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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#58 via de cintura interna

 

MANHÃ

 

Eu tinha sete anos e a C. era um ano mais velha do que eu. Estávamos na segunda classe, ela vivia numa ilha cuja entrada era na travessa onde eu morava. Todas as manhãs, a minha ama, eu e a C., caminhávamos pelos atalhos de terra e areia que pertenciam à construção da Via de Cintura Interna, no Porto. Antes de entrar na primeira classe, via da minha janela campos verdes e uma casa senhorial acompanhada de uma casinha de caseiro, singela e pitoresca; quando passei para o terceiro ano, estavam os vizinhos a mudar as janelas para caixilharia nova e vidros duplos, carros a alta velocidade atravessavam a cidade com uma rapidez de se aplaudir, enquanto nós nos mudávamos para o outro lado da freguesia, onde ainda hoje vivem os meus pais. Nessas caminhadas para a escola, passávamos por baixo de um viaduto que estava a ser construído antes da própria VCI e que viria a ser um dos nós de acesso da mesma - o buraco ainda não tinha sido escavado para se alcatroar a via principal. Então, eu e a minha ama, agachadas, passávamos por baixo do betão novo, sem medos, claustrofobias nem tremores. Caminhar nas obras era mais divertido do que ir pelas ruas normais. A C. não se agachava e porque, pelas minhas contas, se ela era um ano mais velha do que eu, eu devia ser mais baixa, portanto houve um dia em que também não me baixei. Bati com a cabeça e ri-me. Percebi, pela primeira vez, que nem tudo fazia sentido e soube, naquele instante, que sempre que passasse na VCI, debaixo daquele viaduto, me ia lembrar do exacto ponto onde a minha cabeça tinha batido e do quão raro é as pessoas andarem a bater com cabeças em viadutos. Hoje continuo a olhar para esse mesmo lugar quando lá passo, rio para mim e penso que felizmente que as pessoas realmente não andam a bater com as cabeças em viadutos e deixa-me olhar pra estrada que aqui não dá para abrandar.

 

© Chtcheglov 

 

 

TARDE

 

Todas as tardes, voltava da escola, a C. seguia para a ilha, a minha ama seguia para casa e eu parava à janela da senhora que me esperava com um chocolate. A cem metros do meu prédio, havia a casa de uma senhora que, religiosamente, esperava à janela do piso térreo que eu voltasse da escola. Falava com ela, perguntava-lhe sobre o seu dia, contava-lhe o meu, as aulas, piadas, adivinhas. Creio que ao fim de dez, no máximo quinze minutos, havíamos esgotado o tema de conversa. Ou o relatório do meu dia, porque ela pouco falava, ela, na verdade, só queria ouvir-me porque não tinha mais ninguém. No fim, em silêncio, desaparecia. E eu esperava. Segundos depois, voltava com um chocolate. Era mágico. Tenho a certeza que iria ao mesmo minimercado que nós, mas nunca nos cruzámos nessa compra. Assim, o chocolate vinha deste frigorífico de uma cozinha que nunca conheci. Não me lembro da nossa despedida quando os carros começaram a voar na VCI e nós nos mudámos, mas vinte e muitos anos depois, continuo a lembrar-me dela, do caixilho prateado da sua janela, dos móveis do quarto a desaparecerem na sombra e a esconderem, ao longe, uma vida inteira (que eu nunca conheci).