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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#136 seis semanas (ou quanto tempo leva o esquecimento)

furacao irma miliuma cuba.jpg

 

Seis semanas foi quanto demorei a ter vontade de voltar a escrever.

 

Seis semanas de férias do blogue, seis semanas a arruinarem as estatísticas que as marcas me pedem para fecharem parcerias.

 

Seis semanas foram o suficiente para a frase passar de Como está o teu blogue para Tu não tinhas um blogue?

 

Em seis semanas filmei um anúncio, gravei uma série do princípio ao fim, fui ao teatro, visitei a minha família nas suas férias algarvias, fui nomeada para dois prémios de melhor atriz e visitei o Porto Santo pela primeira vez. Em seis semanas dormi horas a fio e apanhei consideravelmente pouco sol. Li pouco, comi muito e pensei muito longe do suficiente. Tirei, creio, algumas conclusões.

 

Há uma muito rápida que podemos já iniciar com este próprio post: quanto tempo demora alguém a esquecer-nos? Serão seis semanas sem atualizações, notificações ou outras validações o suficiente para passarmos à história? É preciso justificar a ausência com um até já virtual, para sermos incluídos no plano de pausa anual gentilmente concedido pela comunidade online? E no trabalho? E no amor?

 

Mais do que uma amiga terminou o seu relacionamento recentemente. Por elas, empática crónica que sou, sofro. Ao fim de seis semanas, nenhuma delas se afunda nas saudades. Seguem com a vida com o mesmo à-vontade com que eu me despeço dos meus queridos nas estações de comboio: choro, sozinha, depois do comboio partir, ouço duas, talvez três músicas tristes, resmungo por quase uma semana e volto à minha vida. E essa vida, esta minha vida, é o quê? Este emaranhado de personagens que me servem numa bandeja e me contratam para vestir, será que também elas se esquecem de mim?

 

O furacão Irma passou por Cuba e agora vem José terminar o serviço. Eu, na segurança falsa do meu apartamento em Lisboa, empática crónica que sou, sofro em silêncio por Cuba, meu meio-lar. Passo um sábado em casa a pensar na ilha que me ensinou a ser feliz com muito pouco e na imperfeição dos dias. Lá, os dias eram todos quentes e húmidos e melancólicos. Uma amiga ia agora para Cuba fazer turismo e a viagem foi cancelada por causa dos furacões. Já decidiu que vai em Março. De hoje a Março são vinte e quatro semanas. Quanto tempo vamos nós precisar para esquecer esta noite de destruição? E eles?