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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

#71 como fazer trinta e um anos

 

Não sei, simplesmente chega o dia e não há nada a fazer.

 

Conversava com o T. sobre como sentimos a passagem do tempo. Para ele, tudo parece há trinta anos atrás. A mim, tudo parece ante-ontem. Cheguei a Lisboa ante-ontem, com dezassete. Acabei o curso ante-ontem, em dois mil e oito. Fiz trinta e um anos ante-ontem, mas, em boa verdade, já foi há quase duas semanas. E assim corre, foge o tempo. E eu, que nada sei do meu futuro, não sei se algum dia voltarei a fazer uma festa, por todas as razões explicadas aqui. Sei, todavia, que ainda que tente, nunca voltará a ser igual a que este ano aconteceu.

 

Enquanto recebia o A. e ele me perguntava onde se devia sentar, olhei para o restaurante e vi quase quarenta pessoas bonitas de coração. Emocionada, disse-lhe para se sentar onde quisesse. Perguntou-me, surpreendido, se o restaurante inteiro era meu convidado. Eu disse que sim.

 

Obrigada "A Maria Não Deixa" pela simpatia, pela ajuda e pela forma como nos receberam em vossa casa.

Obrigada às trinta e oito pessoas que jantaram ao meu lado, no meu dia.

 

 

#68 sistema start-stop

 

No dia 24 de Setembro falei sobre recomeços e mudanças. Tinha terminado de gravar "A Impostora" e "Mulheres Assim" havia pouco tempo. Tudo acontece assim, de um dia para o outro. Antes de conseguir perceber que nova fase era esta que eu antecipava, fui dar corpo a mais uma personagem. Desta ainda não posso falar, posso apenas dizer que já terminou e que apesar de muito muito pequenina, me deu um extremo gozo interpretá-la (não me é comum interpretar personagens históricas e é uma delícia!).

 

 

 

#66 aquela conversa desagradável sobre cosméticos

 

Contexto: 

Quando terminei o meu curso na faculdade, há uns quantos e bons anos, vivi momentos de muita ansiedade. A crise económica tinha chegado nesse ano e todas as fantásticas perspectivas (e até promessas) de trabalho foram por água abaixo com os pânicos gerais que se criam nessas situações e os despedimentos em massa que aconteceram em 2008. Surgiu aí o hábito de contratar estagiários sem lhes pagar, durante três meses (os chamados estágios curriculares) e assim se foram mantendo abertas as empresas e baixando o nível da qualidade de tudo o que se fez durante um bom período, ou mau período, em Portugal. Foi como uma onda, num mar aparentemente calmo. A água pelo joelho, olho para a areia pelo ombro e quando enfrento o horizonte de novo, já estou a ser levada e enrolada, no meio de espuma e mais espuma, tento respirar quando ela passa mas logo vem outra e outra e outra até deixar de as contar. Por dois ou três meses, foi assim que me senti. Depois entrei numa pós-graduação em Cuba e a minha vida mudou para sempre. E para melhor. 

Nesses meses, tive a minha primeira queda de cabelo. Vivia em Benfica, numa casa que não gostava, num turbilhão de mudança, numa insegurança (literalmente, a rua era perigosa) e inconstância tremendas. Tomava banho, agarrava mechas inteiras que me escorregavam por entre os dedos e chorava. Passou. E passaram os anos.

Depois, ele morreu. Não interessa, não vou afundar-me na tragédia da morte de quem nos é próximo. Interessa o choque, o luto, o corpo reagir por todas as lágrimas que, forte, não deitava. Que disparate, como se não chorar fosse sinal de força. E o cabelo caía até ter chegado a 2013 com um pequeno rabo de cavalo, fininho, diferente do cabelo brilhante, robusto e vigoroso que me caracterizava.