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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#39 criança ontem, criança hoje

 

Há uma criança em todos nós e não, não justifico por isso infantilidades.

 

Há uma criança porque já fomos uma criança, já todos passámos pelo processo do primeiro passo, da primeira palavra, do primeiro espirro. Todos nós já tivemos dentinhos a caírem, terrores nocturnos e cólicas. Mimo, carências, tristezas, hormonas de crescimento a baralharem as precoces convicções. Todos nós já sofremos e já entrámos numa quase-arritmia de felicidade, já recordámos o passado e ansiámos o futuro porque todos nós já fomos crianças e todos nós crescemos e estamos aqui hoje, a menosprezar o presente.

 

Há uma impaciência geral para o outro: no trânsito, na fila do supermercado, no erro inocente. A intolerância e a flexibilidade domina-nos. O rótulo mal medido, esse preconceito que permanece, construído sem alicerce, que abraça os desconhecidos e os divide em meia dúzia de categorias a maior parte das vezes erradas, não fôssemos todos diferentes. Para nos categorizarmos, precisaríamos de milhares delas e, mesmo assim, de fronteiras ténues.

 

Mas numa coisa somos todos iguais, todos já fomos crianças e se, no olhar distraído de um homem amargurado conseguirmos encontrar essa pureza, o exercício social começa a fazer sentido: encontrar o que há de melhor, não deixar escapar esse deslumbramento pelo novo e o bonito, ser a nossa própria criança mais do que uma vez ao dia.