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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#5 este post não é sobre o dia da mulher

Da última vez que passei por isto, há 4 anos atrás, fiquei com 49kg e já me doía sentar-me em algumas cadeiras, dada a magreza. Tive que fazer dieta para engordar. Este ano não, este ano, do alto dos meus 62kg, fiquei igual e acabaram-se os sisos para retirar.

 

A minha tendência é perder peso, cantava aos quatro ventos, orgulhosa de uma qualidade que me era intrínseca e que eu violava por achar que estaria sempre lá. Lembro-me de dizer à M., depois de uma sessão fotográfica, que desta vez tinha ficado com os braços mais gorditos mas que agora no verão tudo ia desaparecer, porque basta-me deixar de ir às hamburguerias gourmet dia sim dia não e nadar um bocadinho que a coisa passa, afirmei entre duas batatas fritas numa tasca que serve almoços.

 

Passou o verão, o resto estava disfarçado numa elegância aparente - aos olhos dos meus estava mais inchada, aos olhos dos outros continuava impecável, dentro dos parâmetros aconselháveis do IMC. Voltou o outono e pensei que agora que viria o frio até me dedicaria a comer umas sopitas - qu’isto ao fim de duas semanas vai lá, respondia a quem perguntava. E começou a tornar-se esquisito. Eu, a tripeira que comia mais do que os seus amigos homens, que fazia viagens gastronómicas e se orgulhava do seu alargado gosto culinário, teve de começar a admitir que às tantas a cara redondita já não era só uma cara redondita. E ele, que me ama e é chef de cozinha, começou a ter cuidado com o que nos cozinhava porque me via cada vez mais triste, sem motivação para fazer a tal semana a sopas que num instante isto passa, garantia-lhe em lágrimas. Era uma bola de neve, quanto menos me reconhecia ao espelho, mas difícil era admitir as mudanças.

 

Entrei na novela e pensei: porra, logo agora que não cuidei de mim, mas com o ritmo das gravações isto melhora e quando estrear já estou normal outra vez. Depois fiquei doente e cheguei ao peso com que estou hoje. Depois as gravações acabaram. Depois o ano passou.

 

Virei-me de lado relativamente ao espelho. O volume era outro. A cara também. Os braços, o pescoço, os dedos e os anéis a trocarem de posição até os anelares caberem nos mindinhos. Melhorei na saúde. Continuou tudo igual e não houve um horóscopo de segunda categoria que me soubesse avisar que as grandes mudanças de uma vida também podem ser estas, que as novidades de 2016 também podiam ser difíceis numa perspectiva que não conhecia. 

 

Assim, peço desculpa a todas as pessoas a quem disse que isso (ou isto, dito por outrem noutro momento) é uma conversa fútil. Não há nada de fútil na transformação pessoal; não há nada de insignificante na aprendizagem e na mudança.

 

A todos os homens que lerem este texto e a todas as mulheres que nunca passaram por isto: sorriam quando se lembrarem de mim. O nosso novo reflexo toca a quase todos nós. Assim: pum, como uma machadada. Não falo só do corpo, é preciso mencioná-lo? Os olhos também cabem no espelho. Cabe a cada um saber interpretá-lo e admirá-lo, perceber que mais uma fase da vida se iniciou e que está tudo bem. E agora que sei que é diferente, agora que admito que sou diferente, avanço sem esperar voltar ao que era - antes anseio algo melhor. 

 

Agora vou procurar as coisas boas, os vegetais saborosos, os peixes frescos do mar, as carnes sem hormonas, o azeite do alentejo e os espargos do senhor à beira da estrada nacional. Aumentar a sensibilidade do palato. Respirar melhor. Fazer exercício físico sem sentir que é uma perda de tempo. Voltar a escrever. Porque tudo o que muda no meu corpo, muda no resto de mim. Sim, actriz, já devia saber isso há mais tempo. Sei hoje, e hoje é um bonito dia para começar.