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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#71 como fazer trinta e um anos

 

Não sei, simplesmente chega o dia e não há nada a fazer.

 

Conversava com o T. sobre como sentimos a passagem do tempo. Para ele, tudo parece há trinta anos atrás. A mim, tudo parece ante-ontem. Cheguei a Lisboa ante-ontem, com dezassete. Acabei o curso ante-ontem, em dois mil e oito. Fiz trinta e um anos ante-ontem, mas, em boa verdade, já foi há quase duas semanas. E assim corre, foge o tempo. E eu, que nada sei do meu futuro, não sei se algum dia voltarei a fazer uma festa, por todas as razões explicadas aqui. Sei, todavia, que ainda que tente, nunca voltará a ser igual a que este ano aconteceu.

 

Enquanto recebia o A. e ele me perguntava onde se devia sentar, olhei para o restaurante e vi quase quarenta pessoas bonitas de coração. Emocionada, disse-lhe para se sentar onde quisesse. Perguntou-me, surpreendido, se o restaurante inteiro era meu convidado. Eu disse que sim.

 

Obrigada "A Maria Não Deixa" pela simpatia, pela ajuda e pela forma como nos receberam em vossa casa.

Obrigada às trinta e oito pessoas que jantaram ao meu lado, no meu dia.

 

 

#70 a ansiedade do aniversário

 

Há dois dias que estou com dor de cabeça. Faltam dois dias para o meu aniversário. Todos os anos se manifesta de forma diferente, esta ansiedade pré-celebração. É a minha passagem do ano, é com a medida de Outubro que calibro se o tempo passou depressa, se o ano foi produtivo, quantos meses faltam para isto ou para aquilo. O mês dez a substituir o mês de janeiro, como uma escala de fahrenheit só minha. Faltam dois dias para o meu aniversário. Passou a correr, a vida. E esta ansiedade, a mesma. Decidi fazer festa e entusiasmei-me. Já não fazia uma grande festa desde miúda, naqueles sábados de bolos e jogos e chuva miudinha no parque infantil. As velas, os parabéns e o vazio que comecei a sentir a partir de determinada idade, rodeada de colegas de escola e muito poucos amigos. Nunca fui lá muito feliz na escola, aquelas pessoas diziam-me pouco. Se tivesse saído rapaz, talvez me tivesse integrado através de um qualquer acordo tácito de mais bola nos pés e menos conversa. Mas as miúdas, pelo menos as miúdas do meu tempo, pelo menos algumas dessas relações de colégio, conseguiam ser um fardo a carregar nos penosos anos da adolescência.

 

Vou fazer trinta e um anos. A idade que a minha mãe tinha quando eu nasci, a segunda e mais nova filha. Estamos todos cá, só isso me importa nesta contagem cronológica, continuarmos todos a ficar mais velhos. 

 

Para contornar a ansiedade que se manifesta anualmente, completei consecutivos aniversários a juntar-me apenas com duas, três, uma pessoa. À excepção de Cuba: quando fui para Cuba viver da primeira vez, a minha festa foi a antítese do passado, uma festa de cinco dias, com a escola de cinema em peso, professores, alunos, funcionários, colegas que me organizaram tudo, prendas surpresa de grupo, lagosta desenxabida ao jantar do dia e ainda empregados contratados para fazer mojitos do melhor rum velho cubano - que ainda hoje estou para descobrir quem lhes pagou. Em Cuba, eu era só a Helena, não existia passado nem tão pouco uma expectativa de futuro, não havia nada a não ser comunidade, rum, cinema, cinema, cinema e muita harmonia. Assim celebrámos o aniversário da portuguesa.

 

Este ano apercebi-me que posso estar, no que me diz respeito unicamente a mim e não há nada que diga tanto respeito só a mim como o meu aniversário, rodeada de quem quero, de quem gosto e, mais importante, de quem gosta de mim. Por fim, o número chegou aos três dígitos. Não sei quando voltarei a festejar, se alguma vez o voltarei a fazer. Já recebi a prenda de ter percebido, finalmente, que todas estas pessoas são minhas amigas pelo que sou, faladora, sincera, tantas vezes inconveniente quanto louca. São muitas e boas e estão todas, de uma forma ou de outra, comigo. Agora, ai de quem trouxer bombinhas de mau cheiro. Isso, amigos, já me faz escrever toda uma outra história. De violência. 

