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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#53 sobre a violência na rua

 

Ouvi gritos, enquanto estudava os meus textos. Corri para a janela, abri-a, olhei para baixo e vi um rapaz dos seus trinta anos, franzino, ar de mitra a gritar com uma mulher, anã, enfurecida. No espaço de um segundo do meu espanto, vejo-o a acelerar tal e qual a corridinha que os jogadores fazem para marcar golo nos penalties e lançar uma bofetada de mão fechada, acertando em cheio na cara da rapariga que, prontamente, desata a chorar.

 

Ele foge e ela foge atrás dele. Não sei se eram um casal.

 

A única coisa que sei é que isto aconteceu debaixo da minha janela e, enquanto ela chorava e corria atrás dele, eu falava com o 112 e descrevia a situação com a viatura da polícia já a caminho; e que enquanto eu descrevia o verde da sua camisola a um senhor que no fim ainda me agradeceu a chamada, estavam: um homem, dono da garagem em frente, de braços cruzados e expressão de indignação, em silêncio; três homens das obras do prédio ao lado, petrificados a observar o espetáculo, em silêncio; dois homens fora do café do meu prédio, de mini na mão, a tentarem desviar o olhar para não enfrentar tal vergonha, em silêncio; a dona do café, senhora forte e de voz particularmente aguda e projetada, pela primeira vez em silêncio em tanto tempo e ainda um cliente que mais tarde vejo a sair do café, que pelo seu silêncio não diria ter estado ali, a ver o mesmo que eu, mas esteve.

 

Tirando a senhora, que certamente com uma bofetada virava o rapaz ao contrário e até à semana passada eu achava que era senhora para isso - pelos vistos não -, todos os homens desta história eram mais encorpados que o tolo do rapaz. Pelas minhas contas, eram em maior número também. Se eu estivesse na rua e quisesse intervir, teria medo que ele tivesse uma arma? Claro. Mas isso sou eu que morei em São Paulo e acho que toda a gente tem uma arma. Se consigo escrever ilações sobre este assunto? Não, gostaria muito, mas desde há uma semana que quando penso nisto, só sinto um murro no estômago.

 

© Leah Lockhart

 

Obrigada ao senhor que, do outro lado da linha, agradeceu a minha chamada. Ficar quieto é que, enfim.

 

 

 

 

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