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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#104 cães, homossexuais e violadores

 

Cães e saquinhos.

 

Anos 80. De mão dada com a minha ama, caminhávamos para a minha escola primária de olhos postos no passeio e ela indignava-se com a falta de limpeza dos donos. Era normal nessa época, não havia ninguém com  saquinho de recolha. Eu entregava-lhe o argumento da vergonha, as pessoas iam ter vergonha. Ela explicava: se todas as pessoas que se cruzam connosco carregassem um saquinho com cocó, deixariam de ter vergonha, pois todas estariam a fazer a mesma coisa e isso tornar-se-ia normal, não achas? Só tens vergonha se fores a única e, aí sim, toda a gente olhará para ti. Nesse caminho percebi a importância do rácio - da percentagem, da proporcionalidade - na sociedade.

 

 

Gays e o não-armário

 

No liceu, ser homossexual era um assunto sussurrado, falado entre risinhos nervosos, com um constrangimento tal que parecia que andávamos todos a comer arroz malandro com pauzinhos chineses num jantar de gala.

Havia um colega da turma B, do meu ano, que era claramente gay, não assumido. Todos sabíamos, ninguém comentava. Mais tarde, já em 1999, lembro-me de uma colega da escola de música surgir de mão dada com uma rapariga da mesma idade. E todos a admirámos, como se dar a mão a uma rapariga fosse um statement - e era. E mais ninguém, não conhecia mais ninguém que, aparentemente, gostasse de pessoas do mesmo sexo. Eu, que andava no liceu, na escola de música, na dança, no teatro e na natação. Conhecia, portanto, muitas pessoas de lugares diferentes, fazia parte de grupos distintos. E em tantos anos, apenas estes dois casos existiam no meu universo pessoal. Assim, era difícil assumir-se a homossexualidade ou bissexualidade. Porque seria assumir uma diferença numa estatística cruel de 1 para, imagine-se, 2000. Que me lembre, poucos pais da altura levariam com leveza a possível homossexualidade de um filho ou filha. Porquê eles, se tantos, tantos, tantos outros, eram normais?

 

 

Violência e Opressores

 

Há já alguns anos que os temas da violência, do abuso psicológico e físico, começaram a surgir nas conversas com amigas. Todas a comerem o tal arroz malandro com pauzinhos, interessadas em ouvir e em desviar a conversa delas, das suas experiências pessoais. A desculpabilização para a cretinice dos violadores era quase obrigatória, num processo de negação interior, anterior ao processo de negação social. Ninguém quer assumir que os seus direitos, o seu espaço e a sua integridade foram violadas. Ninguém quer ser a vítima de violência doméstica, de manipulação, de tortura psicológica. Podemos ser vítimas de negligência médica, da banca ou de injustiças governamentais, mas não somos vítimas das nossas mulheres ou maridos, que isso não se conta, isso é de se guardar por casa. De janelas fechadas. Nem nunca nos envolvemos numa relação sexual abusiva da qual perdemos o controlo, mas conhecemos pelo menos vinte amigas a quem isso aconteceu. E quase todas tivemos relações amorosas desrespeitosas e violentas, mas é mais fácil dizer que eram apenas conflituosas e estúpidas, ninguém percebe como é que ficaram juntos tanto tempo. Por causa do rácio. Ninguém quer estar do lado negro do rácio.

 

 

 

 

O rácio de tudo isto

 

O rácio - a relação, geralmente expressa em percentagem, entre duas grandezas - não falha, é matemática. Enquanto dependemos dele para a aceitação social das nossas vicissitudes, pomo-lo no canto da sombra da sala com orelhas de burro. Fechamos a porta e deixamo-lo lá, com a verdade.

 

Quase três décadas depois da minha ama me explicar o mundo de uma forma tão simples, as pessoas passeiam os cães com um saquinho de plástico na mão e ai de quem não o faça.

 

Quase duas décadas depois da minha amiga surgir de mão dada com a namorada, eu deixei de ter dedos para contar os meus amigos e amigas gay e bissexuais porque são, à vontade, metade do meu universo de amizade. E já o eram na altura da escola, foi a percentagem real, e não eles, quem saiu do armário. E a normalidade veio com ela.