 

 

 

#69 a carla matadinho

 

O Z. foi comigo assistir à estreia de "A Mãe Biológica de Marilyn Monroe". Quando saímos, comentei com ele o quanto achei excelente o trabalho da Carla, com quem nunca me havia cruzado. E ele disse para eu fazer um post sobre isso.

 

Aqui está o post.

 

Não conheço a Carla Matadinho a não ser de nome. Foi a produtora executiva da peça. Foi quem me enviou o convite por email e quem me agradeceu a confirmação da minha presença. Foi mãe há três semanas e, mesmo assim, estava tudo a funcionar na perfeição e a folha de sala estava preenchida com logos de apoios e patrocínios. Estava na estreia. Falou com o público, com uma liderança e responsabilidade/honra notáveis. Repito: foi mãe há três semanas. A peça estreou ontem. Nem que fosse só por isso, já valia a pena ir. Viva!

 

Parabéns (a todos)!

 

 

#68 sistema start-stop

 

No dia 24 de Setembro falei sobre recomeços e mudanças. Tinha terminado de gravar "A Impostora" e "Mulheres Assim" havia pouco tempo. Tudo acontece assim, de um dia para o outro. Antes de conseguir perceber que nova fase era esta que eu antecipava, fui dar corpo a mais uma personagem. Desta ainda não posso falar, posso apenas dizer que já terminou e que apesar de muito muito pequenina, me deu um extremo gozo interpretá-la (não me é comum interpretar personagens históricas e é uma delícia!).

 

 

 

#67 mariscada na ribeira

 

Desde o Peixe em Lisboa que procurava incessantemente bons locais para comer caranguejo de casca mole, essa paixão instantânea surgida no último dia do evento. Na Marisqueira Ribamar, em Sesimbra, não os fazem constantemente e ficam-me, com franqueza, fora de mão. Entretanto, experimentei na maravilhosa Miss Jappa mas pareceu-me caro para um maki de tempura do dito caranguejo. Dizem que o Prego na Peixaria já tem, mas ainda não provei. O Chapitô à Mesa serviu-os também em tempura durante uns dias, mas não cheguei a tempo de os degustar. Restava a Marisqueira Azul, na esplanada exterior do Mercado da Ribeira. Confesso que pensei que seria demasiado caro, pela localização e o excelente ambiente e por isso fui adiando a visita.

 

 

 

#66 aquela conversa desagradável sobre cosméticos

 

Contexto: 

Quando terminei o meu curso na faculdade, há uns quantos e bons anos, vivi momentos de muita ansiedade. A crise económica tinha chegado nesse ano e todas as fantásticas perspectivas (e até promessas) de trabalho foram por água abaixo com os pânicos gerais que se criam nessas situações e os despedimentos em massa que aconteceram em 2008. Surgiu aí o hábito de contratar estagiários sem lhes pagar, durante três meses (os chamados estágios curriculares) e assim se foram mantendo abertas as empresas e baixando o nível da qualidade de tudo o que se fez durante um bom período, ou mau período, em Portugal. Foi como uma onda, num mar aparentemente calmo. A água pelo joelho, olho para a areia pelo ombro e quando enfrento o horizonte de novo, já estou a ser levada e enrolada, no meio de espuma e mais espuma, tento respirar quando ela passa mas logo vem outra e outra e outra até deixar de as contar. Por dois ou três meses, foi assim que me senti. Depois entrei numa pós-graduação em Cuba e a minha vida mudou para sempre. E para melhor. 

Nesses meses, tive a minha primeira queda de cabelo. Vivia em Benfica, numa casa que não gostava, num turbilhão de mudança, numa insegurança (literalmente, a rua era perigosa) e inconstância tremendas. Tomava banho, agarrava mechas inteiras que me escorregavam por entre os dedos e chorava. Passou. E passaram os anos.

Depois, ele morreu. Não interessa, não vou afundar-me na tragédia da morte de quem nos é próximo. Interessa o choque, o luto, o corpo reagir por todas as lágrimas que, forte, não deitava. Que disparate, como se não chorar fosse sinal de força. E o cabelo caía até ter chegado a 2013 com um pequeno rabo de cavalo, fininho, diferente do cabelo brilhante, robusto e vigoroso que me caracterizava.