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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

#60 ainda dá tempo

 

Produzi este vídeo há três anos atrás. Falei com todos os pais, tirei fotos aos filhos deles, bonitos.

 

Morei um ano em São Paulo e não tenho saudades do Brasil. É um país que não me encanta em demasiados aspectos. Mas, mesmo com todas as suas vicissitudes, há dias em que penso que, no Brasil, em Cuba ou em Portugal, três países que conheço bem, tudo poderia ser muito melhor se o grupo de pessoas que se senta nas cadeiras de pele lustrosa da governação gostassem tanto do país como os que neles votaram; se gostassem mais do país do que deles próprios, enquanto seres individualistas e dotados do mais profundo egoísmo.

 

Ainda assim, com mais de dois milhões de visualizações, são os vídeos de esperança que nós continuamos a preferir:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se o vídeo não abrir, aqui segue o link:

- https://vimeo.com/78245147 - 

 

#59 ser actriz - parte 1 de muitas

 

 

É ser manager e produtora musical numa segunda-feira, com os hábitos de quem é líder e domina a área e é emancipada;

É fazer um casting de bikini na terça-feira, mesmo estando na fase em que não gosta do que vê ao espelho e não se identifica com o corpo, mas há a possibilidade de mostrarem as costas e um gel de banho e portanto não se pode passar sem mostrar como está a musculatura lombar;

É ter cinco filhos numa quarta-feira e gravar até de manhã;

É dormir pouco e ser uma bailarina a uma quinta de manhã, problemática, misteriosa, confusa, dorida;

É ter outro filho na sexta, lindo e simpático, e lançar confetis até não aguentar mais as cores coladas na transpiração das mãos, gravar com roupa de inverno sob o sol tórrido de agosto;

É, no meio de tudo isto, ter páginas e páginas e páginas de texto para decorar, sublinhar, trabalhar, adaptar. É decidir as intenções de cada frase, fazer opções para as personagens, criar-lhes identidade, personalidade, um quê de especial. É tentar dormir e ter o cérebro a mil, é estar nervosa a cada take porque se tem de fazer tudo em um ou dois ou, no máximo, três e ficar com a sensação constante que podia ter sido muito melhor. É acordar às 5h30 da manhã para estar às 7h no transporte e às 8h no estúdio. É chegar a casa às 20h e no dia seguinte ter que acordar outra vez às 5h30 da manhã.

 

Ser actriz é fazer xixi às 5h35 com um sorriso ensonado, feliz e cheia de adrenalina porque, até ao resto da vida, de um dia para o outro, tudo isto pode acabar.

 

Ser actriz é não ter férias, nunca se deixa de ser actriz.

Ser actriz é ser desacomodada, é não ter limites no sonho, é querer saber mais e sentir que se sabe pouco, é ser generosa, oh, como é bom cruzarmo-nos com actrizes generosas.

Ser actriz é sentir-se actriz, é saber viver na indefinição do nome da profissão e saber-se actriz porque não é preciso que chamem a actriz de actriz para ela saber quando é actriz.

Ser actriz é ser actriz com c ou sem c, não faz mal.

Ser actriz é ser inconveniente, olhar os demais no metro, estudar-lhes os movimentos, decorar vozes, imitar em segredo. É olhar o espelho e fazer caretas, conhecer cada deformação da nossa boca. É ser insegura. Ou ser segura. Ser actriz pode ser um milhão de coisas diferentes, todas actrizes diferentes, todas actrizes em si, todas atrizes em si.

