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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#92 desculpa lá, quanto é que ganhas mesmo?

 

Uma vez por ano lá acontece. Menos de 10 euros na conta. Não dá para levantar. Não serve, virtualmente, para nada. É aquele troco que as casas de câmbio não aceitam, aquele arredondamento fofinho com o qual ninguém, nem eu, se costuma importar.

 

Claro, a bateria do carro avaria, ficamos na reserva antes sequer de sair da rua, o Vimeo para profissionais pede o valor de subscrição, os sites, as anuidades que ameaçam: vamos apagar todos os teus dados e mais um par de calças se não pagas hoje!

 

O tempo melhora drasticamente, de um dia de Inverno para o primeiro dia de Verão do ano e tu lembras-te que tens de comprar sandálias porque já ferves das patas e não tarda não tens o que calçar. Tu não, eu, eu estou a falar de mim, bolas. Lá irei, mais próxima fisicamente do poder económico do cartão multibanco da minha mãe, à procura de umas chanclas que me permitam arejar, estar bonita e não escorregar pela calçada portuguesa fora, que o Chiado com tantos turistas fica com a calçada mais polida que o chão do Palácio da Bolsa. Mas não é agora, não, que eu agora tenho exatamente €9,48 na conta.

 

 

Se eu dissesse este texto em voz alta, em tom de monólogo improvisado à frente de uma boa quantidade de gente, conseguiria ver o ar de constrangimento a apoderar-se dos seus olhares. Falar de dinheiro é pecado. É pouca vergonha. Coisa feia. Não se diz, Helena. Nem se pergunta. Não se discutem salários, não se conta como se pagam as viagens às Polinésias por aí espalhadas, não se fala, em nenhuma circunstância, do desconto para comprar a mala da Prada que repetimos há 17 anos nos casamentos da família. Que feio, o dinheiro - diriam.

 

O meu é bonito - exclamaria, se de um monólogo se tratasse, então. O meu dinheiro veio só de sítios bonitos, do amor dos pais que lutaram por ele, veio da minha cabecinha que se põe a trabalhar e a inventar trabalho quando ele não há, vem das minhas personagens, vem do meu amor pelo que faço, o meu dinheiro vem de amor. O meu dinheiro vem é amor. Enquanto o amor não é finito, o dinheiro é. Mas é bonito na mesma. E aquele que virá amanhã também. Bondoso, despudorado e honesto. Como a dona.

 

 

#33 erro-código-erro

 

Fotografia: Chtcheglov  |  Montra: na Avenida da Liberdade.  |  Mão: a minha.

 

 

Tudo se resolve meu amor, diz-me ela, seguido de um coração digital a tantos quilómetros de distância. Ela, que tem vivido estes trinta anos tão desacomodada quanto eu. E depois lembro-me de um dia meterem dito para não me acomodar. E, até hoje, segui isso tanto à risca que não absorvo o descanso. O meu corpo rejeita o conforto do edredon, dói nas horas em que pára, parece que se enche de peso de consciência em estar parado e cansa-me mais, não me deixando levantar de manhã.

 

Vais errar muito, disseram-me os dois, numa pausa entre o prato e a sobremesa e enquanto fumavam cigarros e eu, ex-fumadora, os observava por entre nuvens de fumo e lhes explicava que o meu blog ia ser sobre mil e uma coisas e eu não teria de me a resignar só a um tema, porque há coisas mais importantes na vida às quais me tenho resignar, como o pagamento às finanças pelo irs ou levar o carro ao mecânico.

 

Escreve posts pequenos, para que ninguém se canse, oh, disseram-me várias pessoas de quem muito gosto mas a quem pergunto: porquê? não quero uma resposta técnica, nem que me quantifiquem o alcance dos posts através de uma comparação percentual entre mancha de imagem e mancha de texto. pergunto: porque é que eu quero que ninguém se canse? Eu gosto de sair de um filme cansada e fechar a última página de um livro em silêncio e precisar de tempo para recuperar. Isto não é (mas também pode ser) apenas entretenimento.

 

O dinheiro não é o mais importante, digo a mim própria. Sei disso quando me despeço dos meus pais antes de entrar no comboio de regresso a casa, sei disso quando ele me abraça na estação do Oriente. Sei disso quando os meus amigos me pagam uma cerveja e perguntam onde estou. Sei disso quando ela, a tantos quilómetros de distância, me envia corações digitais como se eles curassem as minhas feridas. O dinheiro não é sequer importante. Viveria de vouchers de supermercado, da praia e de fazer filmes. O telemóvel partiu, o irs deu-me más notícias, tenho o carro por arranjar e não sou paga pela maior parte do trabalho que faço, pelo que não posso investir em tantos projectos artísticos quanto gostaria, nem posso reclamar com as finanças porque elas só comem mais e mais e mais dinheiro e eu visito os meus pais e eles oferecem ajuda e eu digo que não, porque com esta idade simplesmente não é justo não poder construir um mínimo de património pessoal. 

 

Ela despede-se com xxx porque está em Londres e lá isso significa beijinhos. E eu lembro-me que viveria de vouchers de supermercado, da praia e de fazer filmes se todos eles continuassem (vivos e) aqui.