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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#58 via de cintura interna

 

MANHÃ

 

Eu tinha sete anos e a C. era um ano mais velha do que eu. Estávamos na segunda classe, ela vivia numa ilha cuja entrada era na travessa onde eu morava. Todas as manhãs, a minha ama, eu e a C., caminhávamos pelos atalhos de terra e areia que pertenciam à construção da Via de Cintura Interna, no Porto. Antes de entrar na primeira classe, via da minha janela campos verdes e uma casa senhorial acompanhada de uma casinha de caseiro, singela e pitoresca; quando passei para o terceiro ano, estavam os vizinhos a mudar as janelas para caixilharia nova e vidros duplos, carros a alta velocidade atravessavam a cidade com uma rapidez de se aplaudir, enquanto nós nos mudávamos para o outro lado da freguesia, onde ainda hoje vivem os meus pais. Nessas caminhadas para a escola, passávamos por baixo de um viaduto que estava a ser construído antes da própria VCI e que viria a ser um dos nós de acesso da mesma - o buraco ainda não tinha sido escavado para se alcatroar a via principal. Então, eu e a minha ama, agachadas, passávamos por baixo do betão novo, sem medos, claustrofobias nem tremores. Caminhar nas obras era mais divertido do que ir pelas ruas normais. A C. não se agachava e porque, pelas minhas contas, se ela era um ano mais velha do que eu, eu devia ser mais baixa, portanto houve um dia em que também não me baixei. Bati com a cabeça e ri-me. Percebi, pela primeira vez, que nem tudo fazia sentido e soube, naquele instante, que sempre que passasse na VCI, debaixo daquele viaduto, me ia lembrar do exacto ponto onde a minha cabeça tinha batido e do quão raro é as pessoas andarem a bater com cabeças em viadutos. Hoje continuo a olhar para esse mesmo lugar quando lá passo, rio para mim e penso que felizmente que as pessoas realmente não andam a bater com as cabeças em viadutos e deixa-me olhar pra estrada que aqui não dá para abrandar.

 

© Chtcheglov 

 

 

#31 polaroid

 

No dia em que percebi que todos os meus documentos de 2008 a 2013 tinham desaparecido para sempre, não chorei. Eram duas da tarde, enfiei-me debaixo dos lençóis e dormi.

Fiquei de ressaca desde essa quinta-feira até domingo, em silêncio, sem vontade de pronunciar frases inteiras e correr o risco de as perder também. 500 gigas de memória falsa, 5 anos passados quase a viver fora de Portugal, a viajar o mundo, a aprender, a conhecer pessoas das quais nem uma fotografia guardei. E assim ficaram as minhas memórias, quais polaroids instantâneas que se desfazem em três pela tesoura da cozinha e das quais ficas só com a parte desfocada, que não prova coisa alguma.