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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#118 nós não ganhamos para isto, senhores

 

Licenciados, com estágios e pós-graduações e workshops e formações caríssimas, com boas notas, com investimento. Chegados aos trinta, os nossos salários são inferiores a mil euros por mês. Para muitos, brutos. O IRS, a segurança social, a alimentação, a roupa, os transportes, a higiene, os produtos de limpeza da casa, o carro, os extras anuais que ninguém espera mas sempre acontecem.

 

 

Os dedos alternam-se entre o idealista, a casa sapo e o olx. 800€ por buracos de 60m2, longe do metro com cozinhas mais velhas que o meu falecido bisavô. Pintam as paredes e chamam-lhes renovadas, no título. T1 na Sé para venda, 75m2, 850.000,00€, sim, oitocentos e cinquenta mil euros. Para todos os infortunados que estão neste momento à procura de casa porque os seus contratos de arrendamento vão terminar dentro de semanas e o senhorio está interessado em mudar arraiais para o Airbnb, o meu abraço sentido e votos de boa sorte.

 

 

#100 sobre o orgulho em propriedade alheia

 

 

Mais ou menos na mesma altura que eu, ela foi tentar aprendar alguma coisa sobre cinema na faculdade. Eu em Lisboa, ela no Porto. Quando regressei ao Porto para estagiar, encontrámo-nos, não nos tornámos logo nas amigas que somos hoje. Hoje, ela é a minha maior confidente, a única pessoa no mundo inteiro com quem tenho uma linguagem distinta, própria, de poucas palavras e entendimento quase instantâneo.

Passou anos a lutar, desde a crise de 2008, entre o cinema e a moda, as suas paixões e talentos. Tentou tanto, quase tudo. Um dia deu o grito de ipiranga e o seu olhar mudou. Esse dia foi há muito pouco tempo. Expedita, pôs mãos à obra, juntou-se a uma velha amiga e ajudou-a a fazer nascer a ideia que, a hoje sócia, tinha há muito na gaveta: vestidos pretos, desenhar só vestidos pretos, para todas as ocasiões.

Como posso eu ter tanto orgulho nela, se, apesar de sempre ao seu lado, em nada pude, com estes 300km que nos separam, contribuir para isto? Como posso ter orgulho de um ser que não depende de mim, a não ser no afecto?

Mas estou cheia dele e aqui estão os links dela. O lançamento é hoje. Parabéns às duas.

 

http://www.dramatheblackdressbrand.com

https://www.instagram.com/dramatheblackdressbrand/

https://www.facebook.com/dramatheblackdressbrand/

 

 

 

 

 

#98 make sure your tray table is in its full upright position and that your seat belt is correctly fastened.

 

Enquanto esperava pela raspadinha, o passageiro do 30F batia com as moedas umas nas outras, sem ritmo coincidente com o metrónomo que me implantaram no cérebro aos oito anos de idade, quando entrei na escola de música. Essa pequena dissonância feita do ruído do estanho fez-me encolher os ombros e baixar a cabeça, forçando a cervical no sentido do aconchego em mim própria. A ortopedista disse que o desgaste das minhas vértebras na cervical eram obra do stress, eu acho que também é obra do ser humano aleatório que me rodeia em espaços confinados como aviões e salas de espera.

 

Nos 28A e B, os netos gritam de excitação antes do avião descolar e a avó, no 28C responde-lhes no mesmíssimo volume, mas com uma voz calma. Está satisfeita por viajar com os netos, é uma avó nova - não vou supor que oiça mal - bem arrumada, nada incomodada com o volume do manifesto do entusiasmo. Eu, no 30A, não posso dizer o mesmo. 

 

Duas raparigas falam de trivialidades em cirílico ou algo que se assemelha a uma língua de europa de leste. Ninguém falaria de forma tão displicente e descomprometida se fosse sobre algo importante. Alto, falam alto sem que perceba a razão para tal. Começo a pensar em inglês: could you low down your volume? Não, não se diz assim. Será: could you lower your voice? Baixa-se a voz ou baixa-se o volume da voz? Decidi colocar os dedos na orelhas e, antes de me cansarem as mãos, cansaram-se elas das imaginadas trivialidades.

