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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#112 técnicas para uma relação passivo-agressiva

 

Quando escrevi sobre o José Mayer, que se tornou - de longe - a publicação mais lida no blog, recebi emails e mensagens de algumas pessoas que elogiavam a forma como eu tinha tornado simples entender determinados comportamentos, criando uma sensação de empatia através da apresentação de uma situação inversa. No caso, escrevi: "Já que gostas tanto do que está entre as pernas das mulheres e não te imagino com uma grande noção de limites, vamos imaginar então que é um homem a assediar-te, ou seja, alguém que à partida não queres de todo que te aborde sexualmente.".

 

É, muitas vezes, através da ironia, da comédia, da metáfora ou da comparação que se consegue identificar comportamentos violentos camuflados do dia-a-dia de pessoas sujeitas a determinados níveis de violência psicológica. Uns mais graves, outros mais leves, a verdade é que os episódios de violência psicológica retratados neste vídeo já aconteceram e acontecem em muitas, muitas relações. E é esse rácio que me assusta. Por falar em rácio, aqui está o texto que escrevi sobre o rácio. Mas antes, vale a pena ver este vídeo:

 

 

#104 cães, homossexuais e violadores

 

Cães e saquinhos.

 

Anos 80. De mão dada com a minha ama, caminhávamos para a minha escola primária de olhos postos no passeio e ela indignava-se com a falta de limpeza dos donos. Era normal nessa época, não havia ninguém com  saquinho de recolha. Eu entregava-lhe o argumento da vergonha, as pessoas iam ter vergonha. Ela explicava: se todas as pessoas que se cruzam connosco carregassem um saquinho com cocó, deixariam de ter vergonha, pois todas estariam a fazer a mesma coisa e isso tornar-se-ia normal, não achas? Só tens vergonha se fores a única e, aí sim, toda a gente olhará para ti. Nesse caminho percebi a importância do rácio - da percentagem, da proporcionalidade - na sociedade.

 

 

Gays e o não-armário

 

No liceu, ser homossexual era um assunto sussurrado, falado entre risinhos nervosos, com um constrangimento tal que parecia que andávamos todos a comer arroz malandro com pauzinhos chineses num jantar de gala.

Havia um colega da turma B, do meu ano, que era claramente gay, não assumido. Todos sabíamos, ninguém comentava. Mais tarde, já em 1999, lembro-me de uma colega da escola de música surgir de mão dada com uma rapariga da mesma idade. E todos a admirámos, como se dar a mão a uma rapariga fosse um statement - e era. E mais ninguém, não conhecia mais ninguém que, aparentemente, gostasse de pessoas do mesmo sexo. Eu, que andava no liceu, na escola de música, na dança, no teatro e na natação. Conhecia, portanto, muitas pessoas de lugares diferentes, fazia parte de grupos distintos. E em tantos anos, apenas estes dois casos existiam no meu universo pessoal. Assim, era difícil assumir-se a homossexualidade ou bissexualidade. Porque seria assumir uma diferença numa estatística cruel de 1 para, imagine-se, 2000. Que me lembre, poucos pais da altura levariam com leveza a possível homossexualidade de um filho ou filha. Porquê eles, se tantos, tantos, tantos outros, eram normais?

 

 

Violência e Opressores

 

Há já alguns anos que os temas da violência, do abuso psicológico e físico, começaram a surgir nas conversas com amigas. Todas a comerem o tal arroz malandro com pauzinhos, interessadas em ouvir e em desviar a conversa delas, das suas experiências pessoais. A desculpabilização para a cretinice dos violadores era quase obrigatória, num processo de negação interior, anterior ao processo de negação social. Ninguém quer assumir que os seus direitos, o seu espaço e a sua integridade foram violadas. Ninguém quer ser a vítima de violência doméstica, de manipulação, de tortura psicológica. Podemos ser vítimas de negligência médica, da banca ou de injustiças governamentais, mas não somos vítimas das nossas mulheres ou maridos, que isso não se conta, isso é de se guardar por casa. De janelas fechadas. Nem nunca nos envolvemos numa relação sexual abusiva da qual perdemos o controlo, mas conhecemos pelo menos vinte amigas a quem isso aconteceu. E quase todas tivemos relações amorosas desrespeitosas e violentas, mas é mais fácil dizer que eram apenas conflituosas e estúpidas, ninguém percebe como é que ficaram juntos tanto tempo. Por causa do rácio. Ninguém quer estar do lado negro do rácio.

