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MILIUMA

insónias | ideias | publicações

MILIUMA

#97 dia pessoal do teatro

 

Não é falta de interesse meu pelo teatro, não. É um amor a resolver, este entre mim e o teatro, uma tesão adiada que vamos ter de concretizar - e guardo no peito a esperança que daí comecemos a namorar para o resto da vida. 

 

 

No outro dia, fui assistir a “Encontrar o Sol” - de Edward Albee, com encenação de Ricardo Neves-Neves - no São Luiz. No fim, os actores conversavam com o público e uma senhora, às tantas, decide expor que considera que nós, actores, artistas, nos queixamos muito - que ela teve uma empresa que quase foi à falência durante a crise e ela pôs mãos à obra e construiu tudo do zero, de novo, com sucesso. Queixamo-nos muito e devíamos era fazer e, já agora, devia haver mais sessões porque realmente assim é difícil, a sala está quase sempre esgotada. Minha senhora, se estiver a ler isto, saiba que nesse momento senti vontade de saltar da cadeira e lhe espetar duas chapadas bem dadas. Mas a Cucha Cavalheiro foi muito mais inteligente do que eu e respondeu apenas o que eu pensei: Nós estamos a fazer, isto é fazer. Num segundo, passam pela memória todas as produções que fiz a custo de nada, equipas e equipas de pessoas com altos níveis académicos a fazer apenas para que isto não morra, para que arte continue, para que a expressão artística exista independentemente das piores crises económicas, para que uma crise económica não resulte sempre numa matança cultural. 

 

A primeira vez que interpretei uma personagem foi num grupo de teatro amador, há já 18 anos. A última vez que fiz teatro foi em 2013 e ainda não recebi os meus honorários. Teatro, teatro, fazes parte de mim.

 

O que dizer no dia mundial do teatro quando só me apetece falar de cinema, dos prémios sophia, dos júris do ica, de tudo o que se anda a passar nesta área em portugal? É mais fácil falar do que sei, ou do que conheço, pelo menos, um pouco.

  

A cerimónia dos Prémios Sophia foi seguida de um after-party que não era de todo uma festa, mas sim um encontro entre convidados e que permitiu falar sobre assuntos importantes da nossa área. Muitos saíram desiludidos com a falta de strobs e de DJs à altura. Confesso que um pouquinho mais de bebida e comida não fariam mal ao nosso povo, mas a maior satisfação que aquilo me deu foi ver que havia um objectivo de encontro para se conversar, para se debater num espaço próprio (ao invés de o fazer na plateia durante a cerimónia) e que esse objectivo, pelo menos por alguns, estava a ser concretizado. 

 

Perco-me no meu raciocínio ao falar de teatro ou de cinema, perco-me ao falar de interpretação, da importância do objecto artístico. É como se tivesse que resumir todos os meus sentimentos sobre a vida e considerações sobre o mundo num parágrafo e quando conseguir fazer isso, bom, talvez já tenha escalado o everest e visitado os monges tibetanos e tenha encontrado o nirvana, algures, perdido nos meus neurónios. Perco-me na definição de teatro, de cinema, de arte, de actor da mesma forma que me quero perder na definição de amor.

 

©Joanna Correia

#95 a luxwoman perguntou-me umas coisas e eu respondi

 

Mas isso não me preparou para o impacto de abrir a página da LuxWoman e deparar-me com isto:

 

 

 

Mulheres com atitude e Helena Canhoto no mesmo sítio. Já ganhei o dia. :)

http://www.luxwoman.pt/helena-canhoto/

 

 

Obrigada LuxWOMAN, Carolina Almeida e Masemba pelo simpático convite!

#92 desculpa lá, quanto é que ganhas mesmo?

 

Uma vez por ano lá acontece. Menos de 10 euros na conta. Não dá para levantar. Não serve, virtualmente, para nada. É aquele troco que as casas de câmbio não aceitam, aquele arredondamento fofinho com o qual ninguém, nem eu, se costuma importar.

 

Claro, a bateria do carro avaria, ficamos na reserva antes sequer de sair da rua, o Vimeo para profissionais pede o valor de subscrição, os sites, as anuidades que ameaçam: vamos apagar todos os teus dados e mais um par de calças se não pagas hoje!

 

O tempo melhora drasticamente, de um dia de Inverno para o primeiro dia de Verão do ano e tu lembras-te que tens de comprar sandálias porque já ferves das patas e não tarda não tens o que calçar. Tu não, eu, eu estou a falar de mim, bolas. Lá irei, mais próxima fisicamente do poder económico do cartão multibanco da minha mãe, à procura de umas chanclas que me permitam arejar, estar bonita e não escorregar pela calçada portuguesa fora, que o Chiado com tantos turistas fica com a calçada mais polida que o chão do Palácio da Bolsa. Mas não é agora, não, que eu agora tenho exatamente €9,48 na conta.

