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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#42 la guagua de la media noche

 

O autocarro amarelo norte-americano com as palavras “school bus” a preto, no visor dianteiro, percorria as estradas mal alcatroadas que ligam La Habana a San Antonio. De vidro aberto, eu fumava um cigarro do maço de hollywood vermelho que, em 2009, custava menos de um euro. A fazer-me companhia, um bicho preto, parecido com o louva-a-deus na sua forma mas menos inquieto.

 

Ao fim-de-semana gostava de ir à capital, só ia ficar uns meses em Cuba e Havana tem muito para viver. Nessas noites, nesses regressos de 30km, todos fumávamos, todos de auscultadores a ouvirmos salsa. Quase ninguém tinha saudades de casa, da música de casa, da comida de casa, da roupa de casa, do cheiro de casa. Cuba anestesiava-nos nessa quinta onde dormíamos e estudávamos cinema, onde dançávamos e comíamos, onde vivíamos tempos irrepetíveis.

 

A meio do caminho o motorista, de nome Fidel em homenagem a El Comandante, colocava água no autocarro e voltávamos a fazer-nos à estrada, agora com menos fumo e cheiro a queimado. Aos sábados à noite, nos regressos à quinta, quase todos trazíamos pacotes de papel higiénico na mochila, não fosse o stock acabar outra vez e a ilha ficar mais ilha e todos nós ficarmos ainda mais longe do que o que estávamos habituados.

 

Fidel parava a viatura na portagem, um segurança entrava e olhava-nos nos olhos, um a um, conhecia a cara de todos estes estrangeiros que povoavam a quinta, sabia os nomes, as nacionalidades e o dia exacto em que os tinha de enviar de volta para o seu país. Em Cuba sabe-se tudo. Na portagem, quem tinha adormecido acordava, guardávamos todos os auscultadores e dois minutos depois parávamos à porta da escola. Adiós Fidel. Adiós mi amor, hasta mañana. No bar, havia sempre alguém que nos aguardava com umas colunas, a música pronta e o rum servido. As meias noites dos sábados de 2009 na Escola de Cinema de San António de los Baños eram mágicas, vinte metros quadrados albergavam-nos a todos, como uma família de amigos que acordam e se deitam todos juntos todos os dias, durante um período de tempo estanque, que só a eles e a mim pertenceu.

 

O autocarro arrancava com o Fidel ao volante para um lugar que nunca descobri qual. O Fidel também morava em San Antonio, talvez na mesma quinta que eu. Lembro-me da cara dele, moreno, de olhos claros, com sorriso de avô e olhar de menino. É a primeira vez que falo do Fidel, é talvez a primeira vez que penso nele ao longo destes anos. Escrever sobre Cuba é assumir que passou, aceitar a utopia desse universo como encerrada, escrever sobre Cuba é fechar um capítulo, escrever sobre Cuba é, para mim, escrever sobre liberdade.