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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#98 make sure your tray table is in its full upright position and that your seat belt is correctly fastened.

 

Enquanto esperava pela raspadinha, o passageiro do 30F batia com as moedas umas nas outras, sem ritmo coincidente com o metrónomo que me implantaram no cérebro aos oito anos de idade, quando entrei na escola de música. Essa pequena dissonância feita do ruído do estanho fez-me encolher os ombros e baixar a cabeça, forçando a cervical no sentido do aconchego em mim própria. A ortopedista disse que o desgaste das minhas vértebras na cervical eram obra do stress, eu acho que também é obra do ser humano aleatório que me rodeia em espaços confinados como aviões e salas de espera.

 

Nos 28A e B, os netos gritam de excitação antes do avião descolar e a avó, no 28C responde-lhes no mesmíssimo volume, mas com uma voz calma. Está satisfeita por viajar com os netos, é uma avó nova - não vou supor que oiça mal - bem arrumada, nada incomodada com o volume do manifesto do entusiasmo. Eu, no 30A, não posso dizer o mesmo. 

 

Duas raparigas falam de trivialidades em cirílico ou algo que se assemelha a uma língua de europa de leste. Ninguém falaria de forma tão displicente e descomprometida se fosse sobre algo importante. Alto, falam alto sem que perceba a razão para tal. Começo a pensar em inglês: could you low down your volume? Não, não se diz assim. Será: could you lower your voice? Baixa-se a voz ou baixa-se o volume da voz? Decidi colocar os dedos na orelhas e, antes de me cansarem as mãos, cansaram-se elas das imaginadas trivialidades.

 

Vinte minutos de voo e a tripulação anuncia finalmente o grande sorteio das raspadinhas ryanair. Eu, que faço frequentemente este voo Porto-Lisboa, tenho a sorte incrível de apanhar a promoção especial "só hoje e neste voo: duas raspadinhas pelo preço de uma". Eu e os outros cem tugas que me acompanham neste voo Porto-Lisboa, que nada mais é do que um autocarro aéreo a dez euros a viagem. Qualquer dia conhecemos os nomes dos assistentes de bordo e pedimos uma bica pro 18C, tal o hábito.

 

Trinta minutos e corre tudo para a aterragem. Lisboa ao fundo, caras coladas às janelas embaciadas que desvendam os corações desenhados em outros voos, a minha cervical a querer cama e almofadas e, de repente, reparo que o senhor piloto se lembrou de começar a aterrar só lá pros lados de alvalade. Pum. Zas zas pum. Aterrámos todos e tudo menos em segurança, cabecinhas a baterem no assento da frente. Ouve-se a musiquinha da felicidade por termos chegado no horário previsto e, pelo menos, 5 resistentes batem palmas com amor. Nunca perceberei quem bate palmas depois de uma aterragem violenta. Ou numa aterragem qualquer. Só o Funchal merece.

 

Vou ficar de pé, como as outras pessoas, nesta fila idiota, à espera que me deixem sair da aeronave em direcção ao mundo real.

Welcome to Lisbon.

 

 

#97 dia pessoal do teatro

 

Não é falta de interesse meu pelo teatro, não. É um amor a resolver, este entre mim e o teatro, uma tesão adiada que vamos ter de concretizar - e guardo no peito a esperança que daí comecemos a namorar para o resto da vida. 

 

 

No outro dia, fui assistir a “Encontrar o Sol” - de Edward Albee, com encenação de Ricardo Neves-Neves - no São Luiz. No fim, os actores conversavam com o público e uma senhora, às tantas, decide expor que considera que nós, actores, artistas, nos queixamos muito - que ela teve uma empresa que quase foi à falência durante a crise e ela pôs mãos à obra e construiu tudo do zero, de novo, com sucesso. Queixamo-nos muito e devíamos era fazer e, já agora, devia haver mais sessões porque realmente assim é difícil, a sala está quase sempre esgotada. Minha senhora, se estiver a ler isto, saiba que nesse momento senti vontade de saltar da cadeira e lhe espetar duas chapadas bem dadas. Mas a Cucha Cavalheiro foi muito mais inteligente do que eu e respondeu apenas o que eu pensei: Nós estamos a fazer, isto é fazer. Num segundo, passam pela memória todas as produções que fiz a custo de nada, equipas e equipas de pessoas com altos níveis académicos a fazer apenas para que isto não morra, para que arte continue, para que a expressão artística exista independentemente das piores crises económicas, para que uma crise económica não resulte sempre numa matança cultural. 

 

A primeira vez que interpretei uma personagem foi num grupo de teatro amador, há já 18 anos. A última vez que fiz teatro foi em 2013 e ainda não recebi os meus honorários. Teatro, teatro, fazes parte de mim.

 

O que dizer no dia mundial do teatro quando só me apetece falar de cinema, dos prémios sophia, dos júris do ica, de tudo o que se anda a passar nesta área em portugal? É mais fácil falar do que sei, ou do que conheço, pelo menos, um pouco.

  

A cerimónia dos Prémios Sophia foi seguida de um after-party que não era de todo uma festa, mas sim um encontro entre convidados e que permitiu falar sobre assuntos importantes da nossa área. Muitos saíram desiludidos com a falta de strobs e de DJs à altura. Confesso que um pouquinho mais de bebida e comida não fariam mal ao nosso povo, mas a maior satisfação que aquilo me deu foi ver que havia um objectivo de encontro para se conversar, para se debater num espaço próprio (ao invés de o fazer na plateia durante a cerimónia) e que esse objectivo, pelo menos por alguns, estava a ser concretizado. 

 

Perco-me no meu raciocínio ao falar de teatro ou de cinema, perco-me ao falar de interpretação, da importância do objecto artístico. É como se tivesse que resumir todos os meus sentimentos sobre a vida e considerações sobre o mundo num parágrafo e quando conseguir fazer isso, bom, talvez já tenha escalado o everest e visitado os monges tibetanos e tenha encontrado o nirvana, algures, perdido nos meus neurónios. Perco-me na definição de teatro, de cinema, de arte, de actor da mesma forma que me quero perder na definição de amor.

 

©Joanna Correia