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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#122 gula - ep.8

 

Tenho uma óptima Nitricionista e ela é a primeira a dizer-me que, com equilíbrio, devo experimentar tudo, para ver com o que é que me sinto melhor. Como tudo, neste fado desgraçado no nosso jardim à beira-mar plantado, o que funciona para uns não funciona para todos. Assim, comecei a ler sobre dietas e a que me encantou mais foi a dieta do paleolítico, embora não compre essa ideia de que temos que comer como os nossos antepassados, aliás, bom, enfim, sem comentários - mas que de facto a minha tia emprestada está com um corpo espectacular e magra com o paleo, lá isso está. E porquê? Porque, por exemplo, se cortam leguminosas quando se comem proteínas e se cortam comidas processadas e açúcares e isso não é só a Paleo, mas bom, vamos lá experimentar. E experimentei e comecei a desinchar mas não estava a sentir-me óptima com a ideia de ingerir tanta gordura nem tanta carne. Conclusão: o meu coração agradece e o planeta também. Fiz um workshop/masterclass do qual falei aqui e fiquei também interessada em coisas com o flexitarianismo, mas cada vez que falo ao meu Chef que penso cortar quase por completo na carne, sinto que o abandono nesta parceria de comedores de entrecosto suculento como só nós.

 

 

#108 gula - ep.3

 

 

 

Sou uma pessoa de muitas alergias. Garanto, contudo, que não escolhi ter nenhuma. Quase toda a fruta, alguns tipos de tomate, algumas árvores e relvas, pólen, pó, ácaros, gatos, cães, anestesias, medicação e alguma intolerância à lactose. Não posso beber um sumo de laranja há mais de dez anos e não sei o que é viajar sem levar um papel com números de emergência, um kit de adrenalina, seguro de saúde em viagem e muitas perguntas insistentes: I’m asking if the food has fruit, or the sauce was made with any kind of fruit. Caras de caso, compreendem-me, mas acham bizarro.

 

 

#61 podia tatuar verdade no corpo

 

Eles não precisam de ser iguais a mim para serem meus amigos. Colocam fotografias no instagram dos seus braços a crescerem no ginásio, de costas, a explicar o treino, com o número de burpees e de sequências. Fotografias esteticamente descuidadas, semelhantes a cada dia, sem luz para parecer bonito, só um relato de uma superação. Na verdade, não quero saber se as pessoas vão ao ginásio ou não, isso não é o que interessa ali. Dou o meu like de imediato porque sinto a verdade, o orgulho na superação; cada um tem as suas metas.

 

Nenhuma daquelas fotografias é tirada para ser bonita, mas é mostrada por ser a realidade, qual Alicia Keys sem maquilhagem a ser mundialmente elogiada pela coragem de aparecer perante as câmaras ao natural. Quando é que passou a ser um acto de coragem mostrarmos o que somos? Mais do considerar louvável, considero (a realidade) imprescindível.

 

 

Esta sou eu, com um fato que em nada me favorece, num dia de barriga inchada, numa posição dolorosa e desconfortável. Estou há quase meio ano a alterar o meu estilo de vida, a comer de forma mais saudável, a melhorar as minhas escolhas, a fazer exercício físico. Pela primeira vez na vida, a ter  muita dificuldade em emagrecer. Uma magrita a vida toda que de repente fez trinta anos e se deparou com uma realidade diferente. Custou-me aceitar esta imagem, tinha medo que ao aceitá-la estivesse a compactuar com a sua presença e a acomodar-me.

 

Hoje acordei, literalmente, hoje acordei e percebi que é mais importante partihar esta fotografia sobre a primeira vez que me encostei a uma barra com um fato de ballet com uma professora russa a gritar comigo, sobre a superação e a aprendizagem e a insistência em prol da interpretação da minha personagem, do que publicar apenas fotografias em ângulos elogiosos e calculados ou do que não publicar nada sobre este momento sequer, só porque não gosto do meu corpo assim e porque estou numa fase de mudança. Ele diria, não faz mal. E não faz. Estou em mudança e este é o meu corpo hoje e o mais importante que tenho para vos dizer é: tenho muito orgulho em mim, este dia foi do caraças.

