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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#58 via de cintura interna

 

MANHÃ

 

Eu tinha sete anos e a C. era um ano mais velha do que eu. Estávamos na segunda classe, ela vivia numa ilha cuja entrada era na travessa onde eu morava. Todas as manhãs, a minha ama, eu e a C., caminhávamos pelos atalhos de terra e areia que pertenciam à construção da Via de Cintura Interna, no Porto. Antes de entrar na primeira classe, via da minha janela campos verdes e uma casa senhorial acompanhada de uma casinha de caseiro, singela e pitoresca; quando passei para o terceiro ano, estavam os vizinhos a mudar as janelas para caixilharia nova e vidros duplos, carros a alta velocidade atravessavam a cidade com uma rapidez de se aplaudir, enquanto nós nos mudávamos para o outro lado da freguesia, onde ainda hoje vivem os meus pais. Nessas caminhadas para a escola, passávamos por baixo de um viaduto que estava a ser construído antes da própria VCI e que viria a ser um dos nós de acesso da mesma - o buraco ainda não tinha sido escavado para se alcatroar a via principal. Então, eu e a minha ama, agachadas, passávamos por baixo do betão novo, sem medos, claustrofobias nem tremores. Caminhar nas obras era mais divertido do que ir pelas ruas normais. A C. não se agachava e porque, pelas minhas contas, se ela era um ano mais velha do que eu, eu devia ser mais baixa, portanto houve um dia em que também não me baixei. Bati com a cabeça e ri-me. Percebi, pela primeira vez, que nem tudo fazia sentido e soube, naquele instante, que sempre que passasse na VCI, debaixo daquele viaduto, me ia lembrar do exacto ponto onde a minha cabeça tinha batido e do quão raro é as pessoas andarem a bater com cabeças em viadutos. Hoje continuo a olhar para esse mesmo lugar quando lá passo, rio para mim e penso que felizmente que as pessoas realmente não andam a bater com as cabeças em viadutos e deixa-me olhar pra estrada que aqui não dá para abrandar.

 

© Chtcheglov 

 

 

#39 criança ontem, criança hoje

 

Há uma criança em todos nós e não, não justifico por isso infantilidades.

 

Há uma criança porque já fomos uma criança, já todos passámos pelo processo do primeiro passo, da primeira palavra, do primeiro espirro. Todos nós já tivemos dentinhos a caírem, terrores nocturnos e cólicas. Mimo, carências, tristezas, hormonas de crescimento a baralharem as precoces convicções. Todos nós já sofremos e já entrámos numa quase-arritmia de felicidade, já recordámos o passado e ansiámos o futuro porque todos nós já fomos crianças e todos nós crescemos e estamos aqui hoje, a menosprezar o presente.

 

Há uma impaciência geral para o outro: no trânsito, na fila do supermercado, no erro inocente. A intolerância e a flexibilidade domina-nos. O rótulo mal medido, esse preconceito que permanece, construído sem alicerce, que abraça os desconhecidos e os divide em meia dúzia de categorias a maior parte das vezes erradas, não fôssemos todos diferentes. Para nos categorizarmos, precisaríamos de milhares delas e, mesmo assim, de fronteiras ténues.

 

Mas numa coisa somos todos iguais, todos já fomos crianças e se, no olhar distraído de um homem amargurado conseguirmos encontrar essa pureza, o exercício social começa a fazer sentido: encontrar o que há de melhor, não deixar escapar esse deslumbramento pelo novo e o bonito, ser a nossa própria criança mais do que uma vez ao dia.