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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#132 adeus, misericórdia

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Do alto da escadas da Igreja de São Roque, dois jovens portugueses projectavam a voz enquanto falavam em inglês para um grupo de, pelo menos, quarenta e cinco pessoas. Vínhamos do Príncipe Real, eu e duas amigas. Quando dobrámos a esquina do Largo do Cauteleiro, como muita gente lhe chama, e vi estes dois rapazes a falarem para o público atento, disse-lhes, secretamente orgulhosa da minha área, que queria parar ali para assistir, que devia ser uma performance artística, tão bom. E parei, parámos. “And now we’re gonna drink in at least fifteen more bars and pubs, all night long.” Abri a boca e soltei um altíssimo: o quê?! Aquele grande grupo de estrangeiros, atento e ordenado, estava pronto, à meia noite, para iniciar uma viagem regada a álcool pela cidade, em comitiva, qual rebanho maciço. Não havia artisticidade nenhuma nisto. As minhas amigas riram-se da minha reacção que parecia exagerada. Eu, num misto de choque e tristeza, virei costas ao grupo e olhei o resto da rua da Misericórdia, ao fim de uns meses sem lá passar de noite, olhei com atenção, colada no mesmo quadrado de calçada portuguesa escorregadia.

 

 

#33 erro-código-erro

 

Fotografia: Chtcheglov  |  Montra: na Avenida da Liberdade.  |  Mão: a minha.

 

 

Tudo se resolve meu amor, diz-me ela, seguido de um coração digital a tantos quilómetros de distância. Ela, que tem vivido estes trinta anos tão desacomodada quanto eu. E depois lembro-me de um dia meterem dito para não me acomodar. E, até hoje, segui isso tanto à risca que não absorvo o descanso. O meu corpo rejeita o conforto do edredon, dói nas horas em que pára, parece que se enche de peso de consciência em estar parado e cansa-me mais, não me deixando levantar de manhã.

 

Vais errar muito, disseram-me os dois, numa pausa entre o prato e a sobremesa e enquanto fumavam cigarros e eu, ex-fumadora, os observava por entre nuvens de fumo e lhes explicava que o meu blog ia ser sobre mil e uma coisas e eu não teria de me a resignar só a um tema, porque há coisas mais importantes na vida às quais me tenho resignar, como o pagamento às finanças pelo irs ou levar o carro ao mecânico.

 

Escreve posts pequenos, para que ninguém se canse, oh, disseram-me várias pessoas de quem muito gosto mas a quem pergunto: porquê? não quero uma resposta técnica, nem que me quantifiquem o alcance dos posts através de uma comparação percentual entre mancha de imagem e mancha de texto. pergunto: porque é que eu quero que ninguém se canse? Eu gosto de sair de um filme cansada e fechar a última página de um livro em silêncio e precisar de tempo para recuperar. Isto não é (mas também pode ser) apenas entretenimento.

 

O dinheiro não é o mais importante, digo a mim própria. Sei disso quando me despeço dos meus pais antes de entrar no comboio de regresso a casa, sei disso quando ele me abraça na estação do Oriente. Sei disso quando os meus amigos me pagam uma cerveja e perguntam onde estou. Sei disso quando ela, a tantos quilómetros de distância, me envia corações digitais como se eles curassem as minhas feridas. O dinheiro não é sequer importante. Viveria de vouchers de supermercado, da praia e de fazer filmes. O telemóvel partiu, o irs deu-me más notícias, tenho o carro por arranjar e não sou paga pela maior parte do trabalho que faço, pelo que não posso investir em tantos projectos artísticos quanto gostaria, nem posso reclamar com as finanças porque elas só comem mais e mais e mais dinheiro e eu visito os meus pais e eles oferecem ajuda e eu digo que não, porque com esta idade simplesmente não é justo não poder construir um mínimo de património pessoal. 

 

Ela despede-se com xxx porque está em Londres e lá isso significa beijinhos. E eu lembro-me que viveria de vouchers de supermercado, da praia e de fazer filmes se todos eles continuassem (vivos e) aqui.