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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#101 dia 1 de abril e não é mentira

 

Na categoria aparente das futilidades, na qual poderíamos discutir eternamente sobre se é válido o termo futilidade ou não para este assunto, faço-vos chegar uma ideia óptima para quem deseja celebrar o dia das mentiras. Sim, celebra-se qualquer coisinha que queiramos e já andamos todos fartos das notícias falsas à hora do almoço - he he he - sim, já percebemos que o busto do ronaldo era só uma brincadeira do dia das mentiras - he he he - ah... ai não?

 

Portanto,

é já AMANHÃ, dia 1 de Abril, como dizia, que acontece a 6ª edição do STYLE no Alegro de Alfragide.

Fácil de lá chegar, estacionamento, perto do Bounce, só coisas boas.

 

A Vogue vai participar fortemente, vão lá estar a Diretora de Moda, a Editora de Beleza, há Fashion Talks, há bloggers, consultorias, selfies, brindes, concursos, e ainda cartões oferta. Pode-se levar as crias, que elas também têm programas todos giros para elas. Há cabelos com L'Oreal e ainda um sugestões alimentares incríveis, com dietas Paleo à mistura.

 

Ora, eu podia detalhar tudo-tudinho, que eu já sei quem e a que horas vai lá estar. Mas fiquem com o cartaz, a dica e passem lá um excelente dia das mentiras que eu também hei-de lá passar. Verdade?

 

 

#100 sobre o orgulho em propriedade alheia

 

 

Mais ou menos na mesma altura que eu, ela foi tentar aprendar alguma coisa sobre cinema na faculdade. Eu em Lisboa, ela no Porto. Quando regressei ao Porto para estagiar, encontrámo-nos, não nos tornámos logo nas amigas que somos hoje. Hoje, ela é a minha maior confidente, a única pessoa no mundo inteiro com quem tenho uma linguagem distinta, própria, de poucas palavras e entendimento quase instantâneo.

Passou anos a lutar, desde a crise de 2008, entre o cinema e a moda, as suas paixões e talentos. Tentou tanto, quase tudo. Um dia deu o grito de ipiranga e o seu olhar mudou. Esse dia foi há muito pouco tempo. Expedita, pôs mãos à obra, juntou-se a uma velha amiga e ajudou-a a fazer nascer a ideia que, a hoje sócia, tinha há muito na gaveta: vestidos pretos, desenhar só vestidos pretos, para todas as ocasiões.

Como posso eu ter tanto orgulho nela, se, apesar de sempre ao seu lado, em nada pude, com estes 300km que nos separam, contribuir para isto? Como posso ter orgulho de um ser que não depende de mim, a não ser no afecto?

Mas estou cheia dele e aqui estão os links dela. O lançamento é hoje. Parabéns às duas.

 

http://www.dramatheblackdressbrand.com

https://www.instagram.com/dramatheblackdressbrand/

https://www.facebook.com/dramatheblackdressbrand/

 

 

 

 

 

#99 já testei a depilação a laser, fernando pessoa

 

“Não posso ir à praia, que não fiz a depilação, está marcada para quinta-feira, podes este fim-de-semana, só para a semana, mas eu para a semana trabalho, combinamos então para depois” é algo que não me ouvirão mais a dizer. Na vida.

 

A depilação a laser tem dessas coisas boas. Por mais que haja quem diga que não é eterna, garanto que não é por se falhar a manutenção anual que a penugem resistente vai causar qualquer embaraço. Mas eu fiz aquilo da luz pulsada e não ficou bem. Também não ouvem da minha boca e se vêm com essa conversa, eu digo já, de sobrolho levantado: mas eu estava a falar de luz pulsada, por acaso?

Vamos lá falar de coisas sérias, que a nossa pele é um assunto muito sério!

 

Quase repetindo o que já escrevi em publicações passadas, sou filha de médico e muito preocupadinha com os tratamentos que faço, não me meto em qualquer sítio a fazer crioterapias e liftings duvidosos. Não, senhor. Portanto, tenho tudo bem estudado e, já que tenho os apontamentos tirados, aqui segue a partilha de uma parte desses ditos apontamentos.

A lição de hoje é depilação a laser.

Onde?

Clínica Cute. É onde faço todos os meus tratamentos de corpo.

E alguém diz, na hora:

Olha, aqui vem esta com posts pagos.

E eu digo:

Este não é um post pago. E agora, hein? Se hoje recebo ofertas da Cute é porque fui e sou uma cliente assídua e passei a concentrar lá todos os meus tratamentos. Desde a limpeza à pele, ao peeling, às lutas contra a celulite e, agora, à depilação a laser. Estive numa clínica de depilação a laser muito conhecida durante muito tempo e agora que faço a minha depilação na Cute, é tudo muito melhor.

E vocês dizem:

A-han. Ai é? Porquê?

E eu digo: 

Parem com isso. Já fiz o trabalho de casa. E só aconselho aquilo que uso e aprovo!

E chega alguém e pergunta:

Porque é que estás a falar sozinha?

Olho para a esquerda e esse alguém também não está lá. Tenho que descansar, Fernando Pessoa.

 

A Clínica Cute utiliza uma máquina com laser Vectus, e dessas só há duas em Portugal. O Vectus é o único laser com sensor de melanina e é da marca Palomar, “a” marca que desenvolveu a tecnologia laser a nível mundial. Resumindo: é mais rápido, trata áreas maiores em menos tempo e pode ser feito até no verão ou em peles escuras!

 

Depois não digam que não avisei.

#98 make sure your tray table is in its full upright position and that your seat belt is correctly fastened.

 

Enquanto esperava pela raspadinha, o passageiro do 30F batia com as moedas umas nas outras, sem ritmo coincidente com o metrónomo que me implantaram no cérebro aos oito anos de idade, quando entrei na escola de música. Essa pequena dissonância feita do ruído do estanho fez-me encolher os ombros e baixar a cabeça, forçando a cervical no sentido do aconchego em mim própria. A ortopedista disse que o desgaste das minhas vértebras na cervical eram obra do stress, eu acho que também é obra do ser humano aleatório que me rodeia em espaços confinados como aviões e salas de espera.

 

Nos 28A e B, os netos gritam de excitação antes do avião descolar e a avó, no 28C responde-lhes no mesmíssimo volume, mas com uma voz calma. Está satisfeita por viajar com os netos, é uma avó nova - não vou supor que oiça mal - bem arrumada, nada incomodada com o volume do manifesto do entusiasmo. Eu, no 30A, não posso dizer o mesmo. 

 

Duas raparigas falam de trivialidades em cirílico ou algo que se assemelha a uma língua de europa de leste. Ninguém falaria de forma tão displicente e descomprometida se fosse sobre algo importante. Alto, falam alto sem que perceba a razão para tal. Começo a pensar em inglês: could you low down your volume? Não, não se diz assim. Será: could you lower your voice? Baixa-se a voz ou baixa-se o volume da voz? Decidi colocar os dedos na orelhas e, antes de me cansarem as mãos, cansaram-se elas das imaginadas trivialidades.

 

Vinte minutos de voo e a tripulação anuncia finalmente o grande sorteio das raspadinhas ryanair. Eu, que faço frequentemente este voo Porto-Lisboa, tenho a sorte incrível de apanhar a promoção especial "só hoje e neste voo: duas raspadinhas pelo preço de uma". Eu e os outros cem tugas que me acompanham neste voo Porto-Lisboa, que nada mais é do que um autocarro aéreo a dez euros a viagem. Qualquer dia conhecemos os nomes dos assistentes de bordo e pedimos uma bica pro 18C, tal o hábito.

 

Trinta minutos e corre tudo para a aterragem. Lisboa ao fundo, caras coladas às janelas embaciadas que desvendam os corações desenhados em outros voos, a minha cervical a querer cama e almofadas e, de repente, reparo que o senhor piloto se lembrou de começar a aterrar só lá pros lados de alvalade. Pum. Zas zas pum. Aterrámos todos e tudo menos em segurança, cabecinhas a baterem no assento da frente. Ouve-se a musiquinha da felicidade por termos chegado no horário previsto e, pelo menos, 5 resistentes batem palmas com amor. Nunca perceberei quem bate palmas depois de uma aterragem violenta. Ou numa aterragem qualquer. Só o Funchal merece.

 

Vou ficar de pé, como as outras pessoas, nesta fila idiota, à espera que me deixem sair da aeronave em direcção ao mundo real.

Welcome to Lisbon.

 

 

#97 dia pessoal do teatro

 

Não é falta de interesse meu pelo teatro, não. É um amor a resolver, este entre mim e o teatro, uma tesão adiada que vamos ter de concretizar - e guardo no peito a esperança que daí comecemos a namorar para o resto da vida. 

 

 

No outro dia, fui assistir a “Encontrar o Sol” - de Edward Albee, com encenação de Ricardo Neves-Neves - no São Luiz. No fim, os actores conversavam com o público e uma senhora, às tantas, decide expor que considera que nós, actores, artistas, nos queixamos muito - que ela teve uma empresa que quase foi à falência durante a crise e ela pôs mãos à obra e construiu tudo do zero, de novo, com sucesso. Queixamo-nos muito e devíamos era fazer e, já agora, devia haver mais sessões porque realmente assim é difícil, a sala está quase sempre esgotada. Minha senhora, se estiver a ler isto, saiba que nesse momento senti vontade de saltar da cadeira e lhe espetar duas chapadas bem dadas. Mas a Cucha Cavalheiro foi muito mais inteligente do que eu e respondeu apenas o que eu pensei: Nós estamos a fazer, isto é fazer. Num segundo, passam pela memória todas as produções que fiz a custo de nada, equipas e equipas de pessoas com altos níveis académicos a fazer apenas para que isto não morra, para que arte continue, para que a expressão artística exista independentemente das piores crises económicas, para que uma crise económica não resulte sempre numa matança cultural. 

 

A primeira vez que interpretei uma personagem foi num grupo de teatro amador, há já 18 anos. A última vez que fiz teatro foi em 2013 e ainda não recebi os meus honorários. Teatro, teatro, fazes parte de mim.

 

O que dizer no dia mundial do teatro quando só me apetece falar de cinema, dos prémios sophia, dos júris do ica, de tudo o que se anda a passar nesta área em portugal? É mais fácil falar do que sei, ou do que conheço, pelo menos, um pouco.

  

A cerimónia dos Prémios Sophia foi seguida de um after-party que não era de todo uma festa, mas sim um encontro entre convidados e que permitiu falar sobre assuntos importantes da nossa área. Muitos saíram desiludidos com a falta de strobs e de DJs à altura. Confesso que um pouquinho mais de bebida e comida não fariam mal ao nosso povo, mas a maior satisfação que aquilo me deu foi ver que havia um objectivo de encontro para se conversar, para se debater num espaço próprio (ao invés de o fazer na plateia durante a cerimónia) e que esse objectivo, pelo menos por alguns, estava a ser concretizado. 

 

Perco-me no meu raciocínio ao falar de teatro ou de cinema, perco-me ao falar de interpretação, da importância do objecto artístico. É como se tivesse que resumir todos os meus sentimentos sobre a vida e considerações sobre o mundo num parágrafo e quando conseguir fazer isso, bom, talvez já tenha escalado o everest e visitado os monges tibetanos e tenha encontrado o nirvana, algures, perdido nos meus neurónios. Perco-me na definição de teatro, de cinema, de arte, de actor da mesma forma que me quero perder na definição de amor.

 

©Joanna Correia

#96 a fobia da justificação

 

Eu sento-me no computador e ele, ao meu lado, olha distraído e de passagem. Algo o chama a atenção no ecrã, pergunta o que é, respondo. Depois começa a ler o que estou a escrever, inocente curiosidade de um amigo que também é marido e que sabe que não tenho nada a esconder. Conhece os meus desejos mais secretos e os nojos que mais me envergonhariam se alguma vez ditos em voz alta; sabe de mim e sobre mim o que nunca ninguém soube e, mesmo assim, contei-lhe nem metade das histórias que contei aos outros namorados, alguns em particular que pediam muito muito para saber de todas as histórias, todas as histórias. Com esses, um dia cansámo-nos e esse cansaço durou para sempre. Com este está tudo bonito e ainda não temos cansaços humanos. Não comenta nem condena. Eu olho para ele e digo-lhe para parar de ler as conversas. Ele diverte-se, muitas vezes, com o que lê e acha que não faz mal. Eu digo-lhe que faz, até porque as outras pessoas não estão a falar com ele mas comigo. E aí veste o respeito e afasta-se.

 

Na casa dos meus pais, o ecrã do computador está de frente para a porta do quarto que me pertence, o meu na casa deles. O meu pai entra, esquece-se que já passei dos trinta e entra como se eu fosse uma menina, batendo à porta a meio do caminho da entrada. Queres vir jantar uma francesinha? Ah, que interessante, o que é isso que estás a fazer no computador?

 

 

#95 a luxwoman perguntou-me umas coisas e eu respondi

 

Mas isso não me preparou para o impacto de abrir a página da LuxWoman e deparar-me com isto:

 

 

 

Mulheres com atitude e Helena Canhoto no mesmo sítio. Já ganhei o dia. :)

http://www.luxwoman.pt/helena-canhoto/

 

 

Obrigada LuxWOMAN, Carolina Almeida e Masemba pelo simpático convite!

#94 ciclos e coisas que não interessam a ninguém

 

Em 2013, Maio, ele foi embora para a Holanda. Foi ser feliz.

Eu, em Outubro, com ainda 17 anos, lembro-me perfeitamente do momento em que cheguei à Estação de Santa Apolónia, franzina de 50 quilos, com uma mala de cada lado de, à vontade, 25 quilos cada.

 

Na minha vida, os ciclos de começo e fim, acompanham quase sempre os períodos do meu aniversário e do natal. Quem sabe se é porque faço um balanço para ver quem é importante, o que me faz bem, quem me faz mais bem que mal. Depois, sem querer forçar escolhas naturais, há os avarios esporádicos.

 

Começa pela máquina da roupa, depois a bateria do carro, contas em atraso que ninguém tinha topado os envelopes, roupa tingida, dores de barriga, um quisto ou outro que aparece aqui ou ali, médicos, perdemos um cartão, dois cartões, partimos o jarro de água favorito e ainda acompanhamos a onda com uns quantos nãos e desilusões. É, certamente, panca minha, pois da última vez não começou com a máquina da roupa, mas, na minha ideia, começa quase sempre com o raio da máquina da roupa que avaria e aí já sabemos que vem um turbilhão de mudanças e podemos acabar a viver no dubai, se não estivermos atentos.

 

O que fazer nestas alturas?

Não faço a mínima ideia. Eu costumo piorar e ignorar a onda de má sorte e continuar a fazer miliuma coisas, com todas a correrem altamente mal e acabo cansada, de pança mais gorda, recostada no sofá ao fim de mês, mês a meio a pensar: preciso de férias.

 

Contudo, a bateria do carro é nova, os exames estão feitos e está tudo bem, temos dois ou três jarros novos de água e o cartão há-de estar a chegar ao correio. No turbilhão, pessoas deixaram de ser importantes e, com isso, deixaram de ser amigas. Outras, no meio de festas inesperadas, surgem, sem saber de nada, “há tanto tempo helena, não desapareças, gosto tanto de ti”. 

 

Os nossos pais levam-nos ao aeroporto. Catorze anos depois, continuam de olhos marejados na viagem.

Enquanto o meu avião da ponte aérea Porto-Lisboa faz a curva para se posicionar para a descolagem, passo pelo meu irmão a entrar no seu avião da British Airways, que partirá pouco depois do meu. Na autoestrada, a uns metros da pista, estaria a passar o carro deles, de coração e estômagos apertados, como se nos deixassem fora do ninho pela primeira vez.

 

 

#93 a garrafita precisa de amorzito

 

 

Para quem ainda não viu a campanha, aqui vai uma fotografia a uma página de jornal:

 

É. Eu sei.

 

No outro dia estava a gravar com o telemóvel um famoso InstaStories sobre a beleza dos prédios de Lisboa ao pôr-do-sol e, enquanto proferia essa frase cliché mas sempre digna de lembrança, um carro com uns otários quaisquer passou e ouvi: és mesmo ljdhozfg, fazia-te çfhaglijdbeg, ó sfglahfna. Juro que foi isto que disseram. Eu, num tripeiro menos educado, proferi a seguinte frase: “Só para lembrar que os prédios de Lisboa ficam mesmo vai pró cará* ó filho da p*!”. Parei de gravar e ri-me muito, pensando na alegria de aquilo não ser um directo.

 

Ora, a Débora Monteiro tem curvas. Bonitas. E é giríssima. Está tudo bem. E se alguém se atrevesse a soltar verborreias semelhantes às acima retratadas, ela responderia certamente com o nível tripeiro que lhe vai na veia: Bonita é a garrafita, ó morcom! E nisto ficaríamos. Bonita, bonita, é a nova garrafita. Não que eu seja condescendente com estes pseudo-piropos untados a violência, mas juro que aqui só vejo boa intenção. Por exemplo: porquê “Bonita, Bonita” e não “bonito, bonito” que, como toda a gente sabe, é rapidamente completado com algo sobre tomates e, às vezes, as canções de Tozé Brito? Porque a campanha anterior era:

 

 

E isto, sim, é de mau gosto, senhores. Porque toda a gente percebe o trocadilho do “bonito bonito” e do favaíto.

 

Na nova campanha houve, claramente, uma provocação, uma crítica aos anúncios das gajas boas, falando das curvas da garrafa que, essa, sim, é o que interessa.
Contudo, há um tiro no pé. A Débora é bonita, a garrafa é, de facto, para o target, vá, bonita, mas a fotografia é péssima. E a roupa. E a produção. Porquê? Parece que um leitor do post do MCSomsen sobre o assunto acertou:

 

 

Pois quem teve a ideia de melhorar o “bonito bonito”, tirar-lhe a brejeirice, brincar com o sexismo e quase atribuir o poder à mulher nortenha, que, banhada pelo Douro, os manda a todos olhar para as curvas da garrafa, não esteve nada mal. Às tantas tinha esta e mais três ou quatro ideias em carteira, como é comum nestas andanças da publicidade e como o autor do comentário sugere. Mas foi esta a ideia escolhida - afinal, para quê responsabilizarmo-nos por uma subida de bom gosto e tacto do target a que se dirige?  Se a respeitável Débora tivesse sido bem vestidinha com uma direcção de arte à maneira, provavelmente tudo isto teria sido engraçado o suficiente para que o trocadilho,a provocação e o gozo com este tipo de campanhas fosse evidente em um nanosegundo. 


Como nos filmes a gozarem com os maus filmes, cujo target são os espectadores desses mesmos maus filmes, há sempre uma linha muito difícil de definir. E de defender.

Bonita, Bonita, é a nova garrafita e a verdade que é o Favaito continua a ser uma maravilha de se consumir na verdadeira tasca portuguesa, onde ainda nos rimos com os bigodes nojentos e farfalhudos e os calendários das mulheres de Santarém - tascas onde os turistas ainda não nos obrigaram a ter de viver sempre no melhor do bom gosto e onde ainda podemos mandar pra certo sítio os homens dos moscatéis.

 

 

 

#92 desculpa lá, quanto é que ganhas mesmo?

 

Uma vez por ano lá acontece. Menos de 10 euros na conta. Não dá para levantar. Não serve, virtualmente, para nada. É aquele troco que as casas de câmbio não aceitam, aquele arredondamento fofinho com o qual ninguém, nem eu, se costuma importar.

 

Claro, a bateria do carro avaria, ficamos na reserva antes sequer de sair da rua, o Vimeo para profissionais pede o valor de subscrição, os sites, as anuidades que ameaçam: vamos apagar todos os teus dados e mais um par de calças se não pagas hoje!

 

O tempo melhora drasticamente, de um dia de Inverno para o primeiro dia de Verão do ano e tu lembras-te que tens de comprar sandálias porque já ferves das patas e não tarda não tens o que calçar. Tu não, eu, eu estou a falar de mim, bolas. Lá irei, mais próxima fisicamente do poder económico do cartão multibanco da minha mãe, à procura de umas chanclas que me permitam arejar, estar bonita e não escorregar pela calçada portuguesa fora, que o Chiado com tantos turistas fica com a calçada mais polida que o chão do Palácio da Bolsa. Mas não é agora, não, que eu agora tenho exatamente €9,48 na conta.

 

 

Se eu dissesse este texto em voz alta, em tom de monólogo improvisado à frente de uma boa quantidade de gente, conseguiria ver o ar de constrangimento a apoderar-se dos seus olhares. Falar de dinheiro é pecado. É pouca vergonha. Coisa feia. Não se diz, Helena. Nem se pergunta. Não se discutem salários, não se conta como se pagam as viagens às Polinésias por aí espalhadas, não se fala, em nenhuma circunstância, do desconto para comprar a mala da Prada que repetimos há 17 anos nos casamentos da família. Que feio, o dinheiro - diriam.

 

O meu é bonito - exclamaria, se de um monólogo se tratasse, então. O meu dinheiro veio só de sítios bonitos, do amor dos pais que lutaram por ele, veio da minha cabecinha que se põe a trabalhar e a inventar trabalho quando ele não há, vem das minhas personagens, vem do meu amor pelo que faço, o meu dinheiro vem de amor. O meu dinheiro vem é amor. Enquanto o amor não é finito, o dinheiro é. Mas é bonito na mesma. E aquele que virá amanhã também. Bondoso, despudorado e honesto. Como a dona.

 

 

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