Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Miliuma

insónias | ideias | publicações

#137 gula - ep.13

 

panorama-porto-santo-miliuma.jpg

 

À porta do hotel, um senhor bem parecido esperava com o seu jipe e um sorriso vestido. Enquanto falava sobre a ilha do Porto Santo, subia as montanhas com a destreza de quem as conhece de cor, mesmo nos dias de nevoeiro cerrado. Quando parou o carro, voltou a sorrir e percebeu que ficámos deslumbrados com a vista. Sim, só podia chamar-se Panorama.

 

 

#56 mais amor, por favor

 

Hoje conversava com uma amiga, a A. sobre os incêndios. Ela contava-me que, salvada a casa, todo o resto do terreno do sogro ardeu. Que vizinhos deste perderam tudo. Duas horas depois, a J. escreveu-me sobre os incêndios na Madeira, enviámos emoticons a chorar uma à outra e consolámos-nos assim virtualmente. Procurei o telemóvel e vi o número de likes na minha foto no Instagram, tirada de cabelo ao vento ao pé da piscina. Céu azul, sem sinais de fumo por aqui. Por isso, o assunto é distante. Escrevo agora, quase à uma da manhã, televisão em silêncio, o fogo cada vez mais longe. Vem o sono e penso que não, não posso ir dormir sem pensar nisto, sem reflectir nem que por cinco minutos nesta tragédia. 

 

Ano após ano, fogo após fogo, Portugal fica coberto de cinza, manchas de árvores castanhas ocupam áreas cada vez maiores dos campos que se vêm da auto-estrada, terrenos de uma população envelhecida que não viverá anos suficientes para ver os seus pedaços de terra a gerar mais vida. A população envelhecida somos nós, os portugueses, a morte é de todos nós. Não me chega desligar a televisão, porque as dúvidas não vão embora. Já não me debruço apenas nas limpezas das matas, na fiscalização, nas leis que continuam a ser vantajosas para estes crápulas. Penso pior:

Tem de haver um nível de psicopatia em quem acende um fogo intencionalmente. Essa falta de empatia pelo próximo e incapacidade de sentir culpa ou remorso é grave e partilhada pelos mais impiedosos assassinos. E os incêndios, são muitos, em todo o país, todo o verão. Estamos rodeados de pessoas ligeiramente psicopatas que nos ganham sem punição.