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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#134 fãs, quem sois vós

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Sigo, no instagram, uma boa quantidade de figuras ditas públicas. Mais de 90% são minhas colegas ou amigas, pessoas com quem me relaciono na vida não virtual. Todas elas são, como seria de esperar, seres humanos iguais aos outros em variadíssimos aspectos. Comem, dormem, dão puns, têm horários de intestinos, mau-humor, ressaca, mandam piadas secas de vez em quando. Têm constrangimentos, medos, inseguranças e ainda uma porrada de defeitos. Independentemente de tudo isto, proporcional ao número de likes no instagram, surgem as páginas de fãs. A mim já me criaram e desfizeram umas quantas, sem que eu soubesse ou desconfiasse quem assinaria a sua autoria. Uma vez, ainda, pediram-me autorização para fazer uma. Era um garoto, adolescente, simpático e educado. Disse-lhe que não podia dar ou deixar de dar autorização, mas que não era de todo algo com o qual me identificasse e que se ele pudesse não o fazer, que agradecia. E ele desejou-me sorte.

 

Comum a quase todas as páginas das minhas amigas mais ditas públicas, há o perfil de uma rapariga que comenta as fotos com simpatia e familiaridade. Ao princípio, achei que era uma amiga delas. Depois, percebi que era uma comentadora constante de todas as páginas das figuras ditas públicas e a forma como comenta é-me, confesso, assustadora. Uma curiosidade mórbida faz-me ler os seus comentários, contrabalançando a vontade que tenho em bloqueá-la, para que em nenhum momento aceda aos meus conteúdos. Escreve com corações sobre os filhos das amigas, a família, os destinos de férias, pergunta como estão. Nunca obtém resposta.

 

Há uns tempos, havia uma fã de alguém (ou dita fã, porque talvez fã não seja bem isto), que partilhava as coisas mais íntimas sobre si nas páginas das pessoas ditas públicas, como as suas tentativas de engravidar e o anúncio da sua finalmente consumada gravidez. Não consegui rir, fiquei triste por essa pessoa. Não por estar grávida, claro. Mas por ter escolhido o perfil de um qualquer famoso de instagram para partilhar essa notícia. Também esta mulher não obteve resposta. 

 

Nas páginas de fãs espalhadas pela rede, há declarações de amor histriónicas, de amores platónicos e perdidos à nascença, amores de alguém que não se sabe muito bem quem é, por outro alguém projectado num ecrã de televisão, cujos primeiros também não sabem muito bem quem é, pois sabermos o nome, a profissão, se tem mais ou menos talento, se gosta de cães ou gatos e se come muito sushi de entrega ao domicílio, diz-nos realmente muito pouco sobre alguém. Então, porque continuam tantas pessoas - assustadoramente, tantas mulheres adultas - a partilharem a sua vida a troco da esperança de um coração no comentário ou uma resposta enviada pelo perfil de uma dita figura pública? E se a figura fosse realmente pública, com a verdade dos seus mundanos problemas e a realidade escatológica da sua existência, continuaria a existir esse amor platónico e esse like como um sonho para a vida?