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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#133 tenho amigas homossexuais

 

Tenho amigas homossexuais.

Tenho amigas homossexuais que estão tristes.

Tenho amigas homossexuais que estão tristes porque não encontram uma pessoa para amar agora, neste momento.

Tenho amigas homossexuais que estão tristes porque não encontram uma pessoa para amar agora, neste momento, devido à impaciência, egocentrismo e falta de tempo para cultivar relacionamentos e cuidá-los como a uma flor, que hoje afectam tanta gente.

 

Tenho amigos heterossexuais.

Tenho amigos heterossexuais.

Tenho amigos heterossexuais que estão tristes.

Tenho amigos heterossexuais que estão tristes porque não encontram uma pessoa para amar agora, neste momento.

Tenho amigos heterossexuais que estão tristes porque não encontram uma pessoa para amar agora, neste momento, devido à impaciência, egocentrismo e falta de tempo para cultivar relacionamentos e cuidá-los como a uma flor, que hoje afectam tanta gente.

 

Tenho amigos.

Eles são meus amigos e eu sou deles. E, numa esfera especial, amamo-nos.

Como podem, então, haver tantas e tantas e tantas pessoas a defenderem a anomalia, o preconceito e, pior, a fazerem de nojo bandeira, a usarem a religião como desculpa para não verem que tudo, absolutamente tudo, é uma questão de amor?

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“No one is born hating another person because of the color of his skin, or his background, or his religion. People must learn to hate, and if they can learn to hate, they can be taught to love, for love comes more naturally to the human heart than its opposite.” Nelson Mandela

 

 

#94 ciclos e coisas que não interessam a ninguém

 

Em 2013, Maio, ele foi embora para a Holanda. Foi ser feliz.

Eu, em Outubro, com ainda 17 anos, lembro-me perfeitamente do momento em que cheguei à Estação de Santa Apolónia, franzina de 50 quilos, com uma mala de cada lado de, à vontade, 25 quilos cada.

 

Na minha vida, os ciclos de começo e fim, acompanham quase sempre os períodos do meu aniversário e do natal. Quem sabe se é porque faço um balanço para ver quem é importante, o que me faz bem, quem me faz mais bem que mal. Depois, sem querer forçar escolhas naturais, há os avarios esporádicos.

 

Começa pela máquina da roupa, depois a bateria do carro, contas em atraso que ninguém tinha topado os envelopes, roupa tingida, dores de barriga, um quisto ou outro que aparece aqui ou ali, médicos, perdemos um cartão, dois cartões, partimos o jarro de água favorito e ainda acompanhamos a onda com uns quantos nãos e desilusões. É, certamente, panca minha, pois da última vez não começou com a máquina da roupa, mas, na minha ideia, começa quase sempre com o raio da máquina da roupa que avaria e aí já sabemos que vem um turbilhão de mudanças e podemos acabar a viver no dubai, se não estivermos atentos.

 

O que fazer nestas alturas?

Não faço a mínima ideia. Eu costumo piorar e ignorar a onda de má sorte e continuar a fazer miliuma coisas, com todas a correrem altamente mal e acabo cansada, de pança mais gorda, recostada no sofá ao fim de mês, mês a meio a pensar: preciso de férias.

 

Contudo, a bateria do carro é nova, os exames estão feitos e está tudo bem, temos dois ou três jarros novos de água e o cartão há-de estar a chegar ao correio. No turbilhão, pessoas deixaram de ser importantes e, com isso, deixaram de ser amigas. Outras, no meio de festas inesperadas, surgem, sem saber de nada, “há tanto tempo helena, não desapareças, gosto tanto de ti”. 

 

Os nossos pais levam-nos ao aeroporto. Catorze anos depois, continuam de olhos marejados na viagem.

Enquanto o meu avião da ponte aérea Porto-Lisboa faz a curva para se posicionar para a descolagem, passo pelo meu irmão a entrar no seu avião da British Airways, que partirá pouco depois do meu. Na autoestrada, a uns metros da pista, estaria a passar o carro deles, de coração e estômagos apertados, como se nos deixassem fora do ninho pela primeira vez.