Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Miliuma

insónias | ideias | publicações

#112 técnicas para uma relação passivo-agressiva

 

Quando escrevi sobre o José Mayer, que se tornou - de longe - a publicação mais lida no blog, recebi emails e mensagens de algumas pessoas que elogiavam a forma como eu tinha tornado simples entender determinados comportamentos, criando uma sensação de empatia através da apresentação de uma situação inversa. No caso, escrevi: "Já que gostas tanto do que está entre as pernas das mulheres e não te imagino com uma grande noção de limites, vamos imaginar então que é um homem a assediar-te, ou seja, alguém que à partida não queres de todo que te aborde sexualmente.".

 

É, muitas vezes, através da ironia, da comédia, da metáfora ou da comparação que se consegue identificar comportamentos violentos camuflados do dia-a-dia de pessoas sujeitas a determinados níveis de violência psicológica. Uns mais graves, outros mais leves, a verdade é que os episódios de violência psicológica retratados neste vídeo já aconteceram e acontecem em muitas, muitas relações. E é esse rácio que me assusta. Por falar em rácio, aqui está o texto que escrevi sobre o rácio. Mas antes, vale a pena ver este vídeo:

 

 

#111 gula - ep.4

 

A primeira vez que provei sushi foi no Rio de Janeiro, em 2001, última refeição antes de regressar a Portugal. Não gostei nada. Hoje lembro-me da textura e percebo que não gostei porque era mal preparado. Em 2004, a medo, repeti a experiência e desde então nunca mais parei. Nos últimos treze anos, houve semanas após semanas em que nenhuma passava sem umas quantas fatias de sashimi. Mudei de morada para o outro lado do atlântico várias vezes, América do Norte, Caraíbas (onde quase só comi frango e lagosta), América do Sul. Foi em Los Angeles que comi o melhor temaki da minha vida.

 

©PAUL SIRISALEE

 

 

#110 beleza do vale das furnas

 

Quando lancei o blog, disseram-me logo que ia encontrar naturalmente o meu foco; os assuntos que mais me interessariam explorar seriam definidos com o tempo, com o passar dos meses ou até dos anos. Com treze meses de existência, continuo a sentir-me nessa exploração e redefinição constante. Uma coisa é certa e comprovada: funciona melhor quando dou espaço à visceralidade dos meus constrangimentos e emoções, quando defendo e refuto à minha maneira, sem polimentos. Há espaço para toda a gente e este é o meu espaço, com a voz das minhas miliuma ideias.

 

 

 

 

 

#109 libertem o sarampo

 

Custa-me muito escrever isto, mas:

Liberdade, ponto e vírgula.

 

É muito lindo isto da liberdade e eu que sou toda sangue quente a defender a liberdade de tudo e mais alguma coisa, mas como é possível sentirmo-nos agora, perante a liberdade de escolha de não vacinar as crianças?

 

A menina morreu. Após 23 anos em Portugal sem nenhuma morte por sarampo. Morreu porque não era vacinada - fim da história.

 

Eu tenho um afilhado com 17 anos e nem consigo imaginar tal cenário. Ele, claro, vacinado, que essa questão lá em casa nem se coloca. Mas e se ele morresse por culpa minha? E se ele morresse por culpa de um idiota qualquer que pensa que sabe mais de medicina que os médicos e que é detentor de um conhecimento profundo de artigos da internet que falam sobre a conspiração da indústria farmacêutica e abre links com títulos como: “os medicamentos naturais que eles não querem que você conheça” ? O que faria eu, como poderia viver com tal revolta? Como vais viver tu, mãe da criança, tu e a tua homeopatia?

 

 

#108 gula - ep.3

 

 

 

Sou uma pessoa de muitas alergias. Garanto, contudo, que não escolhi ter nenhuma. Quase toda a fruta, alguns tipos de tomate, algumas árvores e relvas, pólen, pó, ácaros, gatos, cães, anestesias, medicação e alguma intolerância à lactose. Não posso beber um sumo de laranja há mais de dez anos e não sei o que é viajar sem levar um papel com números de emergência, um kit de adrenalina, seguro de saúde em viagem e muitas perguntas insistentes: I’m asking if the food has fruit, or the sauce was made with any kind of fruit. Caras de caso, compreendem-me, mas acham bizarro.

 

 

#107 o natal ainda dou de barato, agora, a páscoa?

