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Miliuma

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#131 costa alentejana e vicentina IV

 

Capítulos anteriores:

Costa Alentejana e Vicentina - parte I

Costa Alentejana e Vicentina - parte II

Costa Alentejana e Vicentina - parte III

 

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A Herdade da Matinha teve direito a uma promessa de regresso. Deixando a Herdade, o primeiro destino foi a Praia do Malhão. Apaixonante e assustadora. O mar, de bandeira amarela hasteada, enrolava uma onda sobre outra onda sobre outra onda e não permitia respirar. Pedras bicudas escondiam-se enquanto a maré enchia, deixando-me imediatamente em alerta, atenta a cada veraneante que decidia mergulhar nas áreas das pedras sem as saber ali. Contudo, apesar do necessário cuidado com o mar, não se pode descer a Costa Vicentina sem visitar o Malhão. 

 

Descemos a costa até Milfontes. Ele queria apresentar-me a casa onde passava férias com a melhor amiga, onde comia gelados quando vinha para o Festival do Sudoeste, os recantos, os miradouros, as esplanadas. Não fiquei encantada com a vila. É banal e desinteressante, parecida com muitas já visitadas, não se me destacou no gosto. A vista do miradouro, essa, é lindíssima. Na praia das pedras amusgadas (ou Praia do Farol), alguém faz mais uma escultura de pedras no meio de tantas outras que compõem o cenário inusitado, quase sinistro. Em silêncio, a criação iniciada em 2016, foi passando como testemunho invisível. Ele caminha e repara esculturas que o vento destruíra - e eu fotografo-o.

Subimos as escadas de madeira até A Choupana, fechado. Era um dos grandes restaurantes que ansiávamos visitar, depois de perceber que os preços da Tasca do Celso eram ridículos, turísticos ou que lhe quiserem chamar. De volta ao carro, encontrámos o Dunas Mil, que nos chamou pela esplanada. O senhor que nos atende afirma que o peixe é fresquíssimo e o marisco também, tudo do dia. O meu rapaz, cozinheiro de profissão, levanta-se prontamente para visitar a montra e escolher os componentes da mariscada desse pôr-do-sol a dois, regressa à mesa e diz-me, em sussurro, que nada daquilo estava fresco. Podia ser só desse dia, mas mentiras sobre a frescura dos alimentos é algo a evitar. Não terão a minha visita outra vez. Pedimos uma comidinha cozinhada, apreciámos a vista e compensámos o banal jantar com uma visita à tal gelataria das delícias. Superei-me com um waffle e segui viagem de alma e estômago felizes.

 

A nossa última etapa desta semana nas Costas Alentejana e Vicentina terminou em Aljezur, na casa da anfitriã Sofia, uma mulher de viagens, literatura e boa comida. No Muxima - que, como indica o site, é um pedaço de terra maravilhosa de 28 hectares - os hóspedes sentem-se numa casa exótica e silenciosa. Os quartos têm casa-de-banho e alpendre, conferindo-lhes uma entrada privativa. Há, também, uma casa mais acima, com suites familiares com kitchenette. Todos os quartos são decorados com um país diferente como tema e toda a decoração foi trazida das viagens pelo mundo que a família faz anualmente. A suite que nos foi atribuída foi a tailandesa e nunca gostei tanto de uma decoração como aquela. Aliás, estou, desde então, desenfreadamente à procura daquelas almofadas triangulares tradicionais tailandesas (gostos da aliteração) para comprar umas para a nossa casa. Há quartos tunisinos, timorenses, indianos e por aí fora. Um dia, perguntei à Sofia se ela não tinha receio que alguém roubasse uma das almofadas ou outra decoração tão exclusiva como estas, ela riu-se e disse prontamente que não. A Sofia acredita que as pessoas que vão para a casa dela são pessoas bonitas e especiais e, de repente e sem ela saber, é essa sua resposta e característica que torna especial a própria casa e a própria anfitriã.

 

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Nesta fronteira entre o Alentejo e o Algarve foi onde melhor comemos durante toda a viagem. Nada foi barato mas há um mar de sugestões muito, muito boas! Algumas das sugestões foram-nos dadas pela Sofia do Muxima, outras por amigos ou encontradas em fóruns ou até outros blogues de viagens. Começando mais a norte, há o Sacas, na Zambujeira do Mar, onde se tem a oportunidade quase única de comer filetes de peixe-aranha (sim, aquele que pica os pezinhos dos meninos), onde uma dose dá, sem dúvida alguma, para duas pessoas. A Tasca D’Arrifana, no que toca a petiscos, foi a melhor visita gastronómica da semana! Que frescura! Peçam o que as simpáticas funcionárias aconselharem e, se não falarem da salada de ovas de choco, peçam na mesma a salada de ovas de choco. Porque não se deve viver sem experimentar uma salada de ovas de choco. Tão extremo quanto isto. Parecem mini lulas redondas e suculentas e muito saborosas. Vou parar de falar da salada de ovas de choco. Pronto. 

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Há também uns quantos restaurantes de cozinha internacional que valem muito a pena. Desses destaco o La Preferida (ai de quem não for!) e o Gulli Bistrot. O primeiro é peruano, com chef peruano de gema. Sentámo-nos numa esplanada simpática e ouvimos música ao vivo ao pôr do sol, com duas meninas do norte da europa que cantavam muito bem, lembrando a sonoridade do When I’m Gone, interpretado aqui assim. Comemos e bebemos como se estivéssemos no Peru. Creio.

 

Em Aljezur, o Pont’a Pé e as suas deliciosas sobremesas de batata doce é uma excelente escolha, bem como a Cervejaria Mar. O III geração, contudo,  é o exemplo do restaurante a não visitar! Demoraram um absoluto disparate de tempo (mais de uma hora) para um prato de polvo perfeitamente normal. A cozinha era visível desde o nosso lugar e podia ver-se pessoal sem fazer nada enquanto desesperávamos por ser servidos. No fim e depois de pagar, tiveram o desplante de perguntar se correu tudo bem, momento que aproveitei para falar do tempo de espera. Prontamente, a funcionária disse que para a próxima pedíssemos salada, que se pedimos polvo, não esperássemos outra coisa. Sorri com a absurdidade do comentário e despedi-me para não mais voltar.

 

Ainda sobre as batatas doces, é importante referir que é o produto mais importante e mais servido na região, a par do Sargo. Vale a pena o desvio por Rogil no regresso a casa e trazer uns pastéis de batata doce do Pão do Rogil, a melhor pastelaria da região. 

 

Na última noite, subimos ao Castelo de Aljezur e passeámos entre vasos de fogo e música clássica. A despedida perfeita de uma semana inesquecível. A, no máximo, meia dúzia de horas de distância de qualquer residente em Portugal, vivem múltiplos paraísos e alguns paraísos orientais ou sul-americanos dentro dos nossos próprios paraísos nacionais. Queria dizer obrigada a todos os que viajaram connosco, mas parece-me demasiado foleiro, então, vou remeter-me ao silêncio, embora agora já saibam que eu queria dizer isso, portanto, é como se tivesse dito. Respiro. Fim.

 

 

 

 

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