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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#143 o pior dia do ano é quando o português quiser

 

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Enquanto deslizei pelas notícias e vi as imagens dos incêndios, fotografias, bolsas de fumo estáticas no cinzento que outrora fora ar, os meus olhos encheram-se de lágrimas. E escrevi: Portugal que arde. Eu que choro. O silêncio foi regra até me deitar na cama, não quis ouvir as vozes de quem perdeu tudo, novos protagonistas e a mesma história. Pergunta para Portugal: é possível perder tudo mais do que uma vez?

 

Quando procuro casa aqui em Lisboa, tento que não seja ao nível da água do mar, facilmente atingível por uma onda gigante, ou num prédio mal recuperado, sem preocupações anti-sísmicas. Muitos se riem, quase todos, todas. Como se fosse tola, dramática, dizem, sem serem minuciosos no significado de dramatismo. Não quero sobreviver a esta tragédia acompanhada da minha teimosia, do alto de uma colina, no meu apartamento, enquanto vejo a cidade de Lisboa a arder, destruída por um terramoto, uma onda varredora de um mar de corpos, sem ninguém para me dar razão ou chorar comigo.

 

Às vezes, parada no trânsito da Avenida da República, olho à volta e imagino: e se fosse agora? E agora, se fosse agora o terramoto? Agora! Vejo as pessoas saltarem dos carros, os prédios a ruírem, os gritos, o sangue das estacas a trespassarem os músculos, os corpos projectados, o fim da esperança, a maior tragédia, o corpo a ser corpo e a não ter identidade, nenhum de nós com identidade, não há cartão do cidadão, não há dinheiro, só há amor, sobrevivência e morte. Amor que não nos salva, é, será, amor que virará luto e saudade.

 

O trânsito avança e regresso a casa. Queixo-me do trânsito. Abraço o meu namorado e durmo com uma falsa consciência tranquila. Mas hoje a culpa dos incêndios também é minha. Um dia, a culpa do número total de vítimas do terramoto de Lisboa, também será minha. E, claro, dos tolos que me acham tola, que estão ainda mais longe do que eu de começarem, efectivamente, a agir.