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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#138 regresso às aulas

 

E assim termino este ano de merda, com um texto de igual falta de qualidade. Para desabafos desinteressantes e pouco construtivos, já temos os nossos gurus favoritos das prateleiras top de vendas das livrarias. E, hoje, eu.

 

trump kim jon un penis.jpg

 

Caro 2017,

Venho por este meio colocar um ponto e vírgula neste ano desgraçado, pouco idiota e muito mal tratado por mim e pelo mundo. Decidi que, apesar de continuares a existir no calendário, esta segunda-feira começo um novo ano. O facto de, quase uma década depois, voltar a ser aluna, pouco tem a ver com este começo. Não é um regresso, caro 2017, é uma mudança. Envio-te, assim, às urtigas.

 

Como profissional das artes - sensivelzinha, coitada - é de alto sofrimento o estado doente do mundo. As questões ambientais e de política internacional causam-me altíssima consternação. Ainda mais a economia nacional, a hipocrisia do costume e o estado geral de precariedade e desvalorização do nosso ofício. O Trump, o Kim, as suas pilinhas em competição, os tornados que devastam e desalojam, os incêndios que (nos) mataram, o terramoto que se avizinha e que tantos teimam em desvalorizar. A extrema-direita na Alemanha. A extrema-direita ser assunto de extrema-importância.

 

Como mulher nos trintas, apercebo-me da misoginia e machismo que dominam a nossa sociedade e sinto o peso de quando o apelo ao feminismo falha redondamente. Regozijo-me quando há conquistas no caminho da igualdade, enquanto me entristeço com o facto de ser considerada conquista aquela que devia ser a norma ou normalidade. Sensivelzinha, diria, sinto a injustiça do julgamento rápido, instantâneo, a rotulagem impiedosa dos pares, a impaciência e a falta de empatia crescentes. A competição que afoga a nossa individualidade, como se só houvesse um menino e uma menina na turma e estivéssemos, em equipas correspondentes, a lutar por esse lugar no pódio que alguma ideia envernizada instituiu. A crucificação pelo erro, a falta de espaço para a diferença, a sobranceria na atribuição de loucura e a incapacidade de sentir compaixão pela tristeza profunda que vive no peito de quem ri desenfreadamente e perde o controlo. 

 

Como filha e como possível futura mãe, não me trouxeste candura, seu 2017 desgraçado. Questiono-me em que dia comecei a pensar em Marte como uma possibilidade de futuro, onde possamos tratar bem do nosso planeta, ensinar em comunidade, ter estabilidade e autonomia financeira para não preocuparmos os nossos pais até à terceira idade nem adiarmos a maternidade pelas rendas inflacionadas, os empregos precários e o “online há 35 minutos” que nos obrigada a justificar o tempo e a cedê-lo a terceiros com a displicência de quem não percebe que ele nunca vai ser devolvido. Is this the world we live in? 

 

Porque como ser humano, bom, mostrares-me o que é dor, arrependimento, tristeza e doença é de um golpe tão baixo que não me atrevo a mergulhar sobre tal seiva. Prefiro dizer-te que reconheço a minha mea culpa quando me deixei cair e soube viver o egocentrismo da pena e negligencia próprios - essa fealdade de tratarmos mal de nós e nos deixarmos ficar no chão quando o encontramos. Sim, é de tijoleira bem foleira e pirosa como tu, 2017. Eu prefiro voar. Obrigada pelo impulso, que um novo ano é sempre que o humano quiser. (And fuck you.)