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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#50 FODMAP, sim, escrevi bem

 

CONTEXTO

Não estou certa se já referi isto no blog, mas creio que sim: sou alérgica a uma data de coisas mais um par de botas. Desde quase todas as frutas aos pólens e animais, tenho todo um espectro de alergias e rinites e conjuntivites alérgicas para completar o pacote. Se a minha mãe me lavou demasiado as mãos quando era pequena? Duvido, todas as minhas semanais visitas a castelo de paiva eram regadas a mãos pretas de terra e a bocas de cenouras por lavar. O meu irmão ficava fechado em casa e está rijo, vá perceber-se. Por volta dos dezanove anos, comecei a ter manifestações que ultrapassavam as habituais comichões na língua quando comia ananás e passei aos sintomas graves, os que me proibiram de continuar a ingerir toda uma lista de alimentos. Estou habituada e, quem sabe, à minha boleia ainda se descobrirá uma vacina qualquer de dessensibilização a estes alergéneos. Até lá, confesso as saudades de beber um sumo laranja natural e vivo a minha vidinha, aproveitando este presente em que ainda posso comer frutos silvestres. A alergia aos alimentos pode sempre crescer, portanto, em vez de chorar pela laranja, delicio-me com a amora. 

 

Bacalhau à Brás do Chef Bertílio Gomes - Restaurante Chapitô à Mesa

 

 

#39 criança ontem, criança hoje

 

Há uma criança em todos nós e não, não justifico por isso infantilidades.

 

Há uma criança porque já fomos uma criança, já todos passámos pelo processo do primeiro passo, da primeira palavra, do primeiro espirro. Todos nós já tivemos dentinhos a caírem, terrores nocturnos e cólicas. Mimo, carências, tristezas, hormonas de crescimento a baralharem as precoces convicções. Todos nós já sofremos e já entrámos numa quase-arritmia de felicidade, já recordámos o passado e ansiámos o futuro porque todos nós já fomos crianças e todos nós crescemos e estamos aqui hoje, a menosprezar o presente.

 

Há uma impaciência geral para o outro: no trânsito, na fila do supermercado, no erro inocente. A intolerância e a flexibilidade domina-nos. O rótulo mal medido, esse preconceito que permanece, construído sem alicerce, que abraça os desconhecidos e os divide em meia dúzia de categorias a maior parte das vezes erradas, não fôssemos todos diferentes. Para nos categorizarmos, precisaríamos de milhares delas e, mesmo assim, de fronteiras ténues.

 

Mas numa coisa somos todos iguais, todos já fomos crianças e se, no olhar distraído de um homem amargurado conseguirmos encontrar essa pureza, o exercício social começa a fazer sentido: encontrar o que há de melhor, não deixar escapar esse deslumbramento pelo novo e o bonito, ser a nossa própria criança mais do que uma vez ao dia.