 

 

#58 via de cintura interna

 

MANHÃ

 

Eu tinha sete anos e a C. era um ano mais velha do que eu. Estávamos na segunda classe, ela vivia numa ilha cuja entrada era na travessa onde eu morava. Todas as manhãs, a minha ama, eu e a C., caminhávamos pelos atalhos de terra e areia que pertenciam à construção da Via de Cintura Interna, no Porto. Antes de entrar na primeira classe, via da minha janela campos verdes e uma casa senhorial acompanhada de uma casinha de caseiro, singela e pitoresca; quando passei para o terceiro ano, estavam os vizinhos a mudar as janelas para caixilharia nova e vidros duplos, carros a alta velocidade atravessavam a cidade com uma rapidez de se aplaudir, enquanto nós nos mudávamos para o outro lado da freguesia, onde ainda hoje vivem os meus pais. Nessas caminhadas para a escola, passávamos por baixo de um viaduto que estava a ser construído antes da própria VCI e que viria a ser um dos nós de acesso da mesma - o buraco ainda não tinha sido escavado para se alcatroar a via principal. Então, eu e a minha ama, agachadas, passávamos por baixo do betão novo, sem medos, claustrofobias nem tremores. Caminhar nas obras era mais divertido do que ir pelas ruas normais. A C. não se agachava e porque, pelas minhas contas, se ela era um ano mais velha do que eu, eu devia ser mais baixa, portanto houve um dia em que também não me baixei. Bati com a cabeça e ri-me. Percebi, pela primeira vez, que nem tudo fazia sentido e soube, naquele instante, que sempre que passasse na VCI, debaixo daquele viaduto, me ia lembrar do exacto ponto onde a minha cabeça tinha batido e do quão raro é as pessoas andarem a bater com cabeças em viadutos. Hoje continuo a olhar para esse mesmo lugar quando lá passo, rio para mim e penso que felizmente que as pessoas realmente não andam a bater com as cabeças em viadutos e deixa-me olhar pra estrada que aqui não dá para abrandar.

 

© Chtcheglov 

 

 

#56 mais amor, por favor

 

Hoje conversava com uma amiga, a A. sobre os incêndios. Ela contava-me que, salvada a casa, todo o resto do terreno do sogro ardeu. Que vizinhos deste perderam tudo. Duas horas depois, a J. escreveu-me sobre os incêndios na Madeira, enviámos emoticons a chorar uma à outra e consolámos-nos assim virtualmente. Procurei o telemóvel e vi o número de likes na minha foto no Instagram, tirada de cabelo ao vento ao pé da piscina. Céu azul, sem sinais de fumo por aqui. Por isso, o assunto é distante. Escrevo agora, quase à uma da manhã, televisão em silêncio, o fogo cada vez mais longe. Vem o sono e penso que não, não posso ir dormir sem pensar nisto, sem reflectir nem que por cinco minutos nesta tragédia. 

 

Ano após ano, fogo após fogo, Portugal fica coberto de cinza, manchas de árvores castanhas ocupam áreas cada vez maiores dos campos que se vêm da auto-estrada, terrenos de uma população envelhecida que não viverá anos suficientes para ver os seus pedaços de terra a gerar mais vida. A população envelhecida somos nós, os portugueses, a morte é de todos nós. Não me chega desligar a televisão, porque as dúvidas não vão embora. Já não me debruço apenas nas limpezas das matas, na fiscalização, nas leis que continuam a ser vantajosas para estes crápulas. Penso pior:

Tem de haver um nível de psicopatia em quem acende um fogo intencionalmente. Essa falta de empatia pelo próximo e incapacidade de sentir culpa ou remorso é grave e partilhada pelos mais impiedosos assassinos. E os incêndios, são muitos, em todo o país, todo o verão. Estamos rodeados de pessoas ligeiramente psicopatas que nos ganham sem punição.

 

 

#53 sobre a violência na rua

 

Ouvi gritos, enquanto estudava os meus textos. Corri para a janela, abri-a, olhei para baixo e vi um rapaz dos seus trinta anos, franzino, ar de mitra a gritar com uma mulher, anã, enfurecida. No espaço de um segundo do meu espanto, vejo-o a acelerar tal e qual a corridinha que os jogadores fazem para marcar golo nos penalties e lançar uma bofetada de mão fechada, acertando em cheio na cara da rapariga que, prontamente, desata a chorar.

 

Ele foge e ela foge atrás dele. Não sei se eram um casal.