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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#134 fãs, quem sois vós

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Sigo, no instagram, uma boa quantidade de figuras ditas públicas. Mais de 90% são minhas colegas ou amigas, pessoas com quem me relaciono na vida não virtual. Todas elas são, como seria de esperar, seres humanos iguais aos outros em variadíssimos aspectos. Comem, dormem, dão puns, têm horários de intestinos, mau-humor, ressaca, mandam piadas secas de vez em quando. Têm constrangimentos, medos, inseguranças e ainda uma porrada de defeitos. Independentemente de tudo isto, proporcional ao número de likes no instagram, surgem as páginas de fãs. A mim já me criaram e desfizeram umas quantas, sem que eu soubesse ou desconfiasse quem assinaria a sua autoria. Uma vez, ainda, pediram-me autorização para fazer uma. Era um garoto, adolescente, simpático e educado. Disse-lhe que não podia dar ou deixar de dar autorização, mas que não era de todo algo com o qual me identificasse e que se ele pudesse não o fazer, que agradecia. E ele desejou-me sorte.

 

 

#132 adeus, misericórdia

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Do alto da escadas da Igreja de São Roque, dois jovens portugueses projectavam a voz enquanto falavam em inglês para um grupo de, pelo menos, quarenta e cinco pessoas. Vínhamos do Príncipe Real, eu e duas amigas. Quando dobrámos a esquina do Largo do Cauteleiro, como muita gente lhe chama, e vi estes dois rapazes a falarem para o público atento, disse-lhes, secretamente orgulhosa da minha área, que queria parar ali para assistir, que devia ser uma performance artística, tão bom. E parei, parámos. “And now we’re gonna drink in at least fifteen more bars and pubs, all night long.” Abri a boca e soltei um altíssimo: o quê?! Aquele grande grupo de estrangeiros, atento e ordenado, estava pronto, à meia noite, para iniciar uma viagem regada a álcool pela cidade, em comitiva, qual rebanho maciço. Não havia artisticidade nenhuma nisto. As minhas amigas riram-se da minha reacção que parecia exagerada. Eu, num misto de choque e tristeza, virei costas ao grupo e olhei o resto da rua da Misericórdia, ao fim de uns meses sem lá passar de noite, olhei com atenção, colada no mesmo quadrado de calçada portuguesa escorregadia.

 

 

#125 tráfico humano e escravidão sexual em 2017

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Eu tenho uma amiga chamada Christina. Começou por ser minha professora de improvisação e, na altura, não tínhamos uma química especial. No fim do curso em Nova Iorque, deu-me A+, o único A+ da minha pauta. Um ano depois, encontrei-a em Los Angeles e tornámo-nos amigas. Ela, na altura com quarenta e nove anos, parecia uma garota de vinte e cinco. As duas partilhámos uma história de tragédia pessoal, tornámo-nos confidentes e ainda hoje nos correspondemos. Filha da vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária Olympia Dukakis e do brilhante Louis Zorich, a Christina nunca teve a vida feita por ser filha de quem é. Ela é, aliás, um furacão e quem a conhece que o confirme.

 

#123 pedrógão grande, portugal

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O meu filho conhece um casal que foi de lua-de-mel para França e deixou o filhote com os tios, tinham ido para a praia fluvial, provavelmente viram o fumo e decidiram ir embora, se eles soubessem, o fogo nunca chegou à praia fluvial, coitados - disse-me o motorista do Uber que acabei de apanhar para vir pra casa, depois de ter entregue um saco cheio de ligaduras no quartel da Rua das Flores. A criança morreu? Sim, respondeu-me. E os tios também, morreram todos. Ficámos os dois emocionados, eu, trémula, repetia que ninguém recupera disso, ninguém recupera de tal tragédia. 

 

#121 o meu mito de santo antónio

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Foi há treze anos, a minha primeira noite de Santo António em Lisboa. Aceitei o convite de uma amiga, encontrei-me com ela no Campo das Cebolas e subi, subi, subi. Uma multidão inundava esta área da cidade que eu nunca havia visitado. Curvas loucas e piso que me fugia das sandálias rasas, pouco dinheiro na carteira, como estudante que era, medo de me perder das minhas amigas no meio de tanta gente. A minha vida longe de casa contava com apenas sete meses, oito no máximo, Lisboa ainda era estrangeiro para mim. As pessoas cantavam as músicas pimba com convicção, enquanto se apinhavam em quiosques de cerveja sagres durante vinte minutos para pedir um fino. E eu não percebia porquê.