 

Ontem, em conversa com uma amiga, disse-lhe que quase todas as mulheres da minha vida já me confidenciaram terem sido vítimas de alguma destas situações. Em surdina, longe de ouvidos alheios. Acredito que quase todas acham que são uma excepção e que passariam por todos os constrangimentos e vergonhas do único gay da escola e da única portadora de um saquinho de cocó.

 

Eu gostava de lhes dizer num megafone que o rácio delas, e também meu, está escondido algures para belo proveito da identidade de quem manipula, viola e magoa, mas que o havemos de encontrar, pois este resultado está a parecer-me perigosamente mais próximo da totalidade do que da excepção. E, talvez, quando souberem que passámos quase todas por algo assim e que os homens também sofrem do mesmo, possamos ser todos um pouco mais amigos e menos tolerantes com o desrespeito e aí, talvez, possamos andar todos de saquinho de plástico na rua.

 

 

 

#98 make sure your tray table is in its full upright position and that your seat belt is correctly fastened.

 

Enquanto esperava pela raspadinha, o passageiro do 30F batia com as moedas umas nas outras, sem ritmo coincidente com o metrónomo que me implantaram no cérebro aos oito anos de idade, quando entrei na escola de música. Essa pequena dissonância feita do ruído do estanho fez-me encolher os ombros e baixar a cabeça, forçando a cervical no sentido do aconchego em mim própria. A ortopedista disse que o desgaste das minhas vértebras na cervical eram obra do stress, eu acho que também é obra do ser humano aleatório que me rodeia em espaços confinados como aviões e salas de espera.

 

Nos 28A e B, os netos gritam de excitação antes do avião descolar e a avó, no 28C responde-lhes no mesmíssimo volume, mas com uma voz calma. Está satisfeita por viajar com os netos, é uma avó nova - não vou supor que oiça mal - bem arrumada, nada incomodada com o volume do manifesto do entusiasmo. Eu, no 30A, não posso dizer o mesmo. 

 

Duas raparigas falam de trivialidades em cirílico ou algo que se assemelha a uma língua de europa de leste. Ninguém falaria de forma tão displicente e descomprometida se fosse sobre algo importante. Alto, falam alto sem que perceba a razão para tal. Começo a pensar em inglês: could you low down your volume? Não, não se diz assim. Será: could you lower your voice? Baixa-se a voz ou baixa-se o volume da voz? Decidi colocar os dedos na orelhas e, antes de me cansarem as mãos, cansaram-se elas das imaginadas trivialidades.

 

Vinte minutos de voo e a tripulação anuncia finalmente o grande sorteio das raspadinhas ryanair. Eu, que faço frequentemente este voo Porto-Lisboa, tenho a sorte incrível de apanhar a promoção especial "só hoje e neste voo: duas raspadinhas pelo preço de uma". Eu e os outros cem tugas que me acompanham neste voo Porto-Lisboa, que nada mais é do que um autocarro aéreo a dez euros a viagem. Qualquer dia conhecemos os nomes dos assistentes de bordo e pedimos uma bica pro 18C, tal o hábito.

 

Trinta minutos e corre tudo para a aterragem. Lisboa ao fundo, caras coladas às janelas embaciadas que desvendam os corações desenhados em outros voos, a minha cervical a querer cama e almofadas e, de repente, reparo que o senhor piloto se lembrou de começar a aterrar só lá pros lados de alvalade. Pum. Zas zas pum. Aterrámos todos e tudo menos em segurança, cabecinhas a baterem no assento da frente. Ouve-se a musiquinha da felicidade por termos chegado no horário previsto e, pelo menos, 5 resistentes batem palmas com amor. Nunca perceberei quem bate palmas depois de uma aterragem violenta. Ou numa aterragem qualquer. Só o Funchal merece.

 

Vou ficar de pé, como as outras pessoas, nesta fila idiota, à espera que me deixem sair da aeronave em direcção ao mundo real.

Welcome to Lisbon.