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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#132 adeus, misericórdia

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Do alto da escadas da Igreja de São Roque, dois jovens portugueses projectavam a voz enquanto falavam em inglês para um grupo de, pelo menos, quarenta e cinco pessoas. Vínhamos do Príncipe Real, eu e duas amigas. Quando dobrámos a esquina do Largo do Cauteleiro, como muita gente lhe chama, e vi estes dois rapazes a falarem para o público atento, disse-lhes, secretamente orgulhosa da minha área, que queria parar ali para assistir, que devia ser uma performance artística, tão bom. E parei, parámos. “And now we’re gonna drink in at least fifteen more bars and pubs, all night long.” Abri a boca e soltei um altíssimo: o quê?! Aquele grande grupo de estrangeiros, atento e ordenado, estava pronto, à meia noite, para iniciar uma viagem regada a álcool pela cidade, em comitiva, qual rebanho maciço. Não havia artisticidade nenhuma nisto. As minhas amigas riram-se da minha reacção que parecia exagerada. Eu, num misto de choque e tristeza, virei costas ao grupo e olhei o resto da rua da Misericórdia, ao fim de uns meses sem lá passar de noite, olhei com atenção, colada no mesmo quadrado de calçada portuguesa escorregadia.

 

Faz este verão três anos que saí do Largo do Carmo, onde vivi. Para quem não sabe, O Largo do Carmo, a Igreja de São Roque onde os rapazes discursavam, situada no Largo da estátua do Cauteleiro e a Rua da Misericórdia, situam-se todos na zona do Chiado, em Lisboa, a curtas distâncias entre si. A Rua da Misericórdia era, portanto, parte do meu quotidiano, não havia um dia que não passasse por lá. Nesta bolha que me absorveu, nesta cápsula de tempo, olhei as luzes e os turistas em câmara lenta. As minhas amigas desciam a rua embaladas pela inclinação. E eu, eu vi porta sim porta sim de lugares turísticos, descaracterizados, com menus nas montras em inglês e paelhas congeladas de espanha como se fossem um prático típico da capital. A tasca onde almoçava com a minha colega de casa, três euros e meio um mini-prato de comida caseira, tinha um lettering moderno, piroso, de paredes almofadadas em capitoné, uma roupagem estranha e, no mínimo, muito pouco nossa. Não sei se os turistas estavam felizes, não tive vontade de perguntar. É possível.

 

Retomei o meu caminho, em direcção ao Camões e às minhas amigas. Olhei as paredes uma última vez, a tentar lembrar-me de como era quando aquela era a minha casa - tudo o que vi foi Las Vegas, uma cidade que imita sempre alguma coisa, com fachadas luxuosas ao longe e meros contraplacados de perto. E se eu não sou de Las Vegas e encontro-lhe a falta de autenticidade na Strip, não sou de Londres e não gosto da Oxford St, nunca morei em Roma mas me sinto incomodada com as plaquinhas de acrílico a explicar as ruínas a cada pedra partida e não conheço Cancun porque imagino que aquilo deve ter muito pouco de mexicano, então, senhores, comecem a pensar em mandar os menus das paelhas pro lixo e em deixar as toalhas de mesa de papel e em deixar Portugal como ele era quando os estrangeiros se apaixonaram por nós - em vez de igual a tudo o resto que eles já conhecem nos outros dias.