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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#32 o afonsinho quer comer mais?

 

© toddlers and tiaras

 

Há uns tempos perguntei aos meus pais como é que eles faziam quando eu começava uma birra num restaurante, se se revezavam a comer e a trazer-me à rua ou se se chateavam comigo. Sei que não suportam incomodar os outros, pelo que assumi que teriam todo um painel de técnicas para manter o bom ambiente num qualquer sítio a frequentar. Tu não fazias birras nos restaurantes. Como assim, não fazia birras nos restaurantes, se eu era tão inquieta? Como é que vocês conseguiram que eu não fizesse birras nos restaurantes? Nem tu, nem o teu irmão. Educação. Engoli em seco e questionei-me imediatamente como é que eu poderia repetir a proeza da educação quando tivesse filhos. Entretanto fiquei a saber que gostava de tentar roubar uma batatinha frita ou outra de pratos alheios e compreendi finalmente a predilecção. 

 

 

Ontem, a caminho do curso de dobragem, atravessei Lisboa em hora de ponta a ouvir a Rádio Marginal e a cantar como se percebesse do assunto. E perguntei-me até quando teria esse luxo. Se um dia passaria a ouvir o Nodi na rádio, audiobooks do livro da selva ou se teria ipads com capas contra todas as quedas para eles verem os bonecos enquanto nós, adultos, os transportamos que nem reis para os seus destinos. E não, não vou querer ouvir Nodi no carro. É agora que todos os pais me dizem que eu estou a escrever todas estas tretas porque não sou mãe e não faço ideia do que é cuidar de uma criança e do quanto é complicado entretê-las e que estamos todos cheios de boas intenções no princípio mas que acabamos todos por ceder a determinada altura em prol da nossa saúde mental e do silêncio comprado à dita criatura perfeita. Sim, são todos perfeitinhos e os meus também serão, assim esperemos. Enganam-se, sei o que é cuidar de uma criança, pelo menos durante 12 horas do seu dia, às vezes 24. E hoje é um rapaz alto, cheio de humor, mau a matemática mas que lê todas as noites e ajuda a mãe nas tarefas domésticas, que poupou o dinheiro dos anos e do natal para comprar uma playstation, mas que continua a preferir percorrer os socalcos do rio douro com a bicicleta e receber mimos quando chega todo rasgado a casa e a rir de felicidade. Não tem nenhum ipad e, para além das namoradas, tem sempre pretendentes e montes de amigos com quem correr no recreio. Mas a proeza não é minha, afinal não sou a mãe nem a irmã de tal criatura desenvolta.

 

Pode ser mais difícil hoje do que era há trinta anos atrás e eu compreendo que a internet, os telemóveis e a sociedade altamente consumista possa ter alterado algumas regras, se é que há regras nisto da parentalidade. Compreendo isso e compreendam também que a minha opinião pode mudar tão depressa quanto a chuva desta primavera, mas deixem que vos diga que isto é que penso hoje. E, se eu hoje fosse mãe por obra divina, não ia ligar o mp3 no carro para o menino ouvir o nodi. Não ia marimbar-me para as birras dele como se as outras pessoas tivessem de gramar com a gritaria, porque ele tem direito, porque é uma criança e tem direito a gritar e espernear mesmo que esteja tudo bem e tudo de acordo. Não ia tratá-lo por você e perguntar-lhe se o afonsinho quer comer mais só para ele aprender como é que se tratam os outros por você porque eu nunca tive de tratar o papá e a mamã por você para saber que com os outros adultos era diferente, nem obrigá-lo a tratar-me por você e depois nos baralharmos na viagem e às tantas já estarmos a misturar os tempos verbais, porque há disso, porque eu já vi que também acontece. Não ia tratar o meu marido por pai para que ele aprendesse a tratar o pai por pai, porque se tratar o pai pelo nome ninguém morre e ele um dia há-de aprender. Não ia pagar a mensalidade dos canais infantis. Não ia entregar numa bandeja de prata o domínio do reino dos adultos e infantilizar a vida de toda a gente à volta de sua majestade. Acima de tudo, não ia infantilizá-lo e incapacitá-lo a ele de crescer, de errar muito, de descobrir sozinho e acompanhado por pessoas reais e não por aplicações e ecrãs tácteis, com a papinha televisiva mastigada e sem palavras feias nem ideias más nem finais infelizes.

 

Li no outro dia um texto sobre estes pais que vão para o parque infantil e ficam de bracinhos no ar para apanharem a criança no caso de ela cair no escorrega. Nem consegui rir-me com essa ideia patética. Parece que vivemos num mundo em que já não existem crianças e temos de preservar as últimas como se fossem a garantia da sobrevivência da espécie, colocá-las num sofazinho com uma mantinha, bem protegidinhas desse mundo lá fora que elas quase desconhecem. Será que já viram sangue? Que sabem o que é o calor do líquido que escorre do joelho magoado depois de tanto brincar na gravilha? E a terra na boca e a palmada na mão que é dada uma vez e serve de exemplo para os dez anos seguintes? Será que as crianças de hoje, depois de cairem, conseguem levantar-se sozinhas? Ou ficarão no chão a contar até dez em português, inglês, francês e alemão?

 

 

 

 

 

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