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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#103 josé mayer, não estás sozinho

 

Carta a José Mayer, sem cabeçalho.

 

És o personagem-tipo da novela: há a stripper, há o patrão sem escrúpulos, há o traidor, há a vingativa e agora há o José Mayer. Que te dê algum alento saber que não estás sozinho, que, se tudo correr bem, serás o pioneiro da corrida, o primeiro de muitos a serem acusados e apontados por um comportamento perpetuado por todos nós. Sim, não nos queixarmos às autoridades é responsabilidade nossa, mas não é por isso que temos uma pinga de culpa ou somos menos vítimas. Explico-te porquê:

 

Já que gostas tanto do que está entre as pernas das mulheres e não te imagino com uma grande noção de limites, vamos imaginar então que é um homem a assediar-te, ou seja, alguém que à partida não queres de todo que te aborde sexualmente. Agora imagina, José, que esse homem te massaja o pénis assim como quem não quer a coisa, devagarinho e de vez em quando. Ah, brincadeirinha, né Zé? Estás a vestir-te para filmar e vem esse colega elogiar a tua bunda, reiterar que se tu quiseres ele te leva às estrelas. Estão a filmar e ele apalpa-te, mas não te preocupes, que é só a brincar, não confundas a ficção com a realidade, José. Pensas em dizer ao produtor, ao diretor do projecto e do canal, pensas, magicas, mas será que não se vão rir na tua cara, dizer que és um novato que não percebes como estas coisas funcionam e que esse teu colega é um famigerado ator brincalhão e que tens é de ter calminha porque como tu, Mayer, vou te tratar por Mayer, há tantos outros atores prontos a fazer o trabalho? Vai pela sombra, Mayer, que o teu colega é um doce e só está a brincar contigo.

 

Sessão fotográfica. Tu és a Taís Araújo e no teu lugar está o teu coleguinha que, não sei se te lembras, gostava de te saltar para a espinha. No caso de não te lembrares, ele vai refrescar a tua memória neste momento constrangedor, ao ouvido. 

 

 

Que agradável deve ter sido tirar esta fotografia. A Taís Araújo também faz parte do movimento, Mayer. Ela e Deborah Secco, que, tão novinha, interpretou uma garota que se apaixonava pelo teu personagem. Foram bons os ensaios? Fizeste muitas piadinhas? Sentiste-te bem? E ela, sentiu-se enojada, suja, mal disposta e enraivecida? Não conheço a Deborah Secco, mas é assim que eu me sinto cada vez que pessoas como tu fazem aquilo que tu fazes. Todos os dias.

 

Portanto, fica contentinho, José, que não estás sozinho. José Mayers há no trânsito parado onde não podes fugir, há no café em frente à tua casa onde toda a gente se conhece, há nos idosos que podem dizer o que quiserem porque são idosos, há nos primos adolescentes que já andam a aprender o vocabulário necessário ao assédio, há no colega de trabalho, ou em dois ou em três, há nos namorados das amigas, há nos amigos dos pais, há nos vizinhos do lado.

 

José Mayers há em homens e mulheres que vivem perto de outros homens e mulheres e os destroem, magoam, insultam, desrespeitam e violam a sua saúde mental sem que possamos fazer nada, porque eles estão sempre lá e são aprovados pelo resto da pequena comunidade onde estamos inseridos. Corrijo, sem que pudéssemos fazer nada. Desculpem lá, Mayers, é que a situação, finalmente, mudou.

 

#chegadeassedio