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Miliuma

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#129 costa alentejana e vicentina III

Capítulos anteriores:

Costa Alentejana e Vicentina - parte I

Costa Alentejana e Vicentina - parte II

 

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Chegamos ao Cercal do Alentejo e num instante nos aparecem as placas para a Herdade da Matinha. Atenção à estrada, depois de entrarmos na herdade e até chegar às casas (são dois edifícios), vai um caminho louco que não gosta de carros rebaixados ou aceleras. Passamos por cavalos e lembramo-nos da nossa experiência no Oeste, têm sido viagens repletas de coisas boas, realmente. E a Matinha, carinhosamente tratada, foi surpreendente e das melhores experiências deste ano. Estacionado o carro, uma ponte até à casa-mãe, onde fica a recepção.

Simpatia, familiaridade instantânea, vontade de ficar nesta bolha alentejana e desfrutar do espaço - é quase como quem vai para um resort num país tropical e fica lá enfiado o tempo todo, mas neste caso, é no bom sentido! A Matinha tem tudo: o restaurante aberto onde falamos com os responsáveis sobre o que será o nosso jantar e no qual ele entra para a cozinha para provar o molho com a cozinheira, os sofás ao ar livre, as árvores, os recantos, a piscina e a intimidade numa casa individual (pelo menos, a nossa), sem televisão e umas rãs a fazer música pela noite fora. É o momento e o lugar ideal para levar uma garrafa de tinto alentejano e passar a noite na soleira do casario, a ver estrelas de vestido e pés descalços e a beber uma taça. Se vos parece idílico, é verdade. Se não, então não estarei capaz de traduzir em palavras a beleza deste lugar. Manhã seguinte, pequeno-almoço caseiro em buffet, foto no instagram, mensagem privada da J.: atenção, atenção, que o nosso pequeno foi concebido na Matinha. :) Ri-me que nem idiota a olhar para um telemóvel e a quebrar o silêncio dos demais e percebi o porquê de dali ter saído tamanha beleza como o puto da J. Já passou tempo suficiente para saber que comigo a história não se repetiu, mas se fosse a escolher, no futuro, estamos a falar do local ideal para tal. Sem pudores, senhores - se é para fazer “o” amor, na Matinha não falta nada.

 

Apesar do espaço ser uma delícia, o tempo era pouco e tínhamos como missão conhecer vários pontos da costa, ou o lisboeta apresentá-los à tripeira e a tripeira ao seu blog. Neste contexto, com a memória de uma infância regada a Rui Veloso, fomos ver a Ilha do Pessegueiro. Na aproximação, avistando-a, parámos o carro no meio da estrada e saímos: ele, para contemplar a vista, eu para tirar a abelha enfiada na saia que me ia picar e reclamar por dois segundos da minha pouca sorte com a bicharada. Timing perfeito, portanto. Escapada de uma picada que, para uma alérgica como eu, me faria mudar o rumo das férias, olhámos a ilha e recomeçámos a descida até à praia. Lá, poucas pessoas e todas dispersas, ninguém chateava ninguém. Delícia de mar e de vista, estar na Praia da Ilha do Pessegueiro é perder a conta ao tempo. O estômago, esse de relógio embutido, pediu-nos para subir ao restaurante que ali existe e olhar o mar enquanto o alimentávamos, mas nós não acedemos a tal: os preços eram absurdos e a comida não tinha, sequer, bom aspecto. Lamento, estômago, daqui não levas nem uma carcacinha com manteiga. 

 

Decidimos então rumar a norte e ir visitar São Torpes, as suas praias de água quente derivada do aquecimento da imponente estrutura do porto de Sines e almoçar em algum dos restaurantes sobre os quais já tinha lido. Era um dia especial na região, a maior parte dos restaurantes estavam fechados e outros tantos já não serviam almoços aos tardios como nós. Ainda assim, conseguimos petiscar como gente grande, numa esplanada com uma bela vista - Kalux - onde fomos tão, mas tão bem tratados. Vale, realmente, a pena. Mais uma vez, acredito que as negas de todos os outros restaurantes nos levaram a uma fantástica descoberta, que, possivelmente, veio a ser superior em vários aspectos às outras opções, seja pela excelente vista, seja pelo facto de ser menos afamado que a concorrência. Contudo, deixo aqui os nomes e links dos outros que não visitámos, sobre os quais já tinha lido comentários positivos anteriormente e que continuam a despertar curiosidade : Cais da Estação, O Migas e Arte & Sal

 

Na primeira noite jantámos na Herdade da Matinha. Como bem habituados que estamos, o jantar não nos encantou particularmente, principalmente pelo preço praticado. Mais tarde, soubemos que se tratou de uma excepção e que, geralmente, está lá uma pessoa que cozinha muitíssimo bem. Não foi mau, mas foi mais ou menos banal, dentro da nova cozinha de autor. Valeu, sem dúvida, o gin bem servido antes da refeição, num pequeno bar pitoresco onde estávamos sozinhos, numa das muitas divisões da casa principal. 

 

Na noite seguinte jantámos na mais humilde e extraordinária descoberta gastronómica destas férias: O Passarinho. O Passarinho, no Cercal do Alentejo, é a tasca bem-cheirosa. Cheira a batatas fritas e polvo assado, cheira a comida mas não cheira nem a tabaco, nem a suor, nem a sujidade. As mesas, com as toalhas de papel por cima das toalhas de tecido monocromático, as travessas de metal, a meia de vinho da casa e a senhora que aconselha com palavras carinhosas e diminutivos os pratos do dia. N’O Passarinho estava a jantar a maior parte dos trabalhadores que conhecemos na Herdade. Comemos o melhor polvo do ano. O melhor. Os preços? Absurdamente baratos. Se pudesse, jantaria n’O Passarinho uma vez por semana para o resto da minha vida. 

 

Passámos três dias na Herdade e soube a pouco. Só partimos dali para poder explorar o resto da costa com o pouco tempo de férias que nos restava. A Matinha não cansa, rejuvenesce, apaixona e chama por mais. Mas, da próxima, carregada de repelente, que os mosquitos também gostam, e muito, da Herdade.

 

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