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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#125 tráfico humano e escravidão sexual em 2017

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Eu tenho uma amiga chamada Christina. Começou por ser minha professora de improvisação e, na altura, não tínhamos uma química especial. No fim do curso em Nova Iorque, deu-me A+, o único A+ da minha pauta. Um ano depois, encontrei-a em Los Angeles e tornámo-nos amigas. Ela, na altura com quarenta e nove anos, parecia uma garota de vinte e cinco. As duas partilhámos uma história de tragédia pessoal, tornámo-nos confidentes e ainda hoje nos correspondemos. Filha da vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária Olympia Dukakis e do brilhante Louis Zorich, a Christina nunca teve a vida feita por ser filha de quem é. Ela é, aliás, um furacão e quem a conhece que o confirme.

 

#66 aquela conversa desagradável sobre cosméticos

 

Contexto: 

Quando terminei o meu curso na faculdade, há uns quantos e bons anos, vivi momentos de muita ansiedade. A crise económica tinha chegado nesse ano e todas as fantásticas perspectivas (e até promessas) de trabalho foram por água abaixo com os pânicos gerais que se criam nessas situações e os despedimentos em massa que aconteceram em 2008. Surgiu aí o hábito de contratar estagiários sem lhes pagar, durante três meses (os chamados estágios curriculares) e assim se foram mantendo abertas as empresas e baixando o nível da qualidade de tudo o que se fez durante um bom período, ou mau período, em Portugal. Foi como uma onda, num mar aparentemente calmo. A água pelo joelho, olho para a areia pelo ombro e quando enfrento o horizonte de novo, já estou a ser levada e enrolada, no meio de espuma e mais espuma, tento respirar quando ela passa mas logo vem outra e outra e outra até deixar de as contar. Por dois ou três meses, foi assim que me senti. Depois entrei numa pós-graduação em Cuba e a minha vida mudou para sempre. E para melhor. 

Nesses meses, tive a minha primeira queda de cabelo. Vivia em Benfica, numa casa que não gostava, num turbilhão de mudança, numa insegurança (literalmente, a rua era perigosa) e inconstância tremendas. Tomava banho, agarrava mechas inteiras que me escorregavam por entre os dedos e chorava. Passou. E passaram os anos.

Depois, ele morreu. Não interessa, não vou afundar-me na tragédia da morte de quem nos é próximo. Interessa o choque, o luto, o corpo reagir por todas as lágrimas que, forte, não deitava. Que disparate, como se não chorar fosse sinal de força. E o cabelo caía até ter chegado a 2013 com um pequeno rabo de cavalo, fininho, diferente do cabelo brilhante, robusto e vigoroso que me caracterizava.

 

 

 

#14 the amelia project

 

Eu não estou a viver no aeroporto para salvar o Nyan, mas vim dar a minha contribuição.

 

 

Nyan é a representação de milhares de crianças que morrem anualmente de cancro no Myanmar, um país paupérrimo com 50 milhões de habitantes e apenas um hospital pediátrico capaz de receber estas crianças.

 

Leiam mais aqui, mas leiam mesmo, porque é quase inacreditável (e nós, eu e quem me estiver a ler, podemos ajudar!).

http://www.theameliaproject.eu

 

Quando o meu colega Luís Eusébio me disse que ia passar 24 horas no aeroporto e me explicou do que se tratava, em minutos reajustei a agenda toda e fui visitá-lo, conhecer o Fernando Pinho e fazer parte da mudança. Mostraram-me imagens e contaram-me as histórias. Pelo contexto, contei-lhes como eram os hospitais em cuba, os não turísticos - uma casa-de-banho para todos, cães moribundos a percorrerem a ala da maternidade, pareos a servirem de divisórias entre salas de observação, agulhas não esterilizadas, algodão sujo a ser reutilizado. E eu, que vivi lá e estive lá hospitalizada à custa de umas dorzitas, multipliquei a falta de condições e sensação de medo por mil e juntei-lhe a impotência da falta de alternativa. 

 

Eles agradeceram muitas vezes e ainda não compreendi porquê. Eu é que tenho de agradecer por ter uma vida boa e poder ajudar os outros. Por me ser possível, com menos do que o preço do voo Lisboa-Porto, salvar uma vida. E isso é brutal.