Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#76 tudo sobre a ilha do sal - parte 2

 

CONTINUAÇÃO DA PARTE 1 

 

Quando voltei definitivamente para Portugal (definitivamente terá sempre um ponto e vírgula), há três anos, comecei quase de imediato os ensaios para uma peça que esteve no falecido Teatro Rápido do Chiado. Não, ainda não vimos o dinheiro que nos pertence. Bom, não tivesse estado na peça e a fazer produção cultural numa empresa que me ficou a dever ainda mais zeros que o teatro, e teria havido a (quizas remota) hipótese de integrar a produção de uma série chamada Sal, que iria ser gravada maioritariamente em Cabo Verde. As coisas não aconteceram assim, mas as quase-coincidências também ficam na memória. Nessa série, como actor, participou um tipo que é hoje dos meus melhores amigos. Produziu-a a minha actual sócia de uma coisa que lançaremos em 2017. E as sintonias continuam. Na série Sal, esse meu amigo interpretou a personagem “Emídio”, um homem que arranjava tudo o que era necessário a quem chegasse ao Sal, uma espécie de facilitador, um português simpático, dos que conhece toda a gente e o que é de melhor na ilha.

 

Há umas semanas, jantámos num restaurante com espectáculo de Burlesco na rua do poço dos negros, onde lhe disse que finalmente tinha escolhido o destino das minhas férias e que me tinha decidido pela ilha do Sal. Ele disse, fala com o Emídio, ele ajuda-te em tudo. Ri-me, claro. Sim, levas a tua personagem e ele que trate de mim. Não, Helena, há mesmo um Emídio, a minha personagem é real – disse o JC. Não queria acreditar, a viagem estava a ser deliciosa ainda antes de começar.

 

 

#46 o rio que não era meu

 

A minha família tem uma mistura incrível de origens, mas está tudo por provar e só começa na geração dos bisavós para cima. Os meus pais nasceram em Castelo de Paiva e cresceram no Porto, a minha (invicta) cidade.

 

Fazendo contas por alto às vezes que atravessei a ponte de entre-os-rios, ida e volta, ida e volta, até ao dia em que ela caiu, hei-de ter lá passado cerca de 1700 vezes. É isso mesmo, 1700 vezes a pensar, ai jesus que isto está com ar de que vai cair. Caiu. Não por culpa do tabuleiro, como eu pensava, mas pelo pilar que cedeu.

 

Lembro-me de cada minuto dessa noite. A minha mãe a chamar-me, o soco no estômago, o medo, as chamadas para a nossa família que não conseguíamos fazer -  a rede de telemóvel estava congestionada e as linhas dos telefones fixos caíram com a ponte - a noite em claro, o meu pai no Brasil, preocupado.

 

Conheci gente que estava num dos carros que ficou na parte inicial do tabuleiro e não caiu. A minha família toda, naquele domingo à noite, vinha para o Porto, como era habitual. Uns passaram cinco minutos antes, o resto chegou ao lugar pouco depois da tragédia. Todos que eram meus escaparam de raspão ao que poderia ter sido uma história completamente diferente na minha vida.

 

Por outras circunstâncias e vicissitudes, deixei de ir à terra dos meus pais. Nunca foi um lugar que eu gostasse particularmente, embora lhe reconhecesse a beleza natural. Hoje consigo olhar para este lugar encostado ao Douro com menos intensidade e até, ao atravessar a vila no regresso ao Porto, senti alguma saudade de quando brincava à porta de casa da minha tia T..

 

 

Ao caminhar os oito quilómetros dos passadiços, aguentei as tonturas das vertigens, o calor, o cansaço e a sede para poder ver, camuflada entre tantos outros turistas, as montanhas verdes que terminam no rio em que me banhei todos os verões, o rio que atravessei às cavalitas do V., com medo das aranhiças que saltitavam de pedra em pedra, o rio que durante toda a minha infância forneceu a água das torneiras da minha cidade do Porto, o rio que enchia as panelas de ferro onde os irmãos da A. faziam uma cabidela improvisada. 

 

Duas horas e meia depois, sorri e ri feliz, parecia uma prova de superação, como uma mini-maratona para os mais audazes. Foi um caminho quase todo feito em silêncio, a limpar as memórias nessa água cristalina e fugidia. Hoje, se me propusessem escrever uma frase com as palavras natureza, reconciliação e paz, eu ganhava o concurso. Primeiro prémio.

 

PS  - Vale a pena visitar. As reservas dos bilhetes têm de ser feitas com, pelo menos, duas semanas de antecedência. Comprem sempre a mais - só custa 1€ e na altura pode haver mais gente a querer acompanhar-vos na viagem. Porque é, realmente, uma viagem.