 

 

#50 FODMAP, sim, escrevi bem

 

CONTEXTO

Não estou certa se já referi isto no blog, mas creio que sim: sou alérgica a uma data de coisas mais um par de botas. Desde quase todas as frutas aos pólens e animais, tenho todo um espectro de alergias e rinites e conjuntivites alérgicas para completar o pacote. Se a minha mãe me lavou demasiado as mãos quando era pequena? Duvido, todas as minhas semanais visitas a castelo de paiva eram regadas a mãos pretas de terra e a bocas de cenouras por lavar. O meu irmão ficava fechado em casa e está rijo, vá perceber-se. Por volta dos dezanove anos, comecei a ter manifestações que ultrapassavam as habituais comichões na língua quando comia ananás e passei aos sintomas graves, os que me proibiram de continuar a ingerir toda uma lista de alimentos. Estou habituada e, quem sabe, à minha boleia ainda se descobrirá uma vacina qualquer de dessensibilização a estes alergéneos. Até lá, confesso as saudades de beber um sumo laranja natural e vivo a minha vidinha, aproveitando este presente em que ainda posso comer frutos silvestres. A alergia aos alimentos pode sempre crescer, portanto, em vez de chorar pela laranja, delicio-me com a amora. 

 

Bacalhau à Brás do Chef Bertílio Gomes - Restaurante Chapitô à Mesa

 

 

#16 parte I - amor e comida

 
 

Primeiro ele começou a cozinhar para mim. Depois percebeu que isso o fazia muito feliz. Pelo meio, fui convencendo-o que ele tem talento para a culinária. Entretanto, fez o curso. Hoje trabalha num restaurante com duas estrelas michelin. E eu, eu fiz um blog depois de acabar a novela e decidi falar sobre o meu novo ano, a minha nova vida, as minhas mudanças e, hoje, sobre a minha relação com a comida.

 

Não é novidade que comecei uma dieta com a Ni, se bem que prefiro chamar-lhe reeducação alimentar. Dieta é, na verdade, um regime alimentar, é aquilo que comemos. E eu estou a alterar muitas coisas de há três semanas para cá.

 

Nem um mês passou e sinto-me diferente, o meu palato reconhece mais subtilezas e o meu estômago manda-me parar mais cedo. Como se a gula de comer até cair não me deixasse apreciar a complexidade do que ingiro. O mais importante, comecei a escolher, sempre que possível, aquilo que me alimenta. Desde o azeite à couve roxa da salada. E essa mesma couve roxa pode ser rica de sabor e percebo hoje que posso precisar de mais uns segundos para sentir o sabor dessa couve, essa couve que já não me sabe a corredor dos frescos e passou a saber a terra e a oxigénio e a verde, mesmo sendo roxa. 

 

Desta mudança na minha relação com a comida, comecei a frequentar restaurantes diferentes. Sem snobismos, o meu “craving” passou a ser outro. Como o orçamento não se dilatou nesta minha aventura, como fora menos vezes, mas compenso na qualidade, no sabor e na experiência.

 

 

 - TO BE CONTINUED @ parte II - comida e amor - 

 

 

© lisbonlux.com

 

 

  - TO BE CONTINUED @ parte II - comida e amor - 

 

 

 

 

 

#7 a nitricionista

 

Quando comecei a passar pelo processo falado no post #5, o meu mais querido dizia-me "fala com a Ni, que ela ajuda-te." E eu respondia que não conhecia a Ni de lado nenhum, nem sabia de quem ele estava a falar. E ele dizia que não fazia mal, que ela era boa pessoa e que lhe escrevesse.

 

Depois comecei a pensar no blog e em todas as mudanças que queria partilhar. Falei com o F. e expliquei-lhe que também estava a mudar a minha forma de pensar a comida, que não só a transformação se devia a ter passado a ver/ouvir 24Kitchen em background todo o dia, devido ao facto de o meu mais querido agora ser chef de cozinha, mas também pelo recente interesse pela proveniência dos alimentos, pelo que é verdadeiro, como eu chamo àquilo que sabe ao que é: azeite que sabe a azeite, alface com sabor a alface - um sabor que até há tão pouco não sabia existir. O F. disse "então tens de falar com a Ni". E eu respondi-lhe o mesmo e ele disse mais ou menos o mesmo que o primeiro, com outras palavras.

