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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#24 peixe em lisboa

 

Foi o primeiro ano em que ouvi falar do Peixe em Lisboa. A atenção selectiva tem destas coisas, não é que não gostasse de peixe, mas mais rapidamente teria dado ouvidos a uma rota de tapas ou uma convenção de pintxos bascos.

 

Tinha credencial e, armada em altruísta, achei que devia pagar a minha entrada para contribuir. Sim, é óptimo contribuir para que as organizações se mantenham de pé, o problema é que ninguém me avisou que eu devia guardar o meu copo para os dias seguintes e quando entrei com credencial no segundo dia (não estavam à espera que pagasse duas entradas podendo não o fazer, certo?), lá tive de pagar três euros pelo meu copo outra vez. A única real borla que tive foram três senhas pequeninas do Joe Best e da Ana Rosa, duas criaturas com uma simpatia que nunca cessa.

 

E lá me abandonaram numa mesa - não, eu é que quis ficar - onde se juntaram uma cambada de tipos simpáticos, metade meus conterrâneos, que eu não conhecia e que, prazerosamente, passei a conhecer naquela noite. Chefs, tatuadores, senhores de vinícolas, tudo mais novo que eu, a comer comigo em mesas corridas e a fazer daquela noite um gasto de dinheiro altamente justificado. É caro? Não, senhores, não é barato, mas vale a pena cada cêntimo. Dou graças por não haver Peixe em Lisboa todos os meses. Não me cansaria, não. Seria uma paixão para durar.

 

Achava que estava tudo bem assim, mas pelos vistos havia uma porta mágica com as palavras Mercado Gourmet por cima. Passei essa porta e todo um mundo de tendinhas estava ali, petiscos para provar, vinhos para degustar (não esquecer o tal copo), azeites, queijos, doces, lojas de utensílios de cozinhas e conservas portuguesas, ai, as conservas.

 

Fiquei ali, a ser mimada por um rapaz e uma rapariga sorridentes, da Conserveira do Sul. Falámos sobre paladar, sobre sabor, sobre comida. Ela disse-me que o rapaz da embalagem era o tio avô dela. Emocionei-me, como tanto me emociono com as histórias dos estranhos e me contenho para ver se ninguém repara. Como eram simpáticos, os dois. Comprei logo umas latas de conservas e ofereceram-me um iô-iô de madeira, pintado de amarelo, como antigamente. Disseram-me que nem sempre fizeram aquilo, que tinham formação em audiovisual. Li os nomes nas plaquinhas identificativas das t-shirts, juntei os nomes com a proveniência (olhão), as caras, o curso e ainda o blog de comida que mencionaram pelo meio da conversa e fez-se luz.

 

Dois dias depois da ante-estreia do filme “Vícios Para Uma Família Feliz” encontrei ali, no meio da cavala com malagueta e do atum com limão, os fotógrafos do poster da peça de teatro “Vícios Para Uma Família Feliz”, na qual, obviamente, se baseou o filme. Dois dias de uma coisa, dois anos da outra. E a vida a contar-se com números quando nada disto interessa, passou o tempo e estamos todos diferentes; não interessa se tive de pagar três euros por outro copo, agora o copo está comigo e eu tenho vontade de repetir aqueles caranguejos de casca mole do Ribamar.

 

 

1 - Chef Kiko

2 - Tasca da Esquina (Vítor Sobral)

3 & 4 - Conserveira do Sul

5 - Four Seasons (Chef Pascal)

6 - Chapitô à Mesa (Bertílio Gomes - tão simpático, obrigada!)