Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#79 el comandante

 

A minha terapeuta perguntou-me como é que eu me estava a sentir por causa da morte do Fidel. Fico contente que alguém tenha perguntado. Estou bem, obrigada.

 

O meu Fidel, o motorista que provavelmente já nem se lembra de mim, deve estar confuso com a morte do El Comandante. Ele, o meu taxista, a minha amiga B., a bela Y. que está no Canadá e ainda o N. que está na Colômbia. Todos cubanos, uns de nascença e outros por casamento, e todos meus amigos, sentem uma dicotomia grande relativamente à morte do líder da revolução. Nenhum, naturalmente, festeja.

 

Nestes 57 anos de revolução, como eles lhe chamam, o Fidel passou de salvador da pátria ao pior pesadelo do país. Errou, assumiu alguns erros e escondeu a pior parte da história sem aparentes remorsos. Desenvolveu a cultura e o altíssimo nível intelectual e académico da ilha, ao invés de promover um analfabetismo útil à ditadura. E continuou a deixar morrer cubanos por falta de medicação enquanto eliminava a mortalidade infantil. De Fidel, veio o bom e o mau.

 

 

Vivi nesta escola de cinema que ele inaugura na fotografia. Vivi em terras cubanas, sob o regime de Raúl Castro, investiguei sobre dissidentes políticos e crimes contra a humanidade. Soube (e sei) de coisas muito mais feias do que a maioria das pessoas que lerá este texto possa sequer imaginar. Apesar de tudo isso e da minha pública posição contra o regime de Castro, não festejo, não me sinto aliviada e muito menos indiferente. Há um pesar pela memória colectiva de um sonho e é para esse sonho destruído que vai o meu lamento.

 

 

#42 la guagua de la media noche

 

O autocarro amarelo norte-americano com as palavras “school bus” a preto, no visor dianteiro, percorria as estradas mal alcatroadas que ligam La Habana a San Antonio. De vidro aberto, eu fumava um cigarro do maço de hollywood vermelho que, em 2009, custava menos de um euro. A fazer-me companhia, um bicho preto, parecido com o louva-a-deus na sua forma mas menos inquieto.

 

Ao fim-de-semana gostava de ir à capital, só ia ficar uns meses em Cuba e Havana tem muito para viver. Nessas noites, nesses regressos de 30km, todos fumávamos, todos de auscultadores a ouvirmos salsa. Quase ninguém tinha saudades de casa, da música de casa, da comida de casa, da roupa de casa, do cheiro de casa. Cuba anestesiava-nos nessa quinta onde dormíamos e estudávamos cinema, onde dançávamos e comíamos, onde vivíamos tempos irrepetíveis.

 

A meio do caminho o motorista, de nome Fidel em homenagem a El Comandante, colocava água no autocarro e voltávamos a fazer-nos à estrada, agora com menos fumo e cheiro a queimado. Aos sábados à noite, nos regressos à quinta, quase todos trazíamos pacotes de papel higiénico na mochila, não fosse o stock acabar outra vez e a ilha ficar mais ilha e todos nós ficarmos ainda mais longe do que o que estávamos habituados.

 

Fidel parava a viatura na portagem, um segurança entrava e olhava-nos nos olhos, um a um, conhecia a cara de todos estes estrangeiros que povoavam a quinta, sabia os nomes, as nacionalidades e o dia exacto em que os tinha de enviar de volta para o seu país. Em Cuba sabe-se tudo. Na portagem, quem tinha adormecido acordava, guardávamos todos os auscultadores e dois minutos depois parávamos à porta da escola. Adiós Fidel. Adiós mi amor, hasta mañana. No bar, havia sempre alguém que nos aguardava com umas colunas, a música pronta e o rum servido. As meias noites dos sábados de 2009 na Escola de Cinema de San António de los Baños eram mágicas, vinte metros quadrados albergavam-nos a todos, como uma família de amigos que acordam e se deitam todos juntos todos os dias, durante um período de tempo estanque, que só a eles e a mim pertenceu.

 

O autocarro arrancava com o Fidel ao volante para um lugar que nunca descobri qual. O Fidel também morava em San Antonio, talvez na mesma quinta que eu. Lembro-me da cara dele, moreno, de olhos claros, com sorriso de avô e olhar de menino. É a primeira vez que falo do Fidel, é talvez a primeira vez que penso nele ao longo destes anos. Escrever sobre Cuba é assumir que passou, aceitar a utopia desse universo como encerrada, escrever sobre Cuba é fechar um capítulo, escrever sobre Cuba é, para mim, escrever sobre liberdade.