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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#141 o acto do amor (às vezes próprio)

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 MARCEL DUCHAMP

 

Com o tempo, aprendi a não gostar das pessoas. A vontade de aguentar a inocência largos passos após as desilusões foi superada pelo despertar pleno, como uma manhã de sol, em paz com a existência de pessoas más. Não quero, com isto, englobar-me nas boas. Sim, eu faço parte das pessoas bondosas mas essa revelação decidi guardar para esta frase. Assim, como quem gosta de Nirvana e muda de estação à segunda estrofe de Pearl Jam, nessa manhã sublime dos meus catorze anos, decidi que não podia gostar de toda a gente. E chorei. Lá se foi o sol.

 

Neste paradoxo que é a vontade de gostar de quem não se tem vontade de gostar, percebi que tudo isto se trata de amor próprio e altruísmo, também eles, quase sempre, contrários. Gostava de avaliar os outros à minha imagem: na inocência do riso alto, da estridência, da organicidade do amor que veiculo. Mas, com o tempo, aprendi a não gostar das pessoas. Ou, pelo menos, de toda a gente.

 

À medida que o grupo de minha apreciação se vai estreitando, perco a necessidade de fazer fretes sociais ou de me silenciar perante o desagrado. Não gosto dele. Não gosto dela. Uau, Helena, que… que… está bem. E assim se afastam, silenciados pelo choque da sinceridade. Eu, errante e boa pessoa, posso não gostar e não viver de amargura. Ainda assim, gosto de mais gente do que a gente que gosta de mim. E, para viver bem com essa condição, espero, de olhos fechado e sorriso no rosto, paciente, pela próxima manhã de sol.

 

Enquanto isso, escrevo a um amigo que os bondosos se unem nesta teia invisível, neste marcador ativado por luz negra que nos identifica no inverno. Mantenho-os, mornos, a uma distância suficientemente próxima para não fugirem. Só estamos à tona quando temos bóias.