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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#90 maria helena vieira da silva

 

Uma amiga liga-me a dar os parabéns. Pessoal, é hoje o meu episódio do Ministério do Tempo. Rebobinámos na box e assistimos, os quatro, à magia moderna de me ver a interpretar a Maria Helena Vieira da Silva numa placa de LEDs luminosos. Para eles, esteve bem e passou num instante. Boa, miúda. Para mim, não foi bem assim.

 

Enquanto passamos pelos vossos televisores como hologramas, apropriamos palavras que vós, espectadores atentos, acreditam desaparecer connosco quando desligam o botão e vão dormir. ( os espectadores desatentos não escutam essas palavras, ouvem manchas sonoras que fazem companhia nos fins de dia, nada contra, acho enternecedor pensar que a minha voz pode fazer parte dessa tecelagem humana.)

 

Escrevo aos espectadores atentos, os que imaginam como será a nossa vida de ler textos, ensaios, talentos naturais a debitar as palavras das personagens que parece que têm sempre tanto a ver connosco. Escrevo para lhes dizer que em cada episódio há dias e dias de trabalho, de doze horas diárias em estúdios, de acordar de madrugada e chegar a noite a casa, de receber textos à última da hora de cenas que ainda estão longe de acontecer e que estão descontextualizadas daquilo que já conhecemos da personagem, textos com palavras que não foram escritas nem pensadas por nós mas, tantas vezes, por pessoas que nunca conhecemos na vida. Com as tais palavras que se tornam nossas. Para lhes lembrar que chegamos a casa e também gostamos de fazer sopa para o jantar, dar um beijo a alguém, tomar um banho, fazer algo de diferente, mas há textos para estudar e de repente já só faltam outra vez cinco horas para acordar e ter a cara mais lavadinha do mundo em frente a lentes e câmaras que nos engordam e disformam para duas dimensões, favorecendo uns e acabando com a auto-estima de muitos, muitos mais.

 

Eu, eu não tenho razão de queixa. Quanto mais trabalho mais gosto do que faço, interpretar é uma fonte infinita de felicidade. Contudo, espectadores atentos, expectantes e especuladores, as palavras não desaparecem quando o televisor desliga. Podem desligar todos os televisores do mundo e destruir todas as boxes e gravadores existentes que o nosso cérebro guarda as palavras, uma a uma, e bebe as personagens e aglutina-as em nós, qual Pessoa, qual Álvaro de Campos. As palavras não vão embora porque nós também não vamos embora e, enquanto se cruzam com os nossos hologramas televisivos, os espectadores atentos e desatentos estão, apenas e na verdade, a ver-nos a crescer. 

 

 

#89 arroios também é lisboa

 

Ali estávamos os dois amigos, sozinhos, agraciados por copos de vinhos incríveis, apresentados pelo dono do Great Tastings, enquanto partilhávamos tártaro de atum com molho de wasabi, vieiras braseadas, crocantes de alheira e pratos de queijo com uvas. O Chef veio à mesa perguntar se estava tudo do nosso agrado.

Conversámos. Por mim, teria juntado toda a equipa na nossa mesa e jantava com eles. Só que o Great Tastings não é no meio dos turistas, nem à frente de uma paragem de tuk tuks. Não é no Príncipe Real, no Intendente ou na Praça das Flores. É no Jardim Constantino, lindo, ao lado da linda fonte da Estefânia. E aí só vai quem conhece Lisboa.

Eu, que conheço um bocadinho de Lisboa, vou lá.

 

 

Great Tastings Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

#88 o restaurante mais bonito de lisboa

 

À entrada, ainda que haja lugares disponíveis, é-se reencaminhado para o bar, numa mezzanine maravihosa. A paixão começa aí: é, na minha opinião, o restaurante mais bonito de lisboa. Não descrevo o espaço porque há um risco demasiado grande em ser injusta, em criar imagens mentais demasiado aquem da realidade. A visita ao Asiático, do famigerado Chef Kiko, é obrigatória pelo seu espaço. Se fosse turista em Lisboa, sairia feliz com a visita - ver arte, comer, comer-arte é tempo mais bem vivido do que em alguns museus.

 

Mas não sou turista em Lisboa. E o meu companheiro cozinha horrorosamente bem, como toda a gente já sabe. E tenho amigas que viveram na ásia e me levam a restaurantes muito fiéis aos sabores asiáticos lá do sítio.

 

O Asiático peca pelas doses pequenas e caras para quem quer satisfazer-se com várias. O couvert é fraquinho e caro. Falha nas texturas - demasiadas a focar-se no gelatinoso e ligeiro - e em informar os clientes que devem usar com fartura as especiarias disponíveis nas mesas. Sem elas, a cru, como eu comi, a comida sabe a pouco. Voltarei para um menu de degustação regado a especiarias e só assim poderei dar o meu veredito final. E para beber mais do pisco sour, que é bom! Contudo, como em alguns museus, uma visita chega.

 

Até lá, deliciar-me-ei vezes sem conta n’O Talho e n' A Cevicheria, que o Chef Kiko, nesses, acertou na mouche.

 

 

O Asiático Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

#87 vamos lá ter um emprego como deve ser

 

Já não é a primeira vez que Candela Peña pede trabalho em público, à comunicação ou em entregas de prémios, sem qualquer pudor. Não tenho como não empatizar com a sua causa. Desta vez, foi na passadeira vermelha dos Goya, que, quando abordada pelos jornalistas, soltou: «Pues muy bien, que me den trabajo, porque llevo meses sin rodar y tengo que pagar la luz y las facturas.»

 

O documentarista Paulo Carneiro chamou-me à atenção para este artigo, que menciona Candela Peña e descreve brevemente a precariedade na área do cinema. Passei para os comentários que, como é habitual - e, pelos vistos, não são só um cancro das publicações portuguesas - são tremendos. Um tipo dizia-lhe que arranjasse um trabalho normal, de gente normal.  E outra: Que vá lavar escadas, como as outras pessoas.

 

Vamos lá ver: o que é ter um trabalho normal? Como gente normal? É ter um trabalho não-qualificado? Não pode ser um trabalho qualquer, como médico, advogado ou professor, com certeza. Porque para esses também é preciso um curso superior, colocações - e eles também correm o risco de se queixarem, atenção. Um trabalho normal é lavar escadas, servir a mesas de restaurantes de segunda que não peçam curso de hotelaria, reposição em armazéns e supermercados, ser funcionária da caixa registadora, empregada doméstica? É isso, não é? Porque fora desses trabalhos, bom, somos todos uns queixinhas exigentes. Trabalho artístico? Isso é para mandriões! Vão trabalhar, chupistas!

 

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