 

 

 

 

O rácio de tudo isto

 

O rácio - a relação, geralmente expressa em percentagem, entre duas grandezas - não falha, é matemática. Enquanto dependemos dele para a aceitação social das nossas vicissitudes, pomo-lo no canto da sombra da sala com orelhas de burro. Fechamos a porta e deixamo-lo lá, com a verdade.

 

Quase três décadas depois da minha ama me explicar o mundo de uma forma tão simples, as pessoas passeiam os cães com um saquinho de plástico na mão e ai de quem não o faça.

 

Quase duas décadas depois da minha amiga surgir de mão dada com a namorada, eu deixei de ter dedos para contar os meus amigos e amigas gay e bissexuais porque são, à vontade, metade do meu universo de amizade. E já o eram na altura da escola, foi a percentagem real, e não eles, quem saiu do armário. E a normalidade veio com ela.

 

Ontem, em conversa com uma amiga, disse-lhe que quase todas as mulheres da minha vida já me confidenciaram terem sido vítimas de alguma destas situações. Em surdina, longe de ouvidos alheios. Acredito que quase todas acham que são uma excepção e que passariam por todos os constrangimentos e vergonhas do único gay da escola e da única portadora de um saquinho de cocó.

 

Eu gostava de lhes dizer num megafone que o rácio delas, e também meu, está escondido algures para belo proveito da identidade de quem manipula, viola e magoa, mas que o havemos de encontrar, pois este resultado está a parecer-me perigosamente mais próximo da totalidade do que da excepção. E, talvez, quando souberem que passámos quase todas por algo assim e que os homens também sofrem do mesmo, possamos ser todos um pouco mais amigos e menos tolerantes com o desrespeito e aí, talvez, possamos andar todos de saquinho de plástico na rua.

 

 

 

#53 sobre a violência na rua

 

Ouvi gritos, enquanto estudava os meus textos. Corri para a janela, abri-a, olhei para baixo e vi um rapaz dos seus trinta anos, franzino, ar de mitra a gritar com uma mulher, anã, enfurecida. No espaço de um segundo do meu espanto, vejo-o a acelerar tal e qual a corridinha que os jogadores fazem para marcar golo nos penalties e lançar uma bofetada de mão fechada, acertando em cheio na cara da rapariga que, prontamente, desata a chorar.

 

Ele foge e ela foge atrás dele. Não sei se eram um casal.

 

 

#40 a culpa não é tua

 

Na sua voz rouca tão particular, a cantautora espanhola Bebe musicava em ritmo acelerado as palavras “Malo, malo eres, no se daña a quien se quiere, no”. Admirava-a por ter escrito esta letra, por ter lançado uma música despudorada na sua referência à violência. Mais tarde, dividi um apartamento em Cuba com uma espanhola que era amiga da Bebe e fiquei feliz por ser amiga de uma amiga da mulher guerreira. A ilha transpira sexualidade, o calor húmido, a salsa e o rum patrocinam o erotismo de um país que já foi (ou ainda é) destino de turismo sexual. Quando lá morei, Cuba tinha a taxa mais baixa de homicídio por violência doméstica da America Latina.

 

Nos quase cinco anos que estive fora de Portugal, morei um inteiro na cidade de São Paulo. São Paulo é deslumbrante e assustador ao mesmo tempo. É tenso, é quente e chuvoso. Nas carruagens de metro, cartazes da campanha “Homem de verdade não bate em mulher”. Brasil, um país onde 1 em cada 5 mulheres sofre ou sofreu de violência doméstica.