 

Em criança, passei sempre a Páscoa no Algarve. Viagens intermináveis de carro entre o Porto e o destino escolhido da costa algarvia, paragem obrigatória no Canal Caveira, duas semanas de piscina e de brincadeira com os filhos do Dr. Aroso. Éramos onze, nós e eles e nunca celebrámos a Páscoa. Depois vim morar para Lisboa e depois passei quase cinco anos fora de Portugal e entretanto voltei para Lisboa e, no meio dessa confusão, nunca me apercebi que as pessoas efectivamente celebravam a Páscoa. Este fim-de-semana, sozinha, com tudo fechado, fez-me sentir como se estivesse a passar o Natal num país tropical e toda a gente estivesse recolhida com as suas famílias enquanto eu permaneci, à secretária, a trabalhar em projectos novos até a solidão me agarrar.

 

 

#106 óbidos e o oeste

 

 

80 quilómetros são o suficiente para ouvir Mallu Magalhães, o Pitanga, do princípio ao fim, pontuada por Aretha Franklin e um pouco de Ray. Quando damos por ela já saímos da auto-estrada em direcção ao Vau.

 

80 quilómetros é a distância que se percorre, num piscar de olhos, entre Lisboa e Óbidos, ou arredores lá no Oeste. Planícies, um cheiro diferente, uma calma praticamente impagável. Porque, literalmente falando, paga-se para ter acesso a este paraíso. Só que não é assim muito.

 

 

#105 gula - ep.2

 

Pátio da Galé, volta, estás perdoado! Será suficiente a possibilidade do regresso ao espaço anterior, para recuperar a excelente experiência de 2016? Ou agenda política e camarária veio estragar uma pérola nos eventos gastronómicos da cidade?

 

No ano passado fui ao Peixe Em Lisboa, pela primeira vez. E fui duas e fui três vezes na mesma semana. No Pátio da Galé, com bom tempo, coisas óptimas a descobrir, petiscos em conta, comprar senhas para ir levantar os petiscos não custava, ainda que no fim do mês o extrato da conta não fosse simpático. Mas tinha valido a pena, porque é só uma vez por ano, pensei, porque é incrível, dizia. E foi.

 

Este ano voltei ao Peixe Em Lisboa. Não voltei ao Pátio da Galé porque eles mudaram para o Pavilhão Carlos Lopes, aquela casa imponente no meio do Parque Eduardo VII. Com orgulho, levantei a minha primeira credencial de imprensa pedida por via do blog, este, o Miliuma, e entrei no Pavilhão.

 

É só isto? E era. Um salão com bebidas de um lado, comida do outro e as lojinhas no meio. Quase pequeno. Sem luz natural e um ligeiro cheiro a fritos. Sentei-me, pedi a uma família para me dar uma olhada nos pertences o que, felizmente, ainda é possível fazer no nosso país, e rumei directa ao Ribamar. Ai, os caranguejos de casca mole que me ficaram a atormentar o ano inteiro, ai, Ribamar, gosto tanto de vocês. E lá estavam eles, com molho de abacate e lima, à minha espera. Disse-me a menina: este ano estes são ainda melhores. Confirmo.

 

 

E assim acabou a minha belíssima experiência no Peixe Em Lisboa deste ano. Mais ou menos 15 minutos depois de ter começado. O resto foram duas horas de desconforto no meio de uma confusão de mesas e filas, pautada por outra alteração que tanto me desapontou: as doses, uma boa parte delas, aumentaram de tamanho e bastante de preço, também. A expectativa, não só minha, pois falei com mais gente sobre o assunto, era ir provar, petiscar ou degustar (como lhe quiserem chamar) diversas criações dos Chefs presentes no evento. Mas se me derem um prato que me enche o estômago, já nem vou conseguir provar os outros.

 

Com calma, perguntei-me se seria uma estratégia de eliminar a concorrência. Como: lançar no mercado um novo detergente da roupa e a marca de competição directa lançar uma promoção de leve 3 pague 1, para que eu só vá comprar o detergente novo passado um ano, quando já nem me recordar que foi lançado, quando já voltar a ter fome, neste caso. E no Peixe Em Lisboa, demoras um bocado até voltar a ter fome e quando dás por ela, já lá não estás. Ou eu, no caso, eu.

 

Enquanto isso, vou ali cozinhar uns hambúrgueres de novilho com espinafres, acompanhados de maionese caseira de manjericão e pimentas e ainda uma salada de maçã e nozes.

A Gula está a aquecer, nos próximos episódios há mais comidinha da boa e dicas, muitas, de como fazer coisas boas.

 

Au revoir!

 

Mais sobre Gula

Gula - ep.1 

 

#104 cães, homossexuais e violadores

 

Cães e saquinhos.

 

Anos 80. De mão dada com a minha ama, caminhávamos para a minha escola primária de olhos postos no passeio e ela indignava-se com a falta de limpeza dos donos. Era normal nessa época, não havia ninguém com  saquinho de recolha. Eu entregava-lhe o argumento da vergonha, as pessoas iam ter vergonha. Ela explicava: se todas as pessoas que se cruzam connosco carregassem um saquinho com cocó, deixariam de ter vergonha, pois todas estariam a fazer a mesma coisa e isso tornar-se-ia normal, não achas? Só tens vergonha se fores a única e, aí sim, toda a gente olhará para ti. Nesse caminho percebi a importância do rácio - da percentagem, da proporcionalidade - na sociedade.

 

 

Gays e o não-armário

 

No liceu, ser homossexual era um assunto sussurrado, falado entre risinhos nervosos, com um constrangimento tal que parecia que andávamos todos a comer arroz malandro com pauzinhos chineses num jantar de gala.

Havia um colega da turma B, do meu ano, que era claramente gay, não assumido. Todos sabíamos, ninguém comentava. Mais tarde, já em 1999, lembro-me de uma colega da escola de música surgir de mão dada com uma rapariga da mesma idade. E todos a admirámos, como se dar a mão a uma rapariga fosse um statement - e era. E mais ninguém, não conhecia mais ninguém que, aparentemente, gostasse de pessoas do mesmo sexo. Eu, que andava no liceu, na escola de música, na dança, no teatro e na natação. Conhecia, portanto, muitas pessoas de lugares diferentes, fazia parte de grupos distintos. E em tantos anos, apenas estes dois casos existiam no meu universo pessoal. Assim, era difícil assumir-se a homossexualidade ou bissexualidade. Porque seria assumir uma diferença numa estatística cruel de 1 para, imagine-se, 2000. Que me lembre, poucos pais da altura levariam com leveza a possível homossexualidade de um filho ou filha. Porquê eles, se tantos, tantos, tantos outros, eram normais?

 

 

Violência e Opressores

 

Há já alguns anos que os temas da violência, do abuso psicológico e físico, começaram a surgir nas conversas com amigas. Todas a comerem o tal arroz malandro com pauzinhos, interessadas em ouvir e em desviar a conversa delas, das suas experiências pessoais. A desculpabilização para a cretinice dos violadores era quase obrigatória, num processo de negação interior, anterior ao processo de negação social. Ninguém quer assumir que os seus direitos, o seu espaço e a sua integridade foram violadas. Ninguém quer ser a vítima de violência doméstica, de manipulação, de tortura psicológica. Podemos ser vítimas de negligência médica, da banca ou de injustiças governamentais, mas não somos vítimas das nossas mulheres ou maridos, que isso não se conta, isso é de se guardar por casa. De janelas fechadas. Nem nunca nos envolvemos numa relação sexual abusiva da qual perdemos o controlo, mas conhecemos pelo menos vinte amigas a quem isso aconteceu. E quase todas tivemos relações amorosas desrespeitosas e violentas, mas é mais fácil dizer que eram apenas conflituosas e estúpidas, ninguém percebe como é que ficaram juntos tanto tempo. Por causa do rácio. Ninguém quer estar do lado negro do rácio.

 

 

 

 

O rácio de tudo isto

 

O rácio - a relação, geralmente expressa em percentagem, entre duas grandezas - não falha, é matemática. Enquanto dependemos dele para a aceitação social das nossas vicissitudes, pomo-lo no canto da sombra da sala com orelhas de burro. Fechamos a porta e deixamo-lo lá, com a verdade.

 

Quase três décadas depois da minha ama me explicar o mundo de uma forma tão simples, as pessoas passeiam os cães com um saquinho de plástico na mão e ai de quem não o faça.

 

Quase duas décadas depois da minha amiga surgir de mão dada com a namorada, eu deixei de ter dedos para contar os meus amigos e amigas gay e bissexuais porque são, à vontade, metade do meu universo de amizade. E já o eram na altura da escola, foi a percentagem real, e não eles, quem saiu do armário. E a normalidade veio com ela.

 

Ontem, em conversa com uma amiga, disse-lhe que quase todas as mulheres da minha vida já me confidenciaram terem sido vítimas de alguma destas situações. Em surdina, longe de ouvidos alheios. Acredito que quase todas acham que são uma excepção e que passariam por todos os constrangimentos e vergonhas do único gay da escola e da única portadora de um saquinho de cocó.

 

Eu gostava de lhes dizer num megafone que o rácio delas, e também meu, está escondido algures para belo proveito da identidade de quem manipula, viola e magoa, mas que o havemos de encontrar, pois este resultado está a parecer-me perigosamente mais próximo da totalidade do que da excepção. E, talvez, quando souberem que passámos quase todas por algo assim e que os homens também sofrem do mesmo, possamos ser todos um pouco mais amigos e menos tolerantes com o desrespeito e aí, talvez, possamos andar todos de saquinho de plástico na rua.

 

 

 

#103 josé mayer, não estás sozinho

 

Carta a José Mayer, sem cabeçalho.

 

És o personagem-tipo da novela: há a stripper, há o patrão sem escrúpulos, há o traidor, há a vingativa e agora há o José Mayer. Que te dê algum alento saber que não estás sozinho, que, se tudo correr bem, serás o pioneiro da corrida, o primeiro de muitos a serem acusados e apontados por um comportamento perpetuado por todos nós. Sim, não nos queixarmos às autoridades é responsabilidade nossa, mas não é por isso que temos uma pinga de culpa ou somos menos vítimas. Explico-te porquê:

 

Já que gostas tanto do que está entre as pernas das mulheres e não te imagino com uma grande noção de limites, vamos imaginar então que é um homem a assediar-te, ou seja, alguém que à partida não queres de todo que te aborde sexualmente. Agora imagina, José, que esse homem te massaja o pénis assim como quem não quer a coisa, devagarinho e de vez em quando. Ah, brincadeirinha, né Zé? Estás a vestir-te para filmar e vem esse colega elogiar a tua bunda, reiterar que se tu quiseres ele te leva às estrelas. Estão a filmar e ele apalpa-te, mas não te preocupes, que é só a brincar, não confundas a ficção com a realidade, José. Pensas em dizer ao produtor, ao diretor do projecto e do canal, pensas, magicas, mas será que não se vão rir na tua cara, dizer que és um novato que não percebes como estas coisas funcionam e que esse teu colega é um famigerado ator brincalhão e que tens é de ter calminha porque como tu, Mayer, vou te tratar por Mayer, há tantos outros atores prontos a fazer o trabalho? Vai pela sombra, Mayer, que o teu colega é um doce e só está a brincar contigo.

 

Sessão fotográfica. Tu és a Taís Araújo e no teu lugar está o teu coleguinha que, não sei se te lembras, gostava de te saltar para a espinha. No caso de não te lembrares, ele vai refrescar a tua memória neste momento constrangedor, ao ouvido. 

 

 

Que agradável deve ter sido tirar esta fotografia. A Taís Araújo também faz parte do movimento, Mayer. Ela e Deborah Secco, que, tão novinha, interpretou uma garota que se apaixonava pelo teu personagem. Foram bons os ensaios? Fizeste muitas piadinhas? Sentiste-te bem? E ela, sentiu-se enojada, suja, mal disposta e enraivecida? Não conheço a Deborah Secco, mas é assim que eu me sinto cada vez que pessoas como tu fazem aquilo que tu fazes. Todos os dias.

 

Portanto, fica contentinho, José, que não estás sozinho. José Mayers há no trânsito parado onde não podes fugir, há no café em frente à tua casa onde toda a gente se conhece, há nos idosos que podem dizer o que quiserem porque são idosos, há nos primos adolescentes que já andam a aprender o vocabulário necessário ao assédio, há no colega de trabalho, ou em dois ou em três, há nos namorados das amigas, há nos amigos dos pais, há nos vizinhos do lado.

 

José Mayers há em homens e mulheres que vivem perto de outros homens e mulheres e os destroem, magoam, insultam, desrespeitam e violam a sua saúde mental sem que possamos fazer nada, porque eles estão sempre lá e são aprovados pelo resto da pequena comunidade onde estamos inseridos. Corrijo, sem que pudéssemos fazer nada. Desculpem lá, Mayers, é que a situação, finalmente, mudou.

 

#chegadeassedio

 

 

 

 

 

Pág. 1/2