser amigas. Outras, no meio de festas inesperadas, surgem, sem saber de nada, “há tanto tempo helena, não desapareças, gosto tanto de ti”. 

 

Os nossos pais levam-nos ao aeroporto. Catorze anos depois, continuam de olhos marejados na viagem.

Enquanto o meu avião da ponte aérea Porto-Lisboa faz a curva para se posicionar para a descolagem, passo pelo meu irmão a entrar no seu avião da British Airways, que partirá pouco depois do meu. Na autoestrada, a uns metros da pista, estaria a passar o carro deles, de coração e estômagos apertados, como se nos deixassem fora do ninho pela primeira vez.

 

 

#46 o rio que não era meu

 

A minha família tem uma mistura incrível de origens, mas está tudo por provar e só começa na geração dos bisavós para cima. Os meus pais nasceram em Castelo de Paiva e cresceram no Porto, a minha (invicta) cidade.

 

Fazendo contas por alto às vezes que atravessei a ponte de entre-os-rios, ida e volta, ida e volta, até ao dia em que ela caiu, hei-de ter lá passado cerca de 1700 vezes. É isso mesmo, 1700 vezes a pensar, ai jesus que isto está com ar de que vai cair. Caiu. Não por culpa do tabuleiro, como eu pensava, mas pelo pilar que cedeu.

 

Lembro-me de cada minuto dessa noite. A minha mãe a chamar-me, o soco no estômago, o medo, as chamadas para a nossa família que não conseguíamos fazer -  a rede de telemóvel estava congestionada e as linhas dos telefones fixos caíram com a ponte - a noite em claro, o meu pai no Brasil, preocupado.

 

Conheci gente que estava num dos carros que ficou na parte inicial do tabuleiro e não caiu. A minha família toda, naquele domingo à noite, vinha para o Porto, como era habitual. Uns passaram cinco minutos antes, o resto chegou ao lugar pouco depois da tragédia. Todos que eram meus escaparam de raspão ao que poderia ter sido uma história completamente diferente na minha vida.

 

Por outras circunstâncias e vicissitudes, deixei de ir à terra dos meus pais. Nunca foi um lugar que eu gostasse particularmente, embora lhe reconhecesse a beleza natural. Hoje consigo olhar para este lugar encostado ao Douro com menos intensidade e até, ao atravessar a vila no regresso ao Porto, senti alguma saudade de quando brincava à porta de casa da minha tia T..

 

 

Ao caminhar os oito quilómetros dos passadiços, aguentei as tonturas das vertigens, o calor, o cansaço e a sede para poder ver, camuflada entre tantos outros turistas, as montanhas verdes que terminam no rio em que me banhei todos os verões, o rio que atravessei às cavalitas do V., com medo das aranhiças que saltitavam de pedra em pedra, o rio que durante toda a minha infância forneceu a água das torneiras da minha cidade do Porto, o rio que enchia as panelas de ferro onde os irmãos da A. faziam uma cabidela improvisada. 

 

Duas horas e meia depois, sorri e ri feliz, parecia uma prova de superação, como uma mini-maratona para os mais audazes. Foi um caminho quase todo feito em silêncio, a limpar as memórias nessa água cristalina e fugidia. Hoje, se me propusessem escrever uma frase com as palavras natureza, reconciliação e paz, eu ganhava o concurso. Primeiro prémio.

 

PS  - Vale a pena visitar. As reservas dos bilhetes têm de ser feitas com, pelo menos, duas semanas de antecedência. Comprem sempre a mais - só custa 1€ e na altura pode haver mais gente a querer acompanhar-vos na viagem. Porque é, realmente, uma viagem. 

 

#25 conta-me tudo

 

A S. disse: então o teu blog? Tenho escrito, disse eu. Não quero saber do teu lifestyle. Tens piada, gosto do que escreves mas quero as tuas histórias. Onde estão as tuas histórias?

 

E em dois segundos o meu cérebro invadiu-se de memórias e mais memórias e mais memórias e fiquei cansada, cansada, cansada. Dormi mal. Acordei mal. Dor de cabeça. Levantei-me, lavei os dentes e caminhei por Lisboa fora, cinco, seis quilómetros. Tenho tantas memórias, tantas tão boas de descrever e tantas tão más de se esconder.

 

Hoje o Conta-me Tudo volta a acontecer, mas com novos intervenientes. Da última vez, estive lá eu e, em tom de improviso, contei uma parte de mim. Aqui segue a imagem verdadeira desta história cem-por-cento verdadeira. Têm quinze minutos para mim?

 

(à escolha!)

Ep 9 iTunes

Ep 9 Buzzsprout

Ep 9 Mixcloud