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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#84 o balanço anual

 

2016 vivi-o inteiro na mesma casa. Quem me conhece, sabe o quanto é importante para mim ter uma casa minha, no mesmo lugar, na mesma cidade, durante mais do que meia dúzia de meses. Em 2016 encontrei felicidade em tantos momentos. E chorei também baldes de lágrimas, às vezes misturadas com risos. Em 2016 o mundo revelou-se demasiado cruel, demasiadas pessoas inocentes morreram nas mãos de executores de ideais, de governos e de religiões. Por isso e por mais algumas pequenas coisas, não foi um ano absoluta e inequivocamente feliz. Contudo - e no geral egoísmo da casa, trabalho, amor e amigos - foi maravilhoso. Lancei este blog, estive no elenco de quatro projectos de ficção em televisão e de uma longa-metragem, estreei uma curta que co-protagonizo, viajei todo o ano com ela e terminei o ano a vencer o prémio de melhor atriz num festival de cinema em Marrocos. Criei um projecto que anunciarei amanhã e já tenho outro a ser desenvolvido. Estou em pré-produção para outro filme e tenho milium sonhos com a pujança certa de os realizar. Fui de lua-de-mel, festejei os meus trinta e um anos com mais de quarenta amigos. Tenho todos os meus comigo, vivos, de saúde. E isso, isso é tudo o que isto vale. Hoje já fiz um balanço pessoal, dos que guardo para mim. Faço alguns ao longo do ano, não é preciso o dia trinta e um de dezembro para despertar em mim a capacidade de auto-analisar os contornos do meu percurso. Façam o vosso e, com bondade, lutem sempre por mais e melhor. Portugal e o mundo podem tornar-se, connosco e com as nossas despertas consciências, muito muito melhores.

 

Feliz 2017!

 

#83 resoluções para dois mil e dezassete

 

Há algum tempo, a Sapo perguntou-me pelo meu post das resoluções. E eu fiquei encantada com o interesse. Esse interesse em saber o que constitui as miliuma ideias para o novo ano colocou-me, confesso, um certo peso na escrita deste post. Aos poucos, comecei a sentir que as resoluções para 2017 iam ser muito mais fortes do que as alguma vez rabiscadas em folhas esperançosas de anos anteriores. Este ano novo eu quero, realmente, fazer algo diferente (e/ou a diferença).

 

 

 

#82 capacetes brancos

 

Não aguentei dez minutos a assistir o 60 minutos desta semana.

Comecei a soluçar no choro, de impotência, de empatia, de dor.

Um homem de capacete branco desenterra uma criança viva, com medo e sem choro, a respirar pó de cimento durante horas.

Leva-a para dentro da ambulância e chora no seu ombro. O capacete branco chora, copiosamente, no ombro da criança silenciosa.

 

Pensei: de que serve o dinheiro nestas merdas? Ajuda os que se salvaram, claro. Mas e os que todos os dias são cobertos por escombros?

Para isso existem eles. Um pesquisa rápida leva-me a este site, aqui os nossos trocos apoiam quem salva vidas.

O meu pai abraça-me e eu sinto o conforto de uma casa inteira e uma família (quase) inteira a providenciar-me a ilusão do inabalável e do incondicional, a ilusão a que me agarro um dia ou outro para aguentar todos os outros dias de realidade.

 

Um abraço apertado a todos os que, diariamente, apoiam e ajudam os demais. 

 

 

#81 a cadeira que tinha fita-cola

 

Antes de mais, queremos anunciar que criámos uma menção honrosa porque não podíamos deixar de premiar o excelente trabalho e o... ai tanto árabe e espanhol, deixa-me ver se a minha carteira está bem fechada... Helena Canhoto.

Hum? O que se passa?

Helena, ganhaste! Levanta-te, vai pro palco, estão a bater-te palmas, é para ires, vai!

Porquê? Ganhei o quê? Hum? Não estou a perceber!!

Helena, vai!

Piiiii. 

Parecia que estava drogada. As imagens estava pouco focadas, não conseguia parar de rir e não percebia nada do que estava a acontecer. Foi tudo longo e rápido ao mesmo tempo. Discursei em espanhol, tentei sair do palco antes do discurso e ainda antes da fotografia para a imprensa. Uma confusão absolutamente dominada pela inesperada sensação de felicidade absoluta. Já tinha ganho outros prémios no passado, mas nada se equiparou a esta surpresa.

Sentei-me e perguntei ao meu amigo Tiago:

O que é que eu disse?

Não te preocupes, estiveste muito bem.

Aterrei em Lisboa e amanhã aterrarei no Porto, mas ainda me sinto colada na mesma cadeira marroquina. Não tenho a certeza, mas acho que tinha fita-cola.

 

 

#80 o natal pró menino e prá menina

 

Nos meus pais, aproveitamos a consoada para comer um belíssimo bacalhau e jantarmos os quatro, regados a excelentes vinhos, espumantes e azeite caseiro. Mas há quem tenha muitas prendas para oferecer. Assim, aqui vão umas ideias (desta vez não são miliuma) para vos ajudar:

 

1 - Click & Grow

Testadíssimo, é uma maravilha ter, por exemplo, manjericão fresco e cheiroso sempre à mão.

 

2 - T-shirt rolling stones coleção temporária da zara

Antes que desapareçam ;)

 

 

#79 el comandante

 

A minha terapeuta perguntou-me como é que eu me estava a sentir por causa da morte do Fidel. Fico contente que alguém tenha perguntado. Estou bem, obrigada.

 

O meu Fidel, o motorista que provavelmente já nem se lembra de mim, deve estar confuso com a morte do El Comandante. Ele, o meu taxista, a minha amiga B., a bela Y. que está no Canadá e ainda o N. que está na Colômbia. Todos cubanos, uns de nascença e outros por casamento, e todos meus amigos, sentem uma dicotomia grande relativamente à morte do líder da revolução. Nenhum, naturalmente, festeja.

 

Nestes 57 anos de revolução, como eles lhe chamam, o Fidel passou de salvador da pátria ao pior pesadelo do país. Errou, assumiu alguns erros e escondeu a pior parte da história sem aparentes remorsos. Desenvolveu a cultura e o altíssimo nível intelectual e académico da ilha, ao invés de promover um analfabetismo útil à ditadura. E continuou a deixar morrer cubanos por falta de medicação enquanto eliminava a mortalidade infantil. De Fidel, veio o bom e o mau.

 

 

Vivi nesta escola de cinema que ele inaugura na fotografia. Vivi em terras cubanas, sob o regime de Raúl Castro, investiguei sobre dissidentes políticos e crimes contra a humanidade. Soube (e sei) de coisas muito mais feias do que a maioria das pessoas que lerá este texto possa sequer imaginar. Apesar de tudo isso e da minha pública posição contra o regime de Castro, não festejo, não me sinto aliviada e muito menos indiferente. Há um pesar pela memória colectiva de um sonho e é para esse sonho destruído que vai o meu lamento.