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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#143 o pior dia do ano é quando o português quiser

 

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Enquanto deslizei pelas notícias e vi as imagens dos incêndios, fotografias, bolsas de fumo estáticas no cinzento que outrora fora ar, os meus olhos encheram-se de lágrimas. E escrevi: Portugal que arde. Eu que choro. O silêncio foi regra até me deitar na cama, não quis ouvir as vozes de quem perdeu tudo, novos protagonistas e a mesma história. Pergunta para Portugal: é possível perder tudo mais do que uma vez?

 

 

#141 o acto do amor (às vezes próprio)

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 MARCEL DUCHAMP

 

Com o tempo, aprendi a não gostar das pessoas. A vontade de aguentar a inocência largos passos após as desilusões foi superada pelo despertar pleno, como uma manhã de sol, em paz com a existência de pessoas más. Não quero, com isto, englobar-me nas boas. Sim, eu faço parte das pessoas bondosas mas essa revelação decidi guardar para esta frase. Assim, como quem gosta de Nirvana e muda de estação à segunda estrofe de Pearl Jam, nessa manhã sublime dos meus catorze anos, decidi que não podia gostar de toda a gente. E chorei. Lá se foi o sol.

 

 

#138 regresso às aulas

 

E assim termino este ano de merda, com um texto de igual falta de qualidade. Para desabafos desinteressantes e pouco construtivos, já temos os nossos gurus favoritos das prateleiras top de vendas das livrarias. E, hoje, eu.

 

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Caro 2017,

Venho por este meio colocar um ponto e vírgula neste ano desgraçado, pouco idiota e muito mal tratado por mim e pelo mundo. Decidi que, apesar de continuares a existir no calendário, esta segunda-feira começo um novo ano. O facto de, quase uma década depois, voltar a ser aluna, pouco tem a ver com este começo. Não é um regresso, caro 2017, é uma mudança. Envio-te, assim, às urtigas.

 

 

#136 seis semanas (ou quanto tempo leva o esquecimento)

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Seis semanas foi quanto demorei a ter vontade de voltar a escrever.

 

Seis semanas de férias do blogue, seis semanas a arruinarem as estatísticas que as marcas me pedem para fecharem parcerias.

 

Seis semanas foram o suficiente para a frase passar de Como está o teu blogue para Tu não tinhas um blogue?

 

Em seis semanas filmei um anúncio, gravei uma série do princípio ao fim, fui ao teatro, visitei a minha família nas suas férias algarvias, fui nomeada para dois prémios de melhor atriz e visitei o Porto Santo pela primeira vez. Em seis semanas dormi horas a fio e apanhei consideravelmente pouco sol. Li pouco, comi muito e pensei muito longe do suficiente. Tirei, creio, algumas conclusões.

 

#134 fãs, quem sois vós

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Sigo, no instagram, uma boa quantidade de figuras ditas públicas. Mais de 90% são minhas colegas ou amigas, pessoas com quem me relaciono na vida não virtual. Todas elas são, como seria de esperar, seres humanos iguais aos outros em variadíssimos aspectos. Comem, dormem, dão puns, têm horários de intestinos, mau-humor, ressaca, mandam piadas secas de vez em quando. Têm constrangimentos, medos, inseguranças e ainda uma porrada de defeitos. Independentemente de tudo isto, proporcional ao número de likes no instagram, surgem as páginas de fãs. A mim já me criaram e desfizeram umas quantas, sem que eu soubesse ou desconfiasse quem assinaria a sua autoria. Uma vez, ainda, pediram-me autorização para fazer uma. Era um garoto, adolescente, simpático e educado. Disse-lhe que não podia dar ou deixar de dar autorização, mas que não era de todo algo com o qual me identificasse e que se ele pudesse não o fazer, que agradecia. E ele desejou-me sorte.

 

 

#132 adeus, misericórdia

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Do alto da escadas da Igreja de São Roque, dois jovens portugueses projectavam a voz enquanto falavam em inglês para um grupo de, pelo menos, quarenta e cinco pessoas. Vínhamos do Príncipe Real, eu e duas amigas. Quando dobrámos a esquina do Largo do Cauteleiro, como muita gente lhe chama, e vi estes dois rapazes a falarem para o público atento, disse-lhes, secretamente orgulhosa da minha área, que queria parar ali para assistir, que devia ser uma performance artística, tão bom. E parei, parámos. “And now we’re gonna drink in at least fifteen more bars and pubs, all night long.” Abri a boca e soltei um altíssimo: o quê?! Aquele grande grupo de estrangeiros, atento e ordenado, estava pronto, à meia noite, para iniciar uma viagem regada a álcool pela cidade, em comitiva, qual rebanho maciço. Não havia artisticidade nenhuma nisto. As minhas amigas riram-se da minha reacção que parecia exagerada. Eu, num misto de choque e tristeza, virei costas ao grupo e olhei o resto da rua da Misericórdia, ao fim de uns meses sem lá passar de noite, olhei com atenção, colada no mesmo quadrado de calçada portuguesa escorregadia.

 

 

#125 tráfico humano e escravidão sexual em 2017

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Eu tenho uma amiga chamada Christina. Começou por ser minha professora de improvisação e, na altura, não tínhamos uma química especial. No fim do curso em Nova Iorque, deu-me A+, o único A+ da minha pauta. Um ano depois, encontrei-a em Los Angeles e tornámo-nos amigas. Ela, na altura com quarenta e nove anos, parecia uma garota de vinte e cinco. As duas partilhámos uma história de tragédia pessoal, tornámo-nos confidentes e ainda hoje nos correspondemos. Filha da vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária Olympia Dukakis e do brilhante Louis Zorich, a Christina nunca teve a vida feita por ser filha de quem é. Ela é, aliás, um furacão e quem a conhece que o confirme.

 

#123 pedrógão grande, portugal

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O meu filho conhece um casal que foi de lua-de-mel para França e deixou o filhote com os tios, tinham ido para a praia fluvial, provavelmente viram o fumo e decidiram ir embora, se eles soubessem, o fogo nunca chegou à praia fluvial, coitados - disse-me o motorista do Uber que acabei de apanhar para vir pra casa, depois de ter entregue um saco cheio de ligaduras no quartel da Rua das Flores. A criança morreu? Sim, respondeu-me. E os tios também, morreram todos. Ficámos os dois emocionados, eu, trémula, repetia que ninguém recupera disso, ninguém recupera de tal tragédia. 

 

#121 o meu mito de santo antónio

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Foi há treze anos, a minha primeira noite de Santo António em Lisboa. Aceitei o convite de uma amiga, encontrei-me com ela no Campo das Cebolas e subi, subi, subi. Uma multidão inundava esta área da cidade que eu nunca havia visitado. Curvas loucas e piso que me fugia das sandálias rasas, pouco dinheiro na carteira, como estudante que era, medo de me perder das minhas amigas no meio de tanta gente. A minha vida longe de casa contava com apenas sete meses, oito no máximo, Lisboa ainda era estrangeiro para mim. As pessoas cantavam as músicas pimba com convicção, enquanto se apinhavam em quiosques de cerveja sagres durante vinte minutos para pedir um fino. E eu não percebia porquê.

 

 

#120 os acalorados

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Podia começar por dizer no meu tempo não era assim, mas estamos efectivamente no meu tempo, visto estar a falar-se de adultos aqui. O Frexting ( friends + texting ), pelos vistos, existe há uma porrada de tempo e eu não conhecia - mais de um ano, tendo em conta a efemeridade das tendências das redes sociais, é uma porrada de tempo.