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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#31 polaroid

 

No dia em que percebi que todos os meus documentos de 2008 a 2013 tinham desaparecido para sempre, não chorei. Eram duas da tarde, enfiei-me debaixo dos lençóis e dormi.

Fiquei de ressaca desde essa quinta-feira até domingo, em silêncio, sem vontade de pronunciar frases inteiras e correr o risco de as perder também. 500 gigas de memória falsa, 5 anos passados quase a viver fora de Portugal, a viajar o mundo, a aprender, a conhecer pessoas das quais nem uma fotografia guardei. E assim ficaram as minhas memórias, quais polaroids instantâneas que se desfazem em três pela tesoura da cozinha e das quais ficas só com a parte desfocada, que não prova coisa alguma.

 

 

Ontem fui à primeira aula do curso de dobragem de desenhos animados e o professor disse que estávamos ali por uma razão e que éramos oito e não dez por uma razão qualquer. Pode ser que seja assim, afinal, encontrei nem meia dúzia de imagens da nem meia dúzia de meses em que vivi em Los Angeles e, dos quais, perdoem-me a repetição, decidi guardar apenas meia dúzia de memórias. E o disco, esse que desapareceu com o meu encanto pelo passado, levou-me os textos, as cópias das cartas, as fotografias, os recibos de objectos que já vendi. Aos poucos, voltam as memórias, backups antigos dos telemóveis e pastas que a minha mãe tinha guardado no computador com os mails que lhe enviava.

 

Hoje é a polaroid da catana, do pequeno traquina que já tinha sido figurante em duas longas-metragens e o irmão do meio, que me confessava que lhe tinham dito que era demasiado feio para ser actor. Logo ele, o de maior profundidade no olhar, sacana, tão bonito. E, de repente, lembro-me do meu professor Jean-Louis, num palco de Los Angeles, a dizer-me para pensar todos os dias pela manhã, de olhos fechados: I have time. Volto para os miúdos no meio das canas de açúcar. Volto para o Jean. Jean, do we?

 

 Fotografia que tirei com o meu telemóvel em 2012, a 30km de Havana.