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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#79 el comandante

 

A minha terapeuta perguntou-me como é que eu me estava a sentir por causa da morte do Fidel. Fico contente que alguém tenha perguntado. Estou bem, obrigada.

 

O meu Fidel, o motorista que provavelmente já nem se lembra de mim, deve estar confuso com a morte do El Comandante. Ele, o meu taxista, a minha amiga B., a bela Y. que está no Canadá e ainda o N. que está na Colômbia. Todos cubanos, uns de nascença e outros por casamento, e todos meus amigos, sentem uma dicotomia grande relativamente à morte do líder da revolução. Nenhum, naturalmente, festeja.

 

Nestes 57 anos de revolução, como eles lhe chamam, o Fidel passou de salvador da pátria ao pior pesadelo do país. Errou, assumiu alguns erros e escondeu a pior parte da história sem aparentes remorsos. Desenvolveu a cultura e o altíssimo nível intelectual e académico da ilha, ao invés de promover um analfabetismo útil à ditadura. E continuou a deixar morrer cubanos por falta de medicação enquanto eliminava a mortalidade infantil. De Fidel, veio o bom e o mau.

 

 

Vivi nesta escola de cinema que ele inaugura na fotografia. Vivi em terras cubanas, sob o regime de Raúl Castro, investiguei sobre dissidentes políticos e crimes contra a humanidade. Soube (e sei) de coisas muito mais feias do que a maioria das pessoas que lerá este texto possa sequer imaginar. Apesar de tudo isso e da minha pública posição contra o regime de Castro, não festejo, não me sinto aliviada e muito menos indiferente. Há um pesar pela memória colectiva de um sonho e é para esse sonho destruído que vai o meu lamento.