 

Vinte minutos de voo e a tripulação anuncia finalmente o grande sorteio das raspadinhas ryanair. Eu, que faço frequentemente este voo Porto-Lisboa, tenho a sorte incrível de apanhar a promoção especial "só hoje e neste voo: duas raspadinhas pelo preço de uma". Eu e os outros cem tugas que me acompanham neste voo Porto-Lisboa, que nada mais é do que um autocarro aéreo a dez euros a viagem. Qualquer dia conhecemos os nomes dos assistentes de bordo e pedimos uma bica pro 18C, tal o hábito.

 

Trinta minutos e corre tudo para a aterragem. Lisboa ao fundo, caras coladas às janelas embaciadas que desvendam os corações desenhados em outros voos, a minha cervical a querer cama e almofadas e, de repente, reparo que o senhor piloto se lembrou de começar a aterrar só lá pros lados de alvalade. Pum. Zas zas pum. Aterrámos todos e tudo menos em segurança, cabecinhas a baterem no assento da frente. Ouve-se a musiquinha da felicidade por termos chegado no horário previsto e, pelo menos, 5 resistentes batem palmas com amor. Nunca perceberei quem bate palmas depois de uma aterragem violenta. Ou numa aterragem qualquer. Só o Funchal merece.

 

Vou ficar de pé, como as outras pessoas, nesta fila idiota, à espera que me deixem sair da aeronave em direcção ao mundo real.

Welcome to Lisbon.

 

 

#73 muda

 

Naquela noite chovia como há muito não via chover assim na minha invicta cidade. Demorámos duas horas para fazer três quilómetros, estacionar e atravessar meia dúzia de ruas de guarda-chuva em punho até à Rua Cândido dos Reis. A tempestade ainda amena, as luzes desfocadas a recortar os clérigos, a solidariedade dos portuenses habituados a outonos assim. À custa dessas duas horas, eram 23h30 quando sacudimos a água dos sobretudos e procurámos um lugar para jantar. Quase todas as cozinhas fechadas. Como quase sempre que eu e a J. jantamos fora, há um contratempo que nos leva a conhecer um espaço surpreendente.

 

Bar em baixo e restaurante em cima. A maître d' uma grande beleza e simpatia, prontificou-se a falar imediatamente com a cozinha no piso de cima para ainda tentarem servir-nos.

E assim me saboreei com as melhores asinhas de frango de sempre. Bebi uma cerveja deliciosa e continuei a petiscada, terminando por um merengue descontruído que, a nosso pedido, foi regado indulgentemente a caramelo salgado (que habitualmente acompanha o brownie de chocolate).

O tamanho das doses é perfeitamente adequado ao preço, a garrafeira é maravilhosa e a decoração é perfeita, em cortiça escurecida - o que, naturalmente, torna a acústica muito mais agradável a noites de conversas e grupos maiores.

 

Não levei a máquina fotográfica mas aguardo a nova carta de inverno e aí não faltarão ilustrações das delícias. Para não haver dúvidas, é aqui: Rua de Cândido dos Reis, 64, Porto - 22 3195057

 

© do site luzesom.pt 

 

Muda Restaurante-Bar Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

#64 a boa da reversibilidade

 

Os meus últimos meses têm sido preenchidos com imenso trabalho como actriz, desde novelas a séries e publicidades. À parte das locuções, que me escondem as caretas por trás de um vidro espesso e uma porta pesada, a preocupação com a imagem e com o corpo é uma necessidade. O corpo é a nossa ferramenta de trabalho, o nosso veículo de comunicação, MacLuhanamente falando.  Assim, tenho de fazer as pazes com ele. Se seguem o blogue, o meu Facebook e/ou o meu Instagram, sabem que isso tem sido um processo; também saberão que a partir de hoje é a reentré aqui deste cantinho esquizofrénico chamado Miliuma e que tentarei partilhar o máximo que vos for útil e interessante nesta jornada.