 

 

Se eu dissesse este texto em voz alta, em tom de monólogo improvisado à frente de uma boa quantidade de gente, conseguiria ver o ar de constrangimento a apoderar-se dos seus olhares. Falar de dinheiro é pecado. É pouca vergonha. Coisa feia. Não se diz, Helena. Nem se pergunta. Não se discutem salários, não se conta como se pagam as viagens às Polinésias por aí espalhadas, não se fala, em nenhuma circunstância, do desconto para comprar a mala da Prada que repetimos há 17 anos nos casamentos da família. Que feio, o dinheiro - diriam.

 

O meu é bonito - exclamaria, se de um monólogo se tratasse, então. O meu dinheiro veio só de sítios bonitos, do amor dos pais que lutaram por ele, veio da minha cabecinha que se põe a trabalhar e a inventar trabalho quando ele não há, vem das minhas personagens, vem do meu amor pelo que faço, o meu dinheiro vem de amor. O meu dinheiro vem é amor. Enquanto o amor não é finito, o dinheiro é. Mas é bonito na mesma. E aquele que virá amanhã também. Bondoso, despudorado e honesto. Como a dona.

 

 

#90 maria helena vieira da silva

 

Uma amiga liga-me a dar os parabéns. Pessoal, é hoje o meu episódio do Ministério do Tempo. Rebobinámos na box e assistimos, os quatro, à magia moderna de me ver a interpretar a Maria Helena Vieira da Silva numa placa de LEDs luminosos. Para eles, esteve bem e passou num instante. Boa, miúda. Para mim, não foi bem assim.

 

Enquanto passamos pelos vossos televisores como hologramas, apropriamos palavras que vós, espectadores atentos, acreditam desaparecer connosco quando desligam o botão e vão dormir. ( os espectadores desatentos não escutam essas palavras, ouvem manchas sonoras que fazem companhia nos fins de dia, nada contra, acho enternecedor pensar que a minha voz pode fazer parte dessa tecelagem humana.)

 

Escrevo aos espectadores atentos, os que imaginam como será a nossa vida de ler textos, ensaios, talentos naturais a debitar as palavras das personagens que parece que têm sempre tanto a ver connosco. Escrevo para lhes dizer que em cada episódio há dias e dias de trabalho, de doze horas diárias em estúdios, de acordar de madrugada e chegar a noite a casa, de receber textos à última da hora de cenas que ainda estão longe de acontecer e que estão descontextualizadas daquilo que já conhecemos da personagem, textos com palavras que não foram escritas nem pensadas por nós mas, tantas vezes, por pessoas que nunca conhecemos na vida. Com as tais palavras que se tornam nossas. Para lhes lembrar que chegamos a casa e também gostamos de fazer sopa para o jantar, dar um beijo a alguém, tomar um banho, fazer algo de diferente, mas há textos para estudar e de repente já só faltam outra vez cinco horas para acordar e ter a cara mais lavadinha do mundo em frente a lentes e câmaras que nos engordam e disformam para duas dimensões, favorecendo uns e acabando com a auto-estima de muitos, muitos mais.

 

Eu, eu não tenho razão de queixa. Quanto mais trabalho mais gosto do que faço, interpretar é uma fonte infinita de felicidade. Contudo, espectadores atentos, expectantes e especuladores, as palavras não desaparecem quando o televisor desliga. Podem desligar todos os televisores do mundo e destruir todas as boxes e gravadores existentes que o nosso cérebro guarda as palavras, uma a uma, e bebe as personagens e aglutina-as em nós, qual Pessoa, qual Álvaro de Campos. As palavras não vão embora porque nós também não vamos embora e, enquanto se cruzam com os nossos hologramas televisivos, os espectadores atentos e desatentos estão, apenas e na verdade, a ver-nos a crescer. 

 

 

#87 vamos lá ter um emprego como deve ser

 

Já não é a primeira vez que Candela Peña pede trabalho em público, à comunicação ou em entregas de prémios, sem qualquer pudor. Não tenho como não empatizar com a sua causa. Desta vez, foi na passadeira vermelha dos Goya, que, quando abordada pelos jornalistas, soltou: «Pues muy bien, que me den trabajo, porque llevo meses sin rodar y tengo que pagar la luz y las facturas.»

 

O documentarista Paulo Carneiro chamou-me à atenção para este artigo, que menciona Candela Peña e descreve brevemente a precariedade na área do cinema. Passei para os comentários que, como é habitual - e, pelos vistos, não são só um cancro das publicações portuguesas - são tremendos. Um tipo dizia-lhe que arranjasse um trabalho normal, de gente normal.  E outra: Que vá lavar escadas, como as outras pessoas.