 

Depois o F. fez anos e fomos festejar o aniversário dele. E ela sentou-se à minha frente e falámos dos nossos blogs. Aliás, falámos do blog dela e do embrião do meu. Até há umas semanas eu não tinha propriedade para falar de blogs porque, simplesmente, não os conhecia.

 

Agora a Nitricionista trata da minha saúde e é minha amiga. Com ela, corre-se esse risco. 

 

#5 este post não é sobre o dia da mulher

Da última vez que passei por isto, há 4 anos atrás, fiquei com 49kg e já me doía sentar-me em algumas cadeiras, dada a magreza. Tive que fazer dieta para engordar. Este ano não, este ano, do alto dos meus 62kg, fiquei igual e acabaram-se os sisos para retirar.

 

A minha tendência é perder peso, cantava aos quatro ventos, orgulhosa de uma qualidade que me era intrínseca e que eu violava por achar que estaria sempre lá. Lembro-me de dizer à M., depois de uma sessão fotográfica, que desta vez tinha ficado com os braços mais gorditos mas que agora no verão tudo ia desaparecer, porque basta-me deixar de ir às hamburguerias gourmet dia sim dia não e nadar um bocadinho que a coisa passa, afirmei entre duas batatas fritas numa tasca que serve almoços.

 

Passou o verão, o resto estava disfarçado numa elegância aparente - aos olhos dos meus estava mais inchada, aos olhos dos outros continuava impecável, dentro dos parâmetros aconselháveis do IMC. Voltou o outono e pensei que agora que viria o frio até me dedicaria a comer umas sopitas - qu’isto ao fim de duas semanas vai lá, respondia a quem perguntava. E começou a tornar-se esquisito. Eu, a tripeira que comia mais do que os seus amigos homens, que fazia viagens gastronómicas e se orgulhava do seu alargado gosto culinário, teve de começar a admitir que às tantas a cara redondita já não era só uma cara redondita. E ele, que me ama e é chef de cozinha, começou a ter cuidado com o que nos cozinhava porque me via cada vez mais triste, sem motivação para fazer a tal semana a sopas que num instante isto passa, garantia-lhe em lágrimas. Era uma bola de neve, quanto menos me reconhecia ao espelho, mas difícil era admitir as mudanças.

 

Entrei na novela e pensei: porra, logo agora que não cuidei de mim, mas com o ritmo das gravações isto melhora e quando estrear já estou normal outra vez. Depois fiquei doente e cheguei ao peso com que estou hoje. Depois as gravações acabaram. Depois o ano passou.

 

Virei-me de lado relativamente ao espelho. O volume era outro. A cara também. Os braços, o pescoço, os dedos e os anéis a trocarem de posição até os anelares caberem nos mindinhos. Melhorei na saúde. Continuou tudo igual e não houve um horóscopo de segunda categoria que me soubesse avisar que as grandes mudanças de uma vida também podem ser estas, que as novidades de 2016 também podiam ser difíceis numa perspectiva que não conhecia. 

 

Assim, peço desculpa a todas as pessoas a quem disse que isso (ou isto, dito por outrem noutro momento) é uma conversa fútil. Não há nada de fútil na transformação pessoal; não há nada de insignificante na aprendizagem e na mudança.

 

A todos os homens que lerem este texto e a todas as mulheres que nunca passaram por isto: sorriam quando se lembrarem de mim. O nosso novo reflexo toca a quase todos nós. Assim: pum, como uma machadada. Não falo só do corpo, é preciso mencioná-lo? Os olhos também cabem no espelho. Cabe a cada um saber interpretá-lo e admirá-lo, perceber que mais uma fase da vida se iniciou e que está tudo bem. E agora que sei que é diferente, agora que admito que sou diferente, avanço sem esperar voltar ao que era - antes anseio algo melhor. 

 

Agora vou procurar as coisas boas, os vegetais saborosos, os peixes frescos do mar, as carnes sem hormonas, o azeite do alentejo e os espargos do senhor à beira da estrada nacional. Aumentar a sensibilidade do palato. Respirar melhor. Fazer exercício físico sem sentir que é uma perda de tempo. Voltar a escrever. Porque tudo o que muda no meu corpo, muda no resto de mim. Sim, actriz, já devia saber isso há mais tempo. Sei hoje, e hoje é um bonito dia para começar.