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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#136 seis semanas (ou quanto tempo leva o esquecimento)

furacao irma miliuma cuba.jpg

 

Seis semanas foi quanto demorei a ter vontade de voltar a escrever.

 

Seis semanas de férias do blogue, seis semanas a arruinarem as estatísticas que as marcas me pedem para fecharem parcerias.

 

Seis semanas foram o suficiente para a frase passar de Como está o teu blogue para Tu não tinhas um blogue?

 

Em seis semanas filmei um anúncio, gravei uma série do princípio ao fim, fui ao teatro, visitei a minha família nas suas férias algarvias, fui nomeada para dois prémios de melhor atriz e visitei o Porto Santo pela primeira vez. Em seis semanas dormi horas a fio e apanhei consideravelmente pouco sol. Li pouco, comi muito e pensei muito longe do suficiente. Tirei, creio, algumas conclusões.

 

#116 gula - ep.6

 

Outra vez a falar sobre comida, alimentação, gastronomia, gula?

Pois a semana passou a correr e eu faço por manter esta rubrica semanal, ainda que não tenha tempo para mais nada, nomeadamente ir buscar a roupa à costureira que é a oitenta metros de casa.

 

© fotografia: OBSERVADOR 

 

El Clandestino, no Príncipe Real. Não tenho fotografias bonitas para apresentar da minha autoria, mas tenho um bouquet de sensações ainda presentes. El Clandestino pode anunciar-se no Zomato como mexicano - peruano mas, para mim El Clandestino foi o melhor de Cuba que já tive em Lisboa. 

 

 

 

 

#79 el comandante

 

A minha terapeuta perguntou-me como é que eu me estava a sentir por causa da morte do Fidel. Fico contente que alguém tenha perguntado. Estou bem, obrigada.

 

O meu Fidel, o motorista que provavelmente já nem se lembra de mim, deve estar confuso com a morte do El Comandante. Ele, o meu taxista, a minha amiga B., a bela Y. que está no Canadá e ainda o N. que está na Colômbia. Todos cubanos, uns de nascença e outros por casamento, e todos meus amigos, sentem uma dicotomia grande relativamente à morte do líder da revolução. Nenhum, naturalmente, festeja.

 

Nestes 57 anos de revolução, como eles lhe chamam, o Fidel passou de salvador da pátria ao pior pesadelo do país. Errou, assumiu alguns erros e escondeu a pior parte da história sem aparentes remorsos. Desenvolveu a cultura e o altíssimo nível intelectual e académico da ilha, ao invés de promover um analfabetismo útil à ditadura. E continuou a deixar morrer cubanos por falta de medicação enquanto eliminava a mortalidade infantil. De Fidel, veio o bom e o mau.

 

 

Vivi nesta escola de cinema que ele inaugura na fotografia. Vivi em terras cubanas, sob o regime de Raúl Castro, investiguei sobre dissidentes políticos e crimes contra a humanidade. Soube (e sei) de coisas muito mais feias do que a maioria das pessoas que lerá este texto possa sequer imaginar. Apesar de tudo isso e da minha pública posição contra o regime de Castro, não festejo, não me sinto aliviada e muito menos indiferente. Há um pesar pela memória colectiva de um sonho e é para esse sonho destruído que vai o meu lamento.

 

 

#65 hashtag férias

 

2016 tem sido interessantíssimo. Sem ironia, tem mesmo. Mas o interessante nem sempre paga as contas e agora que vou ter a minha semana de férias anual a dois - é preciso chegarmos a Novembro para conciliarmos 7 noites consecutivas. Assim, para as nossas importantes férias de uma semana e qualquer coisa a descansar o cérebro e a alimentar o coração, num instantinho percebemos que precisávamos de praia e pouca movimentação. Contudo, com 7 noites apenas, torna-se apertado ir para a Ásia e destinos com os quais sonhamos persistentemente (sim, o advérbio é mesmo este!) Portanto começámos a ver destinos mais próximos e que ainda nos permitam apanhar sol e umas temperaturas simpáticas. Confesso: eu comecei, eu faço a pesquisa, com todo o gosto. Quando era pequena, o meu pai trazia-me carradas de revistas da agência Abreu e eu brincava com a minha vizinha às agências de viagens. Hoje continuo a ter um gostinho especial por esse cargo de direcção turística familiar.

 

 

#60 ainda dá tempo

 

Produzi este vídeo há três anos atrás. Falei com todos os pais, tirei fotos aos filhos deles, bonitos.

 

Morei um ano em São Paulo e não tenho saudades do Brasil. É um país que não me encanta em demasiados aspectos. Mas, mesmo com todas as suas vicissitudes, há dias em que penso que, no Brasil, em Cuba ou em Portugal, três países que conheço bem, tudo poderia ser muito melhor se o grupo de pessoas que se senta nas cadeiras de pele lustrosa da governação gostassem tanto do país como os que neles votaram; se gostassem mais do país do que deles próprios, enquanto seres individualistas e dotados do mais profundo egoísmo.

 

Ainda assim, com mais de dois milhões de visualizações, são os vídeos de esperança que nós continuamos a preferir:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se o vídeo não abrir, aqui segue o link:

- https://vimeo.com/78245147 - 

 

#42 la guagua de la media noche

 

O autocarro amarelo norte-americano com as palavras “school bus” a preto, no visor dianteiro, percorria as estradas mal alcatroadas que ligam La Habana a San Antonio. De vidro aberto, eu fumava um cigarro do maço de hollywood vermelho que, em 2009, custava menos de um euro. A fazer-me companhia, um bicho preto, parecido com o louva-a-deus na sua forma mas menos inquieto.

 

Ao fim-de-semana gostava de ir à capital, só ia ficar uns meses em Cuba e Havana tem muito para viver. Nessas noites, nesses regressos de 30km, todos fumávamos, todos de auscultadores a ouvirmos salsa. Quase ninguém tinha saudades de casa, da música de casa, da comida de casa, da roupa de casa, do cheiro de casa. Cuba anestesiava-nos nessa quinta onde dormíamos e estudávamos cinema, onde dançávamos e comíamos, onde vivíamos tempos irrepetíveis.

 

A meio do caminho o motorista, de nome Fidel em homenagem a El Comandante, colocava água no autocarro e voltávamos a fazer-nos à estrada, agora com menos fumo e cheiro a queimado. Aos sábados à noite, nos regressos à quinta, quase todos trazíamos pacotes de papel higiénico na mochila, não fosse o stock acabar outra vez e a ilha ficar mais ilha e todos nós ficarmos ainda mais longe do que o que estávamos habituados.

 

Fidel parava a viatura na portagem, um segurança entrava e olhava-nos nos olhos, um a um, conhecia a cara de todos estes estrangeiros que povoavam a quinta, sabia os nomes, as nacionalidades e o dia exacto em que os tinha de enviar de volta para o seu país. Em Cuba sabe-se tudo. Na portagem, quem tinha adormecido acordava, guardávamos todos os auscultadores e dois minutos depois parávamos à porta da escola. Adiós Fidel. Adiós mi amor, hasta mañana. No bar, havia sempre alguém que nos aguardava com umas colunas, a música pronta e o rum servido. As meias noites dos sábados de 2009 na Escola de Cinema de San António de los Baños eram mágicas, vinte metros quadrados albergavam-nos a todos, como uma família de amigos que acordam e se deitam todos juntos todos os dias, durante um período de tempo estanque, que só a eles e a mim pertenceu.

 

O autocarro arrancava com o Fidel ao volante para um lugar que nunca descobri qual. O Fidel também morava em San Antonio, talvez na mesma quinta que eu. Lembro-me da cara dele, moreno, de olhos claros, com sorriso de avô e olhar de menino. É a primeira vez que falo do Fidel, é talvez a primeira vez que penso nele ao longo destes anos. Escrever sobre Cuba é assumir que passou, aceitar a utopia desse universo como encerrada, escrever sobre Cuba é fechar um capítulo, escrever sobre Cuba é, para mim, escrever sobre liberdade.

 

 

 

 

 

 

#31 polaroid

 

No dia em que percebi que todos os meus documentos de 2008 a 2013 tinham desaparecido para sempre, não chorei. Eram duas da tarde, enfiei-me debaixo dos lençóis e dormi.

Fiquei de ressaca desde essa quinta-feira até domingo, em silêncio, sem vontade de pronunciar frases inteiras e correr o risco de as perder também. 500 gigas de memória falsa, 5 anos passados quase a viver fora de Portugal, a viajar o mundo, a aprender, a conhecer pessoas das quais nem uma fotografia guardei. E assim ficaram as minhas memórias, quais polaroids instantâneas que se desfazem em três pela tesoura da cozinha e das quais ficas só com a parte desfocada, que não prova coisa alguma.