 

A propósito do corpo e da profissão, perguntam-me sempre se tenho tatuagens. Bom, mais ou menos. Tive, feita sem pensar nas consequências, na altivez dos meus dezoito anos e com um desenho tosco na mão que foi, para piorar, desenhado por um tosco ainda mais tosco que tinha aprendido a desenhar na semana anterior (espero eu, caso contrário não há justificação para tamanho disparate que ele prali fez!). Passei anos a rejeitar a existência daquela mancha na pele e outros tantos a escolher desenhos lindíssimos para cobrir a asneira. Falei com dermatologistas, com o meu pai - meu médico e meu melhor conselheiro - com tatuadores e com o google. Depois de muito ponderar, decidi tomar uma decisão consciente que fizesse contraste à inconsciência do passado e remover a tatuagem.

Escrevo-vos a umas horas da sexta sessão de remoção, com uma mancha quase desaparecida. E escrevo para vos elucidar o melhor que conseguir sobre este tema, bem como partilhar a experiência e alguns dados da minha pesquisa.

 

 

#58 via de cintura interna

 

MANHÃ

 

Eu tinha sete anos e a C. era um ano mais velha do que eu. Estávamos na segunda classe, ela vivia numa ilha cuja entrada era na travessa onde eu morava. Todas as manhãs, a minha ama, eu e a C., caminhávamos pelos atalhos de terra e areia que pertenciam à construção da Via de Cintura Interna, no Porto. Antes de entrar na primeira classe, via da minha janela campos verdes e uma casa senhorial acompanhada de uma casinha de caseiro, singela e pitoresca; quando passei para o terceiro ano, estavam os vizinhos a mudar as janelas para caixilharia nova e vidros duplos, carros a alta velocidade atravessavam a cidade com uma rapidez de se aplaudir, enquanto nós nos mudávamos para o outro lado da freguesia, onde ainda hoje vivem os meus pais. Nessas caminhadas para a escola, passávamos por baixo de um viaduto que estava a ser construído antes da própria VCI e que viria a ser um dos nós de acesso da mesma - o buraco ainda não tinha sido escavado para se alcatroar a via principal. Então, eu e a minha ama, agachadas, passávamos por baixo do betão novo, sem medos, claustrofobias nem tremores. Caminhar nas obras era mais divertido do que ir pelas ruas normais. A C. não se agachava e porque, pelas minhas contas, se ela era um ano mais velha do que eu, eu devia ser mais baixa, portanto houve um dia em que também não me baixei. Bati com a cabeça e ri-me. Percebi, pela primeira vez, que nem tudo fazia sentido e soube, naquele instante, que sempre que passasse na VCI, debaixo daquele viaduto, me ia lembrar do exacto ponto onde a minha cabeça tinha batido e do quão raro é as pessoas andarem a bater com cabeças em viadutos. Hoje continuo a olhar para esse mesmo lugar quando lá passo, rio para mim e penso que felizmente que as pessoas realmente não andam a bater com as cabeças em viadutos e deixa-me olhar pra estrada que aqui não dá para abrandar.

 

© Chtcheglov 

 

 

#57 somos o que comemos

 

À porta do Miss Jappa, no Príncipe Real, falava com uma portuguesa, uma brasileira e um espanhol sobre comida, enquanto esperávamos a nossa mesa. Referi que a minha alimentação se alterou para melhor nos últimos tempos. Desde que fiz trinta muito se alterou para melhor. Desde que tenho o blog, também. Escrever ajuda a organizar o pensamento.

Actualmente, em casa, consumo a maioria dos meus alimentos através destas três opções:

cabazes biológicos de entrega ao domicílio, mercados biológicos ou cultivo interior.

 

1 - Cabazes biológicos de entrega ao domicílio

Há sites, uns mais bonitos que outros, que nos deixam escolher que alimentos queremos colocar na nossa caixinha semanal (ou mensal ou até pontual) e receber com um sorriso em casa. São frutos e vegetais da época, cultivados em agricultura sustentável, entregues ao domicílio directamente pelo produtor. Não passam por cadeias de distribuição, não encarecem cinquenta vezes, não apanham porcaria do mercado abastecedor, não são produzidos em estufas cheias de químicos nem são importados (salvo raras excepções invariavelmente mencionadas nos sites). Não são maçãs para capas de revista. É fruta com ar verdadeiro, são alfaces que cheiram a alface desde o corredor do prédio, quando abrimos a porta ao senhor das entregas.