 

Vamos lá ver: o que é ter um trabalho normal? Como gente normal? É ter um trabalho não-qualificado? Não pode ser um trabalho qualquer, como médico, advogado ou professor, com certeza. Porque para esses também é preciso um curso superior, colocações - e eles também correm o risco de se queixarem, atenção. Um trabalho normal é lavar escadas, servir a mesas de restaurantes de segunda que não peçam curso de hotelaria, reposição em armazéns e supermercados, ser funcionária da caixa registadora, empregada doméstica? É isso, não é? Porque fora desses trabalhos, bom, somos todos uns queixinhas exigentes. Trabalho artístico? Isso é para mandriões! Vão trabalhar, chupistas!

 

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#68 sistema start-stop

 

No dia 24 de Setembro falei sobre recomeços e mudanças. Tinha terminado de gravar "A Impostora" e "Mulheres Assim" havia pouco tempo. Tudo acontece assim, de um dia para o outro. Antes de conseguir perceber que nova fase era esta que eu antecipava, fui dar corpo a mais uma personagem. Desta ainda não posso falar, posso apenas dizer que já terminou e que apesar de muito muito pequenina, me deu um extremo gozo interpretá-la (não me é comum interpretar personagens históricas e é uma delícia!).

 

 

 

#59 ser actriz - parte 1 de muitas

 

 

É ser manager e produtora musical numa segunda-feira, com os hábitos de quem é líder e domina a área e é emancipada;

É fazer um casting de bikini na terça-feira, mesmo estando na fase em que não gosta do que vê ao espelho e não se identifica com o corpo, mas há a possibilidade de mostrarem as costas e um gel de banho e portanto não se pode passar sem mostrar como está a musculatura lombar;

É ter cinco filhos numa quarta-feira e gravar até de manhã;

É dormir pouco e ser uma bailarina a uma quinta de manhã, problemática, misteriosa, confusa, dorida;

É ter outro filho na sexta, lindo e simpático, e lançar confetis até não aguentar mais as cores coladas na transpiração das mãos, gravar com roupa de inverno sob o sol tórrido de agosto;

É, no meio de tudo isto, ter páginas e páginas e páginas de texto para decorar, sublinhar, trabalhar, adaptar. É decidir as intenções de cada frase, fazer opções para as personagens, criar-lhes identidade, personalidade, um quê de especial. É tentar dormir e ter o cérebro a mil, é estar nervosa a cada take porque se tem de fazer tudo em um ou dois ou, no máximo, três e ficar com a sensação constante que podia ter sido muito melhor. É acordar às 5h30 da manhã para estar às 7h no transporte e às 8h no estúdio. É chegar a casa às 20h e no dia seguinte ter que acordar outra vez às 5h30 da manhã.

 

Ser actriz é fazer xixi às 5h35 com um sorriso ensonado, feliz e cheia de adrenalina porque, até ao resto da vida, de um dia para o outro, tudo isto pode acabar.

 

Ser actriz é não ter férias, nunca se deixa de ser actriz.

Ser actriz é ser desacomodada, é não ter limites no sonho, é querer saber mais e sentir que se sabe pouco, é ser generosa, oh, como é bom cruzarmo-nos com actrizes generosas.

Ser actriz é sentir-se actriz, é saber viver na indefinição do nome da profissão e saber-se actriz porque não é preciso que chamem a actriz de actriz para ela saber quando é actriz.

Ser actriz é ser actriz com c ou sem c, não faz mal.

Ser actriz é ser inconveniente, olhar os demais no metro, estudar-lhes os movimentos, decorar vozes, imitar em segredo. É olhar o espelho e fazer caretas, conhecer cada deformação da nossa boca. É ser insegura. Ou ser segura. Ser actriz pode ser um milhão de coisas diferentes, todas actrizes diferentes, todas actrizes em si, todas atrizes em si.

 

 

#49 o meu post dava uma reportagem - errata RTP

 

Alguns dizem "a minha vida dava um livro". Hoje digo "o meu post dava uma reportagem". E deu! Aqui.

Não consigo, contudo, completar a sensação de dever cumprido se não clarificar este assunto:

 

A RTP contactou-me para fazer uma reportagem depois de terem lido o meu post no blog. O tema interessou-os e ainda bem. Fui entrevistada na qualidade de blogger, falei sobre o Miliuma, os meus objectivos com o blog, o post em si, dei as minhas dicas sobre o assunto das burlas nos arrendamentos. Tenho respeito e carinho pela jornalista que fez a reportagem e já a informei da minha sincera opinião sobre a reportagem, opinião que ela compreende. Fui informada pela mesma que a peça foi cortada para caber no Telejornal e que, nessa edição final, tinham retirado todas essas partes. E cortar é um acto de sensibilidade. Rapidamente, passei a ser a Helena que está à procura de casa. E não é bem assim.

 

Quero, assim, elucidar-vos: não estou à procura de casa para ir morar com o meu namorado, eu vivo actualmente com o meu companheiro, procuro casa há muito tempo e continuarei a procurar durante uns anos, até encontrar "o" lugar. Não fui vítima de burla de arrendamentos e a única razão pela qual fui entrevistada é porque o meu post deu origem à reportagem, ainda que isso não tenha aparecido no corte final. Lamento que o mesmo não tenha sido identificado, nem o meu sobrenome, nem eu como autora. Fica aqui, para quem ler. E ficam os conselhos e o alerta, que no meio de tudo isto, é o mais importante.

 

Obrigada.

 

#30 chegou o calor

 

Começo a segunda com esta sensação de que é quinta, cinco da tarde, e ainda falta tanto para fazer e tenho tao pouco tempo até ao fim de semana, em que quase me obrigo a não trabalhar, em que exerço o poder de ser patroa de mim própria e me mando para casa, vai helena, está na altura de descansares. E eu, que divido o cargo de gerência com o de faz-tudo lá do sítio, vou para casa, transportando-me da mesa para a chaise longue do sofá, onde não dá jeito nenhum usar o computador, e passo dois dias a alternar entre trabalhar um bocadinho às escondidas e fingir que descanso enquanto penso em todas as coisas que ainda tenho para fazer, que aposto que esta segunda-feira vai começar e me vai parecer que é quinta. Durmo até mais tarde na segunda porque posso, não porque tenha sono, afinal passei o domingo na chaise-longue, mas porque tem de haver alguma vantagem nisto de trabalhar por conta-própria. Por falar em trabalhar por conta-própria, hoje foi diferente, hoje acordei a pensar no IRS. Vivam as segundas-feiras, viva Maio, viva o dia do trabalhador!

 

© Fabrice Pinto

 

O texto poderia acabar assim, com a aparente amargura do início da semana. Trata-se exactamente do oposto. Os dias correm, o IRS faz-se, o dinheiro esgota-se e o sorriso continua, enquanto houver esta luz de fim de quinta-feira na Avenida a iluminar-me. Obrigada Sr Fotógrafo, bela cápsula de memória.

 

 

#8 vícios para uma família feliz

 

Voltei definitivamente de São Paulo, instalei-me em Lisboa e liguei ao Tiago. E se fizéssemos alguma coisa os dois? Tu escreves, eu interpreto, já está. OK. Ainda bem, vou ligar a um amigo meu que de certeza que também vai gostar da ideia. O Eurico gostou da ideia. Ganhámos o concurso para ficar na sala 3 do Teatro Rápido, no Chiado. Entre o telefonema e a estreia passaram-se uns singelos dois meses.

 

Tivémos uma estreia fantástica aos olhos de todos, o que não costuma ser grande agoiro na prática teatral. Eu, arrasada por um drama pessoal que se me caíra no colo quatro minutos antes da entrada em cena, fiz a peça com a maior adrenalina de todo o mês. Usa isso, disse o Tiago. E diz-se muito, usa isso a teu favor. Hoje estou profundamente grata por esse infortúnio. Mudou todo o curso da minha história, para melhor. Usei isso para estreia e para a vida.

 

Dois anos depois, ainda à espera de sermos pagos pelo Teatro Rápido/Encena/Alexandre Gonçalves, decidimos investir outra vez o nosso tempo sem expectativa de retorno. No sábado em que gravámos "Vícios Para Uma Família Feliz" - o filme - senti a adrenalina fluir e arrepiar-me o pescoço, numa felicidade pura pelo que estávamos a fazer, num prazer genuíno em conhecer todas aquelas pessoas que quiseram amar este filme connosco. Foi um dia de amor. Acabámos a comer migas do pingo doce e a beber minis da bomba de gasolina mais próxima. 

 

Março de 2016, o filme é exportado e as lágrimas sobem. Sem ainda ter tido um dia para apresentá-lo à equipa, já recebi duas boas notícias: Short Film Corner do Festival de Cannes, Selecção Oficial do Madeira Film Festival.

 

Um dia perguntaram-me: e se não houvesse dinheiro no planeta e pudesses fazer qualquer coisa, o que farias ou o que serias?

Actriz.

 

imagem de cima © Alípio Padilha // imagem de baixo © Miguel Sales Lopes