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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#37 consumismo do bom

 

Nos últimos dias tenho implementado mais mudanças na minha vida, das pequeninas opções que acredito virem a tomar proporções muito grandes no que diz respeito ao meu bem-estar. Nunca fui uma pessoa naturalmente feliz, sempre me acusaram de pensar demasiado. Hoje sou eu que dou esse conselho a tantas amigas (tantas das tão poucas que tenho), não penses tanto, mariquinhas.

 

A cada mês que fica para trás, o silêncio toma uma importância crescente no quotidiano. Aprecio o que me rodeia com ouvidos de ouvir, um lobo mau atento mas bem intencionado. Na nossa rua, por exemplo, comecei a reconhecer o barulho dos motores e as vozes dos vizinhos dos outros prédios. A culpa é do sol, que me traz rasgos de paz.

 

Troquei os chinelos de quarto por havaianas, o pijama pelo vestido de dormir, abri as janelas todas da casa e passei a usar o vaporizador da zara home que tanto gosto, voltei a encher a covete do gelo no congelador e arrumei o secador da roupa para um canto. Se os pássaros entrarem, vou ralhar-lhes a sorrir, sem me chatear realmente. Tudo porque hoje voltei a lembrar-me de uma conversa que tive há uns anos, em que dizia ao meu amigo que há truques para nos sobrepormos a este peso que o mundo nos coloca nos ombros e que comigo funciona fechar os olhos e respirar, de preferência, ao pé da rega de fim de tarde de um jardim com relva acabada de cortar.

 

 

#36 mensagem das treze horas e quarenta minutos

 

Falámos de erros, de ideias pré concebidas sobre o que devia ser ou não feito.

 

Erro muito, sinto-me constantemente uma criança escorregadia, de sapatinhos novos num chão de mármore acabado de polir. O lado bom disso é que a cada passo dou é como se dançasse. E o lado bom de errar (sem tretas, porque tantas e tantas vezes errar consegue ser uma grande porcaria) é poder começar de novo. Ora, em coisas tão pouco importantes na grandeza do planeta como as minhas publicações, a minha dieta ou os meus horários, errar torna-se quase um exercício de gozo que permite ter recomeços numa vida que andamos tão viciados em planear (ou eu ando, helena, a ansiosa).

 

Um brevíssimo até já, tenho muito para escrever ainda hoje.

 

 

#35 mas funciona mesmo?

 

A L. viu a minha foto no instagram na inauguração do novo centro Rapid Fit&Well na Expo.

Perguntou-me: funciona mesmo?

 

Menina L, dude, eu não aconselho nada que não considere bom para mim. A L. tinha de ter algum defeito, aparte desta paragem cerebral altamente momentânea é uma amiga do caraças. Sim, claro que funciona. Não há grande dúvida, é só ires lá experimentar (gratuitamente).

 

Mas e o preço? Perguntei-lhe se já tinha experimentado ver o preço de um PT duas vezes por semana, se conseguia aguentar balneário públicos, se já tinha tido lesões por causa de aulas de grupo é que é dada uma reduzidíssima atenção à nossa posição nos exercícios (mais que justificada, é uma aula de grupo), se já tinha ido ao osteopata e visto o que anos de exercícios mal feitos podem fazer ao nosso corpo? Não te preocupes, L., vai lá, diz que vais da parte do Miliuma e pede um treino para saíres de rastos. E tu, sais de rastos? Claro - sem conseguir pronunciar uma frase inteira, mas feliz, que aquilo parece que foi feito pra mim.

 

©Rui Pereira

 

Obrigada Ricardo, Rita e Iva pela simpatia. Até quando é para beber um copinho, eu gosto de vocês.

 

 

 

#34 groselha

 

Quando escrevi o post sobre o meu carinho por carteiras, recebi elogios muito simpáticos de se lerem. Alguém deve ter estado atento e, duplicando a simpatia, convidou-me para ir ver em primeira mão a nova colecção da Furla e da Guess. E eu fui e vi malas com pêlo para abraçar nos dias cinzentos do inverno que ainda não foi embora mas já se antecipa nesta minha ansiedade congénita. E inspirações orientais, como eu adoro. E outras coisas mais, que não esperava.

 

 

 

#33 erro-código-erro

 

Fotografia: Chtcheglov  |  Montra: na Avenida da Liberdade.  |  Mão: a minha.

 

 

Tudo se resolve meu amor, diz-me ela, seguido de um coração digital a tantos quilómetros de distância. Ela, que tem vivido estes trinta anos tão desacomodada quanto eu. E depois lembro-me de um dia meterem dito para não me acomodar. E, até hoje, segui isso tanto à risca que não absorvo o descanso. O meu corpo rejeita o conforto do edredon, dói nas horas em que pára, parece que se enche de peso de consciência em estar parado e cansa-me mais, não me deixando levantar de manhã.

 

Vais errar muito, disseram-me os dois, numa pausa entre o prato e a sobremesa e enquanto fumavam cigarros e eu, ex-fumadora, os observava por entre nuvens de fumo e lhes explicava que o meu blog ia ser sobre mil e uma coisas e eu não teria de me a resignar só a um tema, porque há coisas mais importantes na vida às quais me tenho resignar, como o pagamento às finanças pelo irs ou levar o carro ao mecânico.

 

Escreve posts pequenos, para que ninguém se canse, oh, disseram-me várias pessoas de quem muito gosto mas a quem pergunto: porquê? não quero uma resposta técnica, nem que me quantifiquem o alcance dos posts através de uma comparação percentual entre mancha de imagem e mancha de texto. pergunto: porque é que eu quero que ninguém se canse? Eu gosto de sair de um filme cansada e fechar a última página de um livro em silêncio e precisar de tempo para recuperar. Isto não é (mas também pode ser) apenas entretenimento.

 

O dinheiro não é o mais importante, digo a mim própria. Sei disso quando me despeço dos meus pais antes de entrar no comboio de regresso a casa, sei disso quando ele me abraça na estação do Oriente. Sei disso quando os meus amigos me pagam uma cerveja e perguntam onde estou. Sei disso quando ela, a tantos quilómetros de distância, me envia corações digitais como se eles curassem as minhas feridas. O dinheiro não é sequer importante. Viveria de vouchers de supermercado, da praia e de fazer filmes. O telemóvel partiu, o irs deu-me más notícias, tenho o carro por arranjar e não sou paga pela maior parte do trabalho que faço, pelo que não posso investir em tantos projectos artísticos quanto gostaria, nem posso reclamar com as finanças porque elas só comem mais e mais e mais dinheiro e eu visito os meus pais e eles oferecem ajuda e eu digo que não, porque com esta idade simplesmente não é justo não poder construir um mínimo de património pessoal. 

 

Ela despede-se com xxx porque está em Londres e lá isso significa beijinhos. E eu lembro-me que viveria de vouchers de supermercado, da praia e de fazer filmes se todos eles continuassem (vivos e) aqui.

 

 

#32 o afonsinho quer comer mais?

 

© toddlers and tiaras

 

Há uns tempos perguntei aos meus pais como é que eles faziam quando eu começava uma birra num restaurante, se se revezavam a comer e a trazer-me à rua ou se se chateavam comigo. Sei que não suportam incomodar os outros, pelo que assumi que teriam todo um painel de técnicas para manter o bom ambiente num qualquer sítio a frequentar. Tu não fazias birras nos restaurantes. Como assim, não fazia birras nos restaurantes, se eu era tão inquieta? Como é que vocês conseguiram que eu não fizesse birras nos restaurantes? Nem tu, nem o teu irmão. Educação. Engoli em seco e questionei-me imediatamente como é que eu poderia repetir a proeza da educação quando tivesse filhos. Entretanto fiquei a saber que gostava de tentar roubar uma batatinha frita ou outra de pratos alheios e compreendi finalmente a predilecção. 

 

 

#31 polaroid

 

No dia em que percebi que todos os meus documentos de 2008 a 2013 tinham desaparecido para sempre, não chorei. Eram duas da tarde, enfiei-me debaixo dos lençóis e dormi.

Fiquei de ressaca desde essa quinta-feira até domingo, em silêncio, sem vontade de pronunciar frases inteiras e correr o risco de as perder também. 500 gigas de memória falsa, 5 anos passados quase a viver fora de Portugal, a viajar o mundo, a aprender, a conhecer pessoas das quais nem uma fotografia guardei. E assim ficaram as minhas memórias, quais polaroids instantâneas que se desfazem em três pela tesoura da cozinha e das quais ficas só com a parte desfocada, que não prova coisa alguma.

 

 

#30 chegou o calor

 

Começo a segunda com esta sensação de que é quinta, cinco da tarde, e ainda falta tanto para fazer e tenho tao pouco tempo até ao fim de semana, em que quase me obrigo a não trabalhar, em que exerço o poder de ser patroa de mim própria e me mando para casa, vai helena, está na altura de descansares. E eu, que divido o cargo de gerência com o de faz-tudo lá do sítio, vou para casa, transportando-me da mesa para a chaise longue do sofá, onde não dá jeito nenhum usar o computador, e passo dois dias a alternar entre trabalhar um bocadinho às escondidas e fingir que descanso enquanto penso em todas as coisas que ainda tenho para fazer, que aposto que esta segunda-feira vai começar e me vai parecer que é quinta. Durmo até mais tarde na segunda porque posso, não porque tenha sono, afinal passei o domingo na chaise-longue, mas porque tem de haver alguma vantagem nisto de trabalhar por conta-própria. Por falar em trabalhar por conta-própria, hoje foi diferente, hoje acordei a pensar no IRS. Vivam as segundas-feiras, viva Maio, viva o dia do trabalhador!

 

© Fabrice Pinto

 

O texto poderia acabar assim, com a aparente amargura do início da semana. Trata-se exactamente do oposto. Os dias correm, o IRS faz-se, o dinheiro esgota-se e o sorriso continua, enquanto houver esta luz de fim de quinta-feira na Avenida a iluminar-me. Obrigada Sr Fotógrafo, bela cápsula de memória.