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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#132 adeus, misericórdia

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Do alto da escadas da Igreja de São Roque, dois jovens portugueses projectavam a voz enquanto falavam em inglês para um grupo de, pelo menos, quarenta e cinco pessoas. Vínhamos do Príncipe Real, eu e duas amigas. Quando dobrámos a esquina do Largo do Cauteleiro, como muita gente lhe chama, e vi estes dois rapazes a falarem para o público atento, disse-lhes, secretamente orgulhosa da minha área, que queria parar ali para assistir, que devia ser uma performance artística, tão bom. E parei, parámos. “And now we’re gonna drink in at least fifteen more bars and pubs, all night long.” Abri a boca e soltei um altíssimo: o quê?! Aquele grande grupo de estrangeiros, atento e ordenado, estava pronto, à meia noite, para iniciar uma viagem regada a álcool pela cidade, em comitiva, qual rebanho maciço. Não havia artisticidade nenhuma nisto. As minhas amigas riram-se da minha reacção que parecia exagerada. Eu, num misto de choque e tristeza, virei costas ao grupo e olhei o resto da rua da Misericórdia, ao fim de uns meses sem lá passar de noite, olhei com atenção, colada no mesmo quadrado de calçada portuguesa escorregadia.

 

 

#76 tudo sobre a ilha do sal - parte 2

 

CONTINUAÇÃO DA PARTE 1 

 

Quando voltei definitivamente para Portugal (definitivamente terá sempre um ponto e vírgula), há três anos, comecei quase de imediato os ensaios para uma peça que esteve no falecido Teatro Rápido do Chiado. Não, ainda não vimos o dinheiro que nos pertence. Bom, não tivesse estado na peça e a fazer produção cultural numa empresa que me ficou a dever ainda mais zeros que o teatro, e teria havido a (quizas remota) hipótese de integrar a produção de uma série chamada Sal, que iria ser gravada maioritariamente em Cabo Verde. As coisas não aconteceram assim, mas as quase-coincidências também ficam na memória. Nessa série, como actor, participou um tipo que é hoje dos meus melhores amigos. Produziu-a a minha actual sócia de uma coisa que lançaremos em 2017. E as sintonias continuam. Na série Sal, esse meu amigo interpretou a personagem “Emídio”, um homem que arranjava tudo o que era necessário a quem chegasse ao Sal, uma espécie de facilitador, um português simpático, dos que conhece toda a gente e o que é de melhor na ilha.

 

Há umas semanas, jantámos num restaurante com espectáculo de Burlesco na rua do poço dos negros, onde lhe disse que finalmente tinha escolhido o destino das minhas férias e que me tinha decidido pela ilha do Sal. Ele disse, fala com o Emídio, ele ajuda-te em tudo. Ri-me, claro. Sim, levas a tua personagem e ele que trate de mim. Não, Helena, há mesmo um Emídio, a minha personagem é real – disse o JC. Não queria acreditar, a viagem estava a ser deliciosa ainda antes de começar.

 

 

#75 tudo sobre a ilha do sal - parte 1

 

“Já chegámos ao hotel. Está aquele bafo húmido e tropical, estamos no paraíso.” – esta foi a primeira mensagem que enviei ao meu pai, por volta das três horas da manhã. Eu, com saudades de Cuba, ele com saudades da Indonésia, descemos as escadas do avião de mão dada e o sorriso rasgou assim que sentimos o calor a colar na pele, ao mesmo tempo que expirávamos de alívio por voltar à tropicalidade do planeta. Não fomos feitos para o frio.

 

Um par de anos se passou desde que começámos a pensar em viajar para Cabo Verde. Foram mais de dois anos de cursos, empregos e projectos para ambos, com uma dificuldade em conciliar as férias merecidas. A expectativa era proporcional à espera. Nas únicas datas que tínhamos disponíveis, as opções eram poucas e acabámos por optar pela Ilha do Sal e o Hotel Oásis Belorizonte.

 

Não quero alongar-me na introdução, pelo que seguem neste post todas as considerações que considero úteis, para quem me leia e mesmo para mim, num futuro regresso ao SAL. Só não são miliuma porque nunca mais daqui sairíamos.