 

 

#120 os acalorados

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Podia começar por dizer no meu tempo não era assim, mas estamos efectivamente no meu tempo, visto estar a falar-se de adultos aqui. O Frexting ( friends + texting ), pelos vistos, existe há uma porrada de tempo e eu não conhecia - mais de um ano, tendo em conta a efemeridade das tendências das redes sociais, é uma porrada de tempo.

 

 

#114 o salvador (sobral) de portugal

 

©Reuters

 

Pelo meio de tantas vidas normais, surge a voz de um jornalista da RTP a relatar o concurso da Eurovisão e a vibrar-lhe a voz cada vez que pronuncia: Salvador. Apaixonado pelo nome, pela pessoa, solta leves risadinhas nervosas quando a câmara aponta para o concorrente e este está de óculos e uma expressão cómica, concentrada e visivelmente inocente.

 

Salvador é o Salvador de Portugal, é a nossa essência de cauda da Europa, de país que não quer entrar em guerra, de nação virada para o mar. Nós, que só queremos abraços e amor e primavera e música bonita na nossa língua, melancolia e sorrisos ternos, abandonámos em conjunto e sintonia as nossas vidas normais para nos emocionarmos com o Salvador, irmão da Luísa. Demos as nossas mãos em filinha pirilau e chegámos juntos a Kiev, numa emoção limpa, sóbria, sem os gritos e as litrosas dos jogos da selecção nacional mas com igual contentamento genuíno. É isso que amamos em nós, às vezes pacóvios mas mais vezes genuínos. Salvador de Portugal é genuíno e é o homem mais amado do dia de hoje. 

 

Parabéns, rapaz. Hoje percebi o porquê de tanta efervescência.

 

#112 técnicas para uma relação passivo-agressiva

 

Quando escrevi sobre o José Mayer, que se tornou - de longe - a publicação mais lida no blog, recebi emails e mensagens de algumas pessoas que elogiavam a forma como eu tinha tornado simples entender determinados comportamentos, criando uma sensação de empatia através da apresentação de uma situação inversa. No caso, escrevi: "Já que gostas tanto do que está entre as pernas das mulheres e não te imagino com uma grande noção de limites, vamos imaginar então que é um homem a assediar-te, ou seja, alguém que à partida não queres de todo que te aborde sexualmente.".

 

É, muitas vezes, através da ironia, da comédia, da metáfora ou da comparação que se consegue identificar comportamentos violentos camuflados do dia-a-dia de pessoas sujeitas a determinados níveis de violência psicológica. Uns mais graves, outros mais leves, a verdade é que os episódios de violência psicológica retratados neste vídeo já aconteceram e acontecem em muitas, muitas relações. E é esse rácio que me assusta. Por falar em rácio, aqui está o texto que escrevi sobre o rácio. Mas antes, vale a pena ver este vídeo:

 

 

#96 a fobia da justificação

 

Eu sento-me no computador e ele, ao meu lado, olha distraído e de passagem. Algo o chama a atenção no ecrã, pergunta o que é, respondo. Depois começa a ler o que estou a escrever, inocente curiosidade de um amigo que também é marido e que sabe que não tenho nada a esconder. Conhece os meus desejos mais secretos e os nojos que mais me envergonhariam se alguma vez ditos em voz alta; sabe de mim e sobre mim o que nunca ninguém soube e, mesmo assim, contei-lhe nem metade das histórias que contei aos outros namorados, alguns em particular que pediam muito muito para saber de todas as histórias, todas as histórias. Com esses, um dia cansámo-nos e esse cansaço durou para sempre. Com este está tudo bonito e ainda não temos cansaços humanos. Não comenta nem condena. Eu olho para ele e digo-lhe para parar de ler as conversas. Ele diverte-se, muitas vezes, com o que lê e acha que não faz mal. Eu digo-lhe que faz, até porque as outras pessoas não estão a falar com ele mas comigo. E aí veste o respeito e afasta-se.

 

Na casa dos meus pais, o ecrã do computador está de frente para a porta do quarto que me pertence, o meu na casa deles. O meu pai entra, esquece-se que já passei dos trinta e entra como se eu fosse uma menina, batendo à porta a meio do caminho da entrada. Queres vir jantar uma francesinha? Ah, que interessante, o que é isso que estás a fazer no computador?

 

 

#95 a luxwoman perguntou-me umas coisas e eu respondi

 

Mas isso não me preparou para o impacto de abrir a página da LuxWoman e deparar-me com isto:

 

 

 

Mulheres com atitude e Helena Canhoto no mesmo sítio. Já ganhei o dia. :)

http://www.luxwoman.pt/helena-canhoto/

 

 

Obrigada LuxWOMAN, Carolina Almeida e Masemba pelo simpático convite!