 

Quinta do Arneiro

Quinta da Pedra Branca

Prove

Mercado Saloio

Belong

Pede Salsa

Horta à Porta

Bioino

Quental Biológico

Quintinha

 

© fruverymas.com

 

 

#46 o rio que não era meu

 

A minha família tem uma mistura incrível de origens, mas está tudo por provar e só começa na geração dos bisavós para cima. Os meus pais nasceram em Castelo de Paiva e cresceram no Porto, a minha (invicta) cidade.

 

Fazendo contas por alto às vezes que atravessei a ponte de entre-os-rios, ida e volta, ida e volta, até ao dia em que ela caiu, hei-de ter lá passado cerca de 1700 vezes. É isso mesmo, 1700 vezes a pensar, ai jesus que isto está com ar de que vai cair. Caiu. Não por culpa do tabuleiro, como eu pensava, mas pelo pilar que cedeu.

 

Lembro-me de cada minuto dessa noite. A minha mãe a chamar-me, o soco no estômago, o medo, as chamadas para a nossa família que não conseguíamos fazer -  a rede de telemóvel estava congestionada e as linhas dos telefones fixos caíram com a ponte - a noite em claro, o meu pai no Brasil, preocupado.

 

Conheci gente que estava num dos carros que ficou na parte inicial do tabuleiro e não caiu. A minha família toda, naquele domingo à noite, vinha para o Porto, como era habitual. Uns passaram cinco minutos antes, o resto chegou ao lugar pouco depois da tragédia. Todos que eram meus escaparam de raspão ao que poderia ter sido uma história completamente diferente na minha vida.

 

Por outras circunstâncias e vicissitudes, deixei de ir à terra dos meus pais. Nunca foi um lugar que eu gostasse particularmente, embora lhe reconhecesse a beleza natural. Hoje consigo olhar para este lugar encostado ao Douro com menos intensidade e até, ao atravessar a vila no regresso ao Porto, senti alguma saudade de quando brincava à porta de casa da minha tia T..

 

 

Ao caminhar os oito quilómetros dos passadiços, aguentei as tonturas das vertigens, o calor, o cansaço e a sede para poder ver, camuflada entre tantos outros turistas, as montanhas verdes que terminam no rio em que me banhei todos os verões, o rio que atravessei às cavalitas do V., com medo das aranhiças que saltitavam de pedra em pedra, o rio que durante toda a minha infância forneceu a água das torneiras da minha cidade do Porto, o rio que enchia as panelas de ferro onde os irmãos da A. faziam uma cabidela improvisada. 

 

Duas horas e meia depois, sorri e ri feliz, parecia uma prova de superação, como uma mini-maratona para os mais audazes. Foi um caminho quase todo feito em silêncio, a limpar as memórias nessa água cristalina e fugidia. Hoje, se me propusessem escrever uma frase com as palavras natureza, reconciliação e paz, eu ganhava o concurso. Primeiro prémio.

 

PS  - Vale a pena visitar. As reservas dos bilhetes têm de ser feitas com, pelo menos, duas semanas de antecedência. Comprem sempre a mais - só custa 1€ e na altura pode haver mais gente a querer acompanhar-vos na viagem. Porque é, realmente, uma viagem. 

 

#43 nos primavera sound dois mil e dezasseis

 

Na última noite estava calor. Eram três e meia da manhã e ainda a vestir uma t-shirt e um sorriso, sem pressa de terminar. O Primavera melhora a cada ano que passa e eu não soube bem perceber o porquê.

 

Ao chegar ao recinto, tudo estava igual aos anos anteriores, as diferenças eram tão imperceptíveis que parecia que tinha havido uma elipse temporal e o resto dos anos que existem entre um festival e outro, entre uma edição e outra, tinham desaparecido. Por isso não sei explicar o porquê de este ano ter sido ainda (e tão) melhor.

 

Em 2017 voltarei, certamente.

 

 © Joana Nunes

 

Até lá, resta-me partilhar três coisas:

1 - Não sabia quem era o Brian Wilson, esse nome em destaque no alinhamento. Quando o Brian Wilson, aliás, quando os Beach Boys começaram a tocar, não quis acreditar na minha sorte. Os Beach Boys ao vivo. Senti-me uma privilegiada.

2 - O Primavera apresenta-me sempre alguém novo. Moderat conquistou-me. Foi para compensar a desanimada actuação de Air. Ou para compensar as minhas expectativas.

3 - Com amigos (ou com amor) tudo é melhor! Dançámos, rimos e conversámos. Às vezes demos atenção à tecnologia e tirámos selfies, fizemos boomerangs e snapchats. O Primavera foi, graciosamente, um laboratório para novas descobertas das redes.

 

Hoje, curiosamente, fui gravar uma locução para o Continente e encontrei no estúdio a revista Gerador onde está publicada a minha crónica sobre o Primavera Sound. Se não quiserem ler essa, leiam outras, que a Gerador é incrível.

 

 

#33 erro-código-erro

 

Fotografia: Chtcheglov  |  Montra: na Avenida da Liberdade.  |  Mão: a minha.

 

 

Tudo se resolve meu amor, diz-me ela, seguido de um coração digital a tantos quilómetros de distância. Ela, que tem vivido estes trinta anos tão desacomodada quanto eu. E depois lembro-me de um dia meterem dito para não me acomodar. E, até hoje, segui isso tanto à risca que não absorvo o descanso. O meu corpo rejeita o conforto do edredon, dói nas horas em que pára, parece que se enche de peso de consciência em estar parado e cansa-me mais, não me deixando levantar de manhã.

 

Vais errar muito, disseram-me os dois, numa pausa entre o prato e a sobremesa e enquanto fumavam cigarros e eu, ex-fumadora, os observava por entre nuvens de fumo e lhes explicava que o meu blog ia ser sobre mil e uma coisas e eu não teria de me a resignar só a um tema, porque há coisas mais importantes na vida às quais me tenho resignar, como o pagamento às finanças pelo irs ou levar o carro ao mecânico.

 

Escreve posts pequenos, para que ninguém se canse, oh, disseram-me várias pessoas de quem muito gosto mas a quem pergunto: porquê? não quero uma resposta técnica, nem que me quantifiquem o alcance dos posts através de uma comparação percentual entre mancha de imagem e mancha de texto. pergunto: porque é que eu quero que ninguém se canse? Eu gosto de sair de um filme cansada e fechar a última página de um livro em silêncio e precisar de tempo para recuperar. Isto não é (mas também pode ser) apenas entretenimento.

 

O dinheiro não é o mais importante, digo a mim própria. Sei disso quando me despeço dos meus pais antes de entrar no comboio de regresso a casa, sei disso quando ele me abraça na estação do Oriente. Sei disso quando os meus amigos me pagam uma cerveja e perguntam onde estou. Sei disso quando ela, a tantos quilómetros de distância, me envia corações digitais como se eles curassem as minhas feridas. O dinheiro não é sequer importante. Viveria de vouchers de supermercado, da praia e de fazer filmes. O telemóvel partiu, o irs deu-me más notícias, tenho o carro por arranjar e não sou paga pela maior parte do trabalho que faço, pelo que não posso investir em tantos projectos artísticos quanto gostaria, nem posso reclamar com as finanças porque elas só comem mais e mais e mais dinheiro e eu visito os meus pais e eles oferecem ajuda e eu digo que não, porque com esta idade simplesmente não é justo não poder construir um mínimo de património pessoal. 

 

Ela despede-se com xxx porque está em Londres e lá isso significa beijinhos. E eu lembro-me que viveria de vouchers de supermercado, da praia e de fazer filmes se todos eles continuassem (vivos e) aqui.