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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#70 a ansiedade do aniversário

 

Há dois dias que estou com dor de cabeça. Faltam dois dias para o meu aniversário. Todos os anos se manifesta de forma diferente, esta ansiedade pré-celebração. É a minha passagem do ano, é com a medida de Outubro que calibro se o tempo passou depressa, se o ano foi produtivo, quantos meses faltam para isto ou para aquilo. O mês dez a substituir o mês de janeiro, como uma escala de fahrenheit só minha. Faltam dois dias para o meu aniversário. Passou a correr, a vida. E esta ansiedade, a mesma. Decidi fazer festa e entusiasmei-me. Já não fazia uma grande festa desde miúda, naqueles sábados de bolos e jogos e chuva miudinha no parque infantil. As velas, os parabéns e o vazio que comecei a sentir a partir de determinada idade, rodeada de colegas de escola e muito poucos amigos. Nunca fui lá muito feliz na escola, aquelas pessoas diziam-me pouco. Se tivesse saído rapaz, talvez me tivesse integrado através de um qualquer acordo tácito de mais bola nos pés e menos conversa. Mas as miúdas, pelo menos as miúdas do meu tempo, pelo menos algumas dessas relações de colégio, conseguiam ser um fardo a carregar nos penosos anos da adolescência.

 

Vou fazer trinta e um anos. A idade que a minha mãe tinha quando eu nasci, a segunda e mais nova filha. Estamos todos cá, só isso me importa nesta contagem cronológica, continuarmos todos a ficar mais velhos. 

 

Para contornar a ansiedade que se manifesta anualmente, completei consecutivos aniversários a juntar-me apenas com duas, três, uma pessoa. À excepção de Cuba: quando fui para Cuba viver da primeira vez, a minha festa foi a antítese do passado, uma festa de cinco dias, com a escola de cinema em peso, professores, alunos, funcionários, colegas que me organizaram tudo, prendas surpresa de grupo, lagosta desenxabida ao jantar do dia e ainda empregados contratados para fazer mojitos do melhor rum velho cubano - que ainda hoje estou para descobrir quem lhes pagou. Em Cuba, eu era só a Helena, não existia passado nem tão pouco uma expectativa de futuro, não havia nada a não ser comunidade, rum, cinema, cinema, cinema e muita harmonia. Assim celebrámos o aniversário da portuguesa.

 

Este ano apercebi-me que posso estar, no que me diz respeito unicamente a mim e não há nada que diga tanto respeito só a mim como o meu aniversário, rodeada de quem quero, de quem gosto e, mais importante, de quem gosta de mim. Por fim, o número chegou aos três dígitos. Não sei quando voltarei a festejar, se alguma vez o voltarei a fazer. Já recebi a prenda de ter percebido, finalmente, que todas estas pessoas são minhas amigas pelo que sou, faladora, sincera, tantas vezes inconveniente quanto louca. São muitas e boas e estão todas, de uma forma ou de outra, comigo. Agora, ai de quem trouxer bombinhas de mau cheiro. Isso, amigos, já me faz escrever toda uma